17 de Fevereiro de 2017 - 16h35

Não há como ficar calado

Joan Edesson de Oliveira *

Não há como ficar calado. Uma frase curta. Seca, dura, cortante, a resumir em cinco palavras um sentimento que toma conta do Brasil. Quem a proferiu foi Raduan Nassar, hoje, ao receber o Prêmio Camões de Literatura. O discurso em si foi curto, uma dezena de parágrafos, se muito. É que o escritor sabia que com um governo ilegítimo como esse, até o ataque deve ser conciso. Talvez ele tenha lembrado daquele velho ditado, que a gente não gasta vela de libra com defunto ruim.


Raduan Nassar foi preciso. Na caracterização do governo como ilegítimo, fruto de um golpe, como na postura que se espera de nós, consumado que foi esse golpe. Não há como ficar calado.

Raduan Nassar foi preciso, cirúrgico: “Nada é tão azul no nosso Brasil. Vivemos tempos sombrios, muito sombrios.”. E falou sobre o autoritarismo do farsesco ministro Alexandre de Moraes, da ofensa que constitui a sua indicação ao STF, do ataque aos direitos trabalhistas, do desmonte da diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim, da pusilanimidade do STF, da rendição ao neoliberalismo, tudo isso em dois parágrafos apenas.

Roberto Freire, a figura patética que ocupa o cargo de Ministro da Cultura, reagiu como de costume, esbravejando com seu ódio de neoconvertido. Indivíduos como ele precisam sempre ser mais realistas que o rei, precisam provar permanentemente que a defesa que fazem do credo adotado é sincera. Não sabe, o golpista e ignorante Freire, que não precisa se esforçar tanto. Até as pedras sabem que Roberto Freire enterrou há muito qualquer veleidade progressista que um dia possa ter tido. Há muito ele trilhou o caminho da traição de classe, da traição nacional. Ele não precisa mais fazer nenhum esforço para que saibamos de que lado ele está. Há muito que isso ficou claro.

Mas a reação de Freire foi típica do governo ilegítimo que ele representa. Reagiu com ódio, com destempero. Há pouco, outra ministra ameaçou chorar e ir embora ao ler um cartaz de Fora Temer. Ministra que deu uma “turbinada” no seu currículo, como já o fizeram pelo menos dois outros, Serra e o não menos indigesto Moraes. Num governo ilegítimo, até a folha corrida dos seus ministros é falseada.

O ato de Raduan Nassar hoje foi um ato de coragem. Poderia ele, em nome da polidez, dos bons modos burgueses, receber o prêmio e agradecer comovido, e todos iriam tranquilos para suas casas. Mas o escritor preferiu agir feito um velho guerrilheiro das palavras, a gritar alto: Nada é tão azul. Raduan Nassar há de ter percebido na cerimônia de hoje um espaço único de falar pelo povo brasileiro, de denunciar que vivemos tempos sombrios, muito sombrios.

Raduan Nassar, com seus mais de oitenta anos de idade, portou-se hoje como um jovem e afoito líder estudantil, como uma liderança operária, como um valente camponês. Portou-se como um escritor do povo, e fez da cerimônia de hoje uma tribuna do povo brasileiro.

Hoje, 17 de fevereiro, Raduan Nassar lavou a nossa alma. E mostrou como devemos agir, como devemos enfrentar esse governo ilegítimo cada vez mais acuado, cada vez mais escondido atrás dos seus cúmplices, togados ou não.

É necessário que, de uma ponta a outra do Brasil, repitamos com ele: Não há como ficar calado.

* Educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR