24 de Janeiro de 2017 - 12h59

A voz do grafite

Jaime Sautchuk *

A fúria do prefeito de São Paulo contra a arte de rua tem um efeito imediato, que é mudar a cara de uma cidade que os paulistanos se acostumaram a ver, com aprovação quase unânime. A cor cinza, da ignorância e do autoritarismo, sufoca a manifestação colorida do livre-pensar.


Mas tem outro significado, de longo prazo e ainda pior. É a tentativa de calar a voz do artista popular, da mesma forma que o governo golpista tenta, no plano federal, silenciar toda a juventude. As ações neste sentido começam pela “escola sem partido”, pela demolição da universidade pública e dos programas que facilitam o acesso ao ensino superior.

A estratégia neoliberal é gerar uma nação de seres calados, com homens e mulheres conformados em ser mão-de-obra barata ou se alistar no exército de reserva de desempregados. Quanto menos acesso ao conhecimento, melhor pro sistema obscurantista de capitalismo selvagem que volta a reinar do país.

Os donos do poder toleram, quando muito, a manifestação artística das elites, restritas a elas próprias ou impostas à sociedade pela grande mídia em formato acabado, manipulador.

Eles preferem gastar o dinheiro público nessa censura explícita ao grafite, em vez de, nas próprias ruas, investir na desobstrução de bueiros e no saneamento básico. Esses, sim, enfeiam as cidades brasileiras.

No entanto, se pensam que irão calar o povo, estão muito enganados. O grafite volta à ilegalidade, mas não sairá dos muros e paredes. Ao contrário, à margem da essa forma de manifestação ganhará a força da rebeldia contra a tentativa de a retirar dos cenários urbanos de todos os quadrantes, do Caburaí ao Chuí.

É bom que se diga que trata-se de um processo desencadeado com maior virulência na capital paulista, pelas mãos do prefeito asseado, amigo do juiz da Lava Jato. Mas ganha igual intensidade em outras cidades administradas pela turma do retrocesso, como é o caso de Belo Horizonte.

Segundo um vídeo que circula nas redes sociais, um rapaz, grafiteiro da capital mineira, foi condenado a oito anos de prisão, sob acusação de agressão ao meio ambiente. Isto, no estado onde está o Rio Doce, vítima de um dos maiores crimes ambientais que se tem notícia, sem que os culpados sejam punidos e os danos ao menos mitigados.

De todo jeito, o importante é que, mesmo apagado, o grafite fala alto.

* Trabalhou nos principais órgãos da imprensa, Estado de SP, Globo, Folha de S.Paulo e Veja. E na imprensa de resistência, Opinião e Movimento. Atuou na BBC de Londres, dirigiu duas emissoras da RBS.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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