26 de Junho de 2017 - 18h44

 Autobiografias e biografias, relicários da memória

Paulo Tedesco *

E por que não falar em memória? Por que não falar em reproduzir nossas memórias e recordações para nossos filhos e netos? Por que não contar, como diz o hino do Rio Grande do Sul, nossas faças para a toda a terra, sempre cantado a todo pulmão antes dos jogos de futebol? Por que não levar adiante, por vezes num esforço último de vida e de lembrança, nossas mais significativas recordações, espécie de monumento de nós mesmos numa sociedade cada vez mais massificada e estandartizada?


Ora, se um computador ou um aparelho celular quebram, e com isso levam para o nada nossas recordações mais caras, por que não tentar salvar em papel e num formato livro aquilo que conseguimos arrumar através de uma narrativa? Pois esse, notadamente, o esforço de muita autopublicação que encontramos. Biografias, autobiografias, relatos de aventura ou histórias pessoais ficcionalizadas, a cada dia são mais frequentes, visto a possibilidade de baixas tiragens e impressões por demanda a custos muito acessíveis.

E que mal há, pergunto? O pessoal mais apressado torce o nariz, ensaiando desdém quando ali deveria identificar o que há de mais honesto e sincero na história contemporânea. Se nas faculdades de história aprendemos que existem as fontes primárias, e essas andam ameaçadas com o crescimento das cidades e a digitalização do conhecimento, essas biografias e autobiografias e correlatos, vêm servindo como uma resposta inteligente ao quadro um tanto sombrio das memórias, tanto individuais como coletivas.

Vamos para exemplos, mais assustadores: há alguns anos uma grande empresa europeia que guardava, como banco digital, os arquivos de fotógrafos pelo mundo afora, simplesmente teve pane em seus sistemas, e por motivo desconhecido seus “back ups” ou cópias de segurança, também não resolveram. Resultado, milhões de fotos e portfólios de fotógrafos profissionais simplesmente evaporaram.

Se esses fotógrafos talvez tivessem confiado numa empresa que também imprimisse ou que houvesse desenvolvido outra forma de segurar as cópias de segurança, esse assunto aqui não entraria. Mas tem mais. Uma gráfica tradicional de quase 30 anos de serviços certo dia quebrou, e, obviamente, se desfez de seus computadores e qualquer material ali desenvolvido. Pode talvez não representar um grande um problema, afinal empresas médias quebram todo o dia no Brasil, mas o desaparecimento dessa gráfica levou consigo, além de empregos, uma inominável memória de tudo que ali foi impresso, em especial dos livros ali revisados e ali produzidos sem qualquer outra versão ao longo de três décadas!

Tudo bem, a voracidade do digital em apresentar novas soluções para velhos problemas, vem sem mostrando impressionante e surpreendente. Mas, o que resta a quem compreende esse salto tecnológico e de consumo e suas repercussões, a não ser lutar humildemente pela preservação da sua própria memória em papel? E aqui minha crítica às tais visões catastróficas na venda de livros. Os números do consumo de livros estão caindo porque os verdadeiros números não mais passam nos scanners das livrarias, tampouco nos algoritmos da internet. Eles estão nas reuniões de família, nos encontros em restaurantes e bares, nos salões de festa e nas paróquias, onde os heroicos autores tentam deixar para o presente sua história e a história de seu país.

* Escritor, consultor e professor de produção escrita editorial

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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