19 de Maio de 2017 - 10h47

Temer, o presidente-fantasma

Urariano Mota *

Entre os significados da palavra fantasma, podemos ver no Dicionário Aulete:

“Suposta aparição de pessoa que já morreu; alma penada; ASSOMBRAÇÃO; ESPECTRO”. Ou então, a seguir: “Imagem sobrenatural que alguém julga ver”. E mais adiante: “Pessoa que apenas aparenta ou representa um papel que deveria ter”


 E mais nos ajuda o bom dicionário:
“Seguindo um substantivo, ao qual se liga por hífen, tem valor de adjetivo e significa 'não existente, fictício, criado para iludir, especialmente com fins fraudulentos’ ”.

É em todos os significados do fantasma acima que devemos ver a criatura, ente monstruoso, Michel Temer. E não estamos forçando a prosa. Temos um presidente que para tão alta honra não foi eleito, primeiro. Temos um fantasma que se tornou a estrela-guia do inferno para os trabalhadores no Brasil, segundo. Temos uma aparição que aliena o petróleo brasileiro para as multinacionais. Temos o beneficiário número 1 da corrupção no congresso, com quem tramou a queda de uma presidenta íntegra. Temos, enfim, com tal alma o recuo do Brasil até as trevas dos direitos humanos. Em qual significado poderíamos enquadrar um presidente sem presidência, uma presidência sem presidente, um governo sem governo, uma autoridade cuja ilusão é o cargo vazio?

Se pensam que é retórica ou palavras mal-ajeitadas, passem um olho no noticiário mais recente, nos protestos de rua, no desencanto e desalento que invadem o coração brasileiro dos últimos dias. Observem a raiva que une todas as gerações, numa verdadeira mistura de cabelos brancos e pretíssimos nos protestos e passeatas. Olhem a base parlamentar de apoio do vagante que começa a se desintegrar. Os ratos começaram o abandono do navio que afunda. Os que ainda resistem – em nome da solidariedade, ah, bufões, destroem até a dignidade dos conceitos - fazem uma aposta na base do “vamos aproveitar as últimas horas do titanic”, enquanto reservam um barco salva-vidas. No minuto final, vão pular fora com a frase mais cínica “em nome do Brasil, pelo povo brasileiro, deixo de apoiar esse desonesto”.

O poder político, moral e de honra está vazio em Brasília. E finge que ocupa a presidência. Então, como enxotá-lo? Xô, fantasma? Mas xô se dirige às galinhas, aos animais de pequeno porte. Como reagir diante das notícias dos últimos dias do fantasma? No interior do palácio, perto da meia-noite, olhem que maravilhoso diálogo foi travado, não previsto na imaginação de Molière ou de Shakespeare:

“Batista - Eu tô de bem com o Eduardo...

Temer - Tem que manter isso, viu?

Batista - Sou investigado. Eu não tenho ainda a denúncia. Aqui, eu dei conta de um lado do juiz, dar uma segurada. Do outro lado, um juiz substituto.

Temer - Que tá segurando os dois.

Batista - Segurando os dois... Ó, eu consegui um procurador dentro da força-tarefa.

Temer - Que tá lá...

Batista - Que também tá me dando informação”.

Nessa clara prevaricação, nessa conversa íntima entre criminosos, o senhor alma no poder declara: “Ainda bem que eu tenho apoio do Congresso. Se eu não tenho apoio do Congresso, eu tô ferrado”. E agora não tem mais. O presidente não tem base real, mas aparece como se vivo estivesse na presidência. Virou alma penada que discursa e grita “Eu não renuncio”. No entanto, à vida ele já renunciou. E quer arreganhar os dentes para ferir, e quer se anunciar como algo a que se deve temer. Mas ele se tornou um fantasma a quem não mais se teme. O próprio nome, Temer, virou piada, caiu no escracho, no deboche. A um presidente assim, só lhe resta renunciar, para sua maior dignidade. Mas como pedir a um fantasma que seja digno? Então que o levemos a assumir a própria nulidade.

O fantasma do Hamlet fala no teatro: “Estou condenado, por um certo prazo, a vagar à noite, e durante o dia confinado, a jejuar no fogo, até que os torpes crimes cometidos em meus dias de vida sejam queimados e expurgados”. Piedade, amigos. Não deixemos mais essa alma penada a sofrer. O povo brasileiro precisa abreviar o prazo do fantasma que ocupa a presidência.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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