21 de Abril de 2017 - 13h48

Uma forca para o povo

Joan Edesson de Oliveira *

Armou-se o patíbulo para o homem. Antes, erigiu-se o próprio homem em um símbolo. Naquele 21 de abril não se enforcou apenas um. Aquele um simbolizava a rebeldia de todo um território. Aquele um ousara rebelar-se contra o que havia de mais sagrado na época, as vontades, os desígnios, as ordens de sua majestade.


Aquele um era um Joaquim apenas, sem grandes fortunas, que ganhava a vida mascateando, tangendo burros e cumprindo quantos outros ofícios fossem necessários à sobrevivência, mais dura ainda naqueles tempos. Esse fora o seu maior crime, provavelmente. Como ousava um Joaquim qualquer, sem títulos e sem bens, conspirar contra o trono?

Por isso a sentença foi tão dura, naquele e em tantos outros momentos. Felipe, Joaquim, Lucas, Cosme, Gonçalo, Joaquim Divino, Roma, Miguelinho. Tantos, tantos que são inumeráveis, mortos na forca, fuzilados, esquartejados, traídos, delatados, mutilados. Todos apresentados como exemplo, como se a cada um deles se repetisse a sentença: “Não ousem!”.

Não bastou que Joaquim fosse enforcado e esquartejado. Lançou-se contra ele uma maldição, um anátema, amaldiçoados os seus descendentes por todas as gerações futuras, salgado o chão da sua casa e proibido que nele se edificasse.

Naquele 21 de abril, naquele patíbulo, enforcaram o povo brasileiro. Não fora a primeira vez, não seria a última.

Mais de dois séculos decorridos, o patíbulo está novamente armado. Durante mais de uma década o povo brasileiro sonhou com dias melhores. A duras penas arrancou migalhas aos donos do poder. Migalhas que fizeram muita diferença na vida de milhões de brasileiros, mas que nem de longe ameaçavam o sólido edifício do capital.

Entretanto, há sempre o medo de que o povo, uma conquista aqui, um direito ali, um avanço acolá, queira mais. Há sempre o temor de que esse povo, pobre, preto, mestiço, brancarrão, mulato, de mãos calejadas, há sempre o temor de que esse povo queira mais. Há o temor de que esse povo queira casa para morar, escola de qualidade, hospitais e postos de saúde com bom atendimento. É capaz até, quem sabe, que daqui a pouco se comece também a falar em salários dignos.

Pois antes que se comece sequer a pensar sobre isso, é necessário um basta. Não um basta qualquer. É preciso uma sinalização de força. Tirar Dilma da Presidência da República foi apenas um passo, um enforcamento a mais na Praça dos Três Poderes. Mas a sinalização precisa ser muito maior. As elites brasileiras, os verdadeiros donos do poder, mandam um recado claro, duro:

“Apagaremos todas as conquistas da última década e, pela ousadia do zé povinho, apagaremos ainda as conquistas de todas as décadas anteriores.”

Esse é o recado que recebemos, esse é o recado que nos mandam. As reformas da previdência, trabalhista, da educação e todas as demais são uma forca para o povo. Um consórcio de senhores com tentáculos no judiciário, no Ministério Público, na Polícia Federal, no Parlamento, na mídia, ordena o ataque ao povo.

Temer, o Ilegítimo, desfila nesse 21 de abril como o carrasco a serviço da corte, um carrasco feio e vil, de caráter deformado pela traição, um ser abjeto que recebe, onde quer que vá, o desprezo do povo brasileiro. Temer desfila, nesse 21 de abril, como carrasco escolhido e mantido pelas elites enquanto cumprir a sua pérfida tarefa.

Nesse 21 de abril de 2017, mais de duzentos anos depois, os joaquins, o povo brasileiro, novamente subirão ao patíbulo. As câmeras de televisão estão a postos, para mostrar ao vivo o enforcamento de uma nação.

* Educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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