Desigualdade da vacinação continua, após redução da idade

Pesquisa mostra a necessidade de territorializar a campanha de imunização, em vez de apenas atentar para a idade. Questões que impedem o acesso à vacina vão além da idade.

Mapa mostra desigualdade da campanha de vacinação na Região Metropolitana de São Paulo. Até de julho as áreas periféricas (em amarelo claro) tinham apenas 20% da população vacinada com a primeira dose (imagem: LabCidade / FAU-USP)

Passamos dos seis meses da campanha de vacinação contra a covid-19 mas a desigualdade social no alcance da vacinação continua. Apesar de algumas cidades já estarem vacinando pessoas muito jovens com a primeira dose das vacinas, ao fazer o cruzamento de dados por idade e bairros da Região Metropolitana de São Paulo nota-se que ainda persiste uma baixa imunização entre as pessoas que moram nas periferias mais pobres.

Estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que, na capital paulista, regiões periféricas do extremo Leste (Guaianases, Cidade Tiradentes e Itaim Paulista), da zona Norte (Brasilândia e Vila Medeiros) e da zona Sul (Campo Limpo e Capão Redondo, Capela do Socorro, Grajaú, Parelheiros e Marsilac) tiveram baixo percentual de pessoas vacinadas com a primeira dose entre a população maior de 40 anos.

Os dados de 12 de julho de 2021 mostram que, o percentual que recebeu a primeira dose do imunizante dentro desse grupo em relação à população total nessa faixa etária variou entre 10% e 50%.

O mesmo foi observado em outras cidades da Região Metropolitana de São Paulo, como as periferias de São Caetano do Sul, Santo André, São Bernardo e Itapevi. Algumas outras cidades aparecem sem cobertura vacinal, provavelmente pelo atraso no registro e envio dos dados, e não foram consideradas no estudo.

Uma das coordenadoras do LabCidade, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Raquel Rolnik avalia a necessidade de entender o fenômeno e agir de acordo. Ela sugere que o resultado pode ser consequência de negacionismo científico, falta de confiança na vacina, dificuldades relativas ao expediente de trabalho, entre outras. “Independentemente do motivo, esse problema se resolve por meio de políticas públicas. O imunizante está disponível e precisa chegar até as pessoas”, diz ela.

A pesquisadora ressalta que a criação de desertos vacinais, além de ampliar desigualdades e vulnerabilidades, inviabiliza a campanha como um todo, conforme a imunização só funcione se for coletiva. Com o estudo, o LabCidade espera que o poder público compreenda a necessidade de chegar a esses locais e pessoas, seja ampliando o horário de atendimento dos postos de vacinação, por meio dos agentes comunitários que podem ir até a casa das pessoas ou criando postos nos pontos de ônibus e nas estações de metrô. “A política pública para funcionar precisa ser territorializada”, afirma Rolnik.

O estudo liderado por Rolnik correlacionou informações do DataSUS sobre vacinação, do Centro de Desenvolvimento Social e Produtivo (Cedesp) para as hospitalizações por covid-19 e do Censo de 2010 sobre a distribuição etária pelos territórios.

Ao cruzar os dados sobre hospitalizações, mortes e de vacinados por CEP (localidade), a equipe do LabCidade tem realizado, desde o início da pandemia, estudos sobre a desigualdade da vacinação e do impacto da covid-19 nos territórios da capital paulista. Desde maio de 2021, a equipe passou a ter acesso aos dados de todo o Estado de São Paulo, o que permitiu ampliar a amostra e realizar o primeiro trabalho sobre a Região Metropolitana de São Paulo.

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Prioridade errada

Estudo anterior, realizado em maio de 2021 pela mesma equipe de pesquisadores, mostrou que a desigualdade vacinal ocorre desde o início da campanha de imunização. Na cidade de São Paulo, os moradores mais pobres das áreas periféricas foram os mais atingidos pela covid-19 e também os que menos tinham sido vacinados.

“Essa comparação foi absolutamente chocante: lugares com maior número de hospitalizações e mortes por covid-19 não estavam sendo imunizados. Isso aconteceu, principalmente, em função do critério de priorização que foi por idade e até maio incluiu apenas profissionais de saúde e comorbidades. Nas periferias a expectativa de vida é menor. Portanto, a população é mais jovem que a do centro expandido da capital”, diz Rolnik.

No entanto, de acordo com a pesquisadora, conforme a campanha foi avançando e passou a atender idades mais baixas e incluiu os grupos profissionais mais atingidos pela covid-19 – como motoristas de ônibus, profissionais de educação e, em alguns municípios da região metropolitana, garis – a expectativa era de que a desigualdade vacinal entre centro e periferia fosse diminuindo. Mas não foi isso o que aconteceu.

A partir dos dados de 12 de julho, quando pessoas com mais de 40 anos passaram a ser imunizadas, Guarulhos, Osasco, Diadema e alguns territórios da zona Norte da capital paulista começaram a ter maior concentração de pessoas que tomaram a primeira dose (relação de vacinados com a população total). “Isso é positivo, pois foram lugares com altos índices de hospitalizações e mortes e também servem como exemplo de que é possível ampliar a proteção contra a covid-19 nas periferias”, explica.

Esses exemplos mostram que, além de ter o imunizante disponível, é preciso ter ações e campanhas para fazer a vacina chegar às pessoas. “O mapa revela mais uma vez que a política pública precisa ser territorializada. Porque se nessas regiões a vacina está disponível e não está chegando até as pessoas, é necessário ter uma estratégia dentro da região e por meio de ações e campanhas mais incisivas por parte das políticas municipais”, ressalta.  

Da Agência FAPESP 

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