3 de Março de 2017 - 9h54

Portela, o rio que não passa de Paulinho da Viola

Urariano Mota *

Em tempos só de angústia, a melhor notícia da semana foi a vitória da escola de samba Portela no carnaval carioca. Devo dizer, o melhor da notícia foi a circunstância rara dessa vitória. A Portela venceu com a música “Foi um rio que passou em minha vida” de Paulinho Viola no enredo. E foi campeã, depois de 33 anos.


 
E o que fala Paulinho da Viola desse momento raro? À sua maneira modesta, que só quer falar das coisas do mundo, minha nega, ele declara: “Eu fico muito feliz e honrado com essa referência. Na verdade, o enredo tratava de rios do mundo, tinha esse samba, de repente, foi um motivo de inspiração, É uma coisa que me honra e eu fiquei muito feliz com isso. Eu continuo dizendo que o mérito é da turma que desfilou, que desenvolveu o enredo e que fez um enredo como pretendia, que era tratar dos rios do mundo. Era o rio Portela e os rios do mundo. Isso que é legal”. 

Então voltou o tempo de Foi um rio que passou em minha vida, à maneira de toda obra de arte, que está sempre renascendo. Eu, que não sou adivinho, mas sou muito metido a adivinhar o futuro, falei pra minha mulher na terça-feira em frente ao Mercado Boa Vista no Recife: “se fosse compositor, eu queria ter composto ‘Foi um rio que passou em minha vida’”. Rapaz metido, louco e pretensioso, eu não queria mais nada. Mas o que entre um frevo e outro eu queria dizer era isto a seguir.

Quando "Foi um rio que passou em minha vida" se lançou em 1970, eu e meus amigos éramos estudantes numa sexta-feira à noite, numa serenata em Maria Farinha, praia do litoral de Pernambuco. Achávamos então que a revolução socialista seria a coisa mais natural do mundo. E por ser assim tão natural, nada demais também que ouvíssemos, plural de modéstia, porque devo dizer: não se espantem, eu ouvi, escutei sem parar e sem cansar mais de 41 vezes seguidas, contínua e incansavelmente foi um rio, foi um rio, foi um rio que passou, foi um rio que passou, no toca-discos ao lado de uma esteira. Naquele ano, e por que não ainda? , todos nós éramos Paulinho, nessa estranha empatia, mistura de identidades que a verdadeira arte produz. Todos nós repetíamos, e repetimos, e repetimos depois a cantar na areia que "meu coração tem mania de amor, e amor não é fácil de achar". À maneira de cantar, gritávamos esses versos então.

Depois, morando na Pensão Princesa Isabel, no centro do Recife, Paulinho era Simplesmente Maria. "Na cidade, é a vida cheia de surpresa, é a ida e a vinda, simplesmente, Maria, Maria, teu filho está sorrindo, faz dele a tua ida, teu consolo e teu destino, Maria...". Nesse tempo, sempre compreendíamos o "faz dele a tua ida" como um "faz dele a tua ira". Enquanto subíamos a escada para um quartinho isolado no alto, da televisão da sala vinha a música, tema de uma telenovela. Ela nos lembrava sempre que estávamos sozinhos e sem mãe, cujo nome também era Maria. À hora dessa música sempre esperávamos algum golpe traiçoeiro da polícia que queria nos matar, sem Maria que nos velasse.

Agora, de volta a 2017, o compositor fala:

“Quero parabenizar os meus companheiros. Na verdade, todo mérito desse desfile, essa vitória, eu acho que tem que ser creditada a pessoas como Monarco, Velha Guarda, como essa turma que segurou essa barra aí. Todos sabem que esses anos todos que a Portela vem lutando pra reconquistar o espaço. Isso que aconteceu hoje foi uma vitória. Eu estou muito feliz”.

Isso é bem Paulinho da Viola, observo. Quero dizer: ele é muitos e vários compositores, é uma soma de gerações de compositores da Velha Guarda do samba. Visto assim do alto, para melhor vê-lo, o compositor Paulinho da Viola é uma reencarnação de sambistas que se foram, se por reencarnação compreendemos as folhas secas que ressurgem no verde, queremos dizer, folhas secas que se fizessem azuis, vermelhas, brancas, negras, quero dizer, por fim, se por reencarnação compreendemos as gerações que voltam reinventadas, algo como um 1920 mudado em 2020, como um 12 mudado para um certo 21, ou: como se Nelson Cavaquinho, Cartola, Wilson Batista, Nelson Sargento, Candeia, sem deixarem de ser eles mesmos fossem um outro, que vem a ser um compositor nascido hoje, a alma dessa gente renascida.

Poderia ser dito que regravar velhos sambas, como Paulinho faz, é simples: basta pôr a voz e gravar. A resposta a isso, sentimos a esta altura, quase nos cala. Falar de um compositor de música somente com palavras não é fala precisa, tiro na mosca. Porque teríamos que falar a quem nos lê: - "Ouça Duas horas da manhã, é Nelson Cavaquinho e é ao mesmo tempo Paulinho, o mesmo Paulinho de Sol e Pedra, e de Coração leviano. Ouça". Porque dizer que ele faz de composições da Velha Guarda composições suas, ou dizer que ele busca na Velha Guarda a própria voz cantada antes, não seria claro e preciso para quem simplesmente nos lê sem a experiência e a felicidade da música de Paulinho. Façamos então um pacto com o mais simples: falemos do tempo de Paulinho da Viola que volta agora, 47 anos depois do samba que o consagrou

O tempo de Paulinho voltou. A Portela desfila soberana num rio que não para de passar.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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