17 de julho de 2017 - 9h46

Sabrina Serra Matos: Temos o que temer


AFP
   
Como disse Borges, “certas ideias nascem doces e envelhecem ferozes”. Outras tantas já nascem ferozes, estúpidas e mortíferas. Tudo é possível quando a estupidez se torna pensável (aquilo a que assistimos desde o golpe que nossa democracia sofreu, da degradação explícita do corpo político, da ética, da moral). O estado de exceção não é um simples retorno ao caos que precedeu a ordem, mas, sim, a situação resultante de sua suspensão. Daí o cenário que se apresenta. Como brilhantemente afirma o psicanalista argentino Dessal, “Auschwitz foi a festa de inauguração de um novo paradigma histórico, no qual a ideologia do progresso mostrou seu sentido mortal”. É sempre bom lembrarmos isso.

O que esperar de um sujeito que ocupa o mais alto cargo de uma nação e descaradamente negocia votos de deputados e senadores prometendo aprovação de emendas e tudo o mais que for preciso para manter-se no cargo? E tudo feito às claras e noticiado pela mídia. Fico estarrecida com a cara de pau desse senhor gesticulador que tem a necessidade de mostrar-se o tempo todo, afirmando repetidas vezes que está fazendo o País entrar no rumo (o discurso repetitivo vai se tornando inaudível, senhor presidente!). Será mesmo que ele pensa ou acredita ser um líder? - andei me perguntando. Sabemos que, nos grupos humanos, o líder é o elemento que agrega e centraliza as pessoas em torno de si e de suas ideias. Mas quando tal feito acontece sem que se seja um líder? Sim, porque se se é rejeitado por quase 90% da população, esse cara é líder de quem?

Somente um procedimento como esse (a negociação de compra de votos) já seria motivo para nos causar muito mal-estar, para nos indignar. Mas partindo de quem é ávido por manter-se no cargo custe o que custar e de aliados que sequestraram a democracia, esse somente é um dos atributos mais detestáveis de uma lista longa de posicionamentos e de uma razão cínica e destrutiva que estão a desmantelar o País. A ideia de progresso desse grupo que usurpou a nação é letal e ancorada no declínio total de qualquer compromisso cívico.


*Sabrina Serra Matos é psicóloga, psicanalista e professora.


Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.

 


Fonte: O Povo

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