7 de Julho de 2017 - 16h06

 Amado Batista e a tortura voltam

Urariano Mota *

“Eu acho que mereci a tortura. Fiz coisas erradas, os torturadores me corrigiram, assim como uma mãe que corrige um filho. Acho que eu estava errado por estar contra o governo e ter acobertado pessoas que queriam tomar o país à força. Fui torturado, mas mereci”.


A frase acima é do compositor de pérolas Amado Batista. Em 2013, quando comentei essa brutalidade, pude escrever:

A primeira coisa que destaco na frase do cantor Amado é a mentira, sob duas faces. Na que mais aparece, a mentira objetiva, da realidade a que se refere, pois a ninguém deve ser dada a punição da tortura, e no caso de Amado com o agravo do adjetivo “merecida”. Na outra face, mentira subjetiva mesmo, porque o não muito Amado desloca a dor sofrida para a felicidade da ética, aquela em que fazemos o justo, ainda que seja desconfortável.

Por que esse deslocamento? A sua queda na consciência amoral deve ter ocorrido por motivos que ele não declara. Que bom acordo seguiu Amado Batista ao sair da tortura para o sucesso? É claro, todo conformista fala que as pessoas têm que sobreviver. Mas seria reveladora a apresentação da amada conta. Qual foi o seu valor?

A segunda coisa é a vitória do conservadorismo, da repressão, que se encontra na raiz do espírito de escravo e da história da escravidão no Brasil. Amado Batista fala como um escravo que saiu da senzala e se vestiu de senhor. Ele fala como um escravo agraciado que acha justo o pelourinho porque alguma coisa de ruim o homem – ou parecido com homem – que sofre a tortura fez. Castigo merecido, ele declara.E nesse particular, Amado Batista é o retrato de um Brasil oprimido que sobrevive.

Os pobres cujo espírito não se liberta da miséria carregam por toda a vida o respeito à ordem e à autoridade. Se um miserável ou marginalizado recebe a morte ou o espancamento, ele fez por merecer, dizem. Em um Brasil que atravessa a recuperação dolorosa da memória, a frase de Amado Batista é um escárnio.

Assim escrevi em 2013. Nos últimos dias, no entanto, a imprensa divulga sem horror que a frase de Amado Batista continua a expressar uma tradição brasileira. Em Caruaru, Pernambuco, um ladrão foi linchado. Na Madureira, no Rio, um homem foi linchado e queimado vivo por ter roubado a bolsa de uma moradora. “Mas eles eram ladrões”, qualquer bárbaro do Brasil poderia dizer, E se eram, então mereceram... Então, o que dizer das notícias mais recentes de torturas de pais contra filhos? Em São Gonçalo, no Rio, a mãe de uma adolescente comprou corrente e cadeado para melhor educar. A filha foi encontrada com lesões pelo corpo. Há menos de um mês, uma jovem contou que o pai usava chicote para educar, isto é, torturar toda a família: a estudante Gloria Maria de Souza Rocha, de 17 anos, informou em depoimento na Vara da Infância e da Juventude de Santos, no litoral de São Paulo, que o pai tem um chicote em casa para agredir filhos e a mãe. Poderiam dizer, os cúmplices, que tal comportamento é uma exceção.

Então, acompanhem os comentários de leitores do Portal G1 sobre a notícia a respeito da garota torturada pelo pai. Entre 417 comentaristas, há estas chicotadas:

“Apanhei e muito, inclusive de chicote, e agradeço ao meu pai por fazer o homem que sou hoje. Obrigado Papai!! ...

Criança tem que apanhar mesmo, por isso que hoje em dia viram tudo veado e sapatao ou putinha de baile funk!!...

E quem está insatisfeito que pague as contas. De baixo do meu teto eu que mando e se não estiver bom que saia e corra atrás da sua vida...

Eu apanhei muito quando pequeno, e agradeço cada surra que levei. Amo meus pais por terem me castigado com amor e rigor. Olha o que a bíblia diz sobre educar nossos filhos: ‘O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o  ama, desde cedo o castiga"....

Corintiano que não apanha vira travesti depois que cresce....

Se o pai não educa, o tatuador pega, dá tudo na mesma, a modinha agora é ‘tortura’. Filho que honra pai e mãe, não necessita de corretivos."

Pior do que espancar, ou digamos, torturar de uma outra maneira: em dezembro do ano passado, um caso chocou moradores da Zona Leste de São Paulo: um pai, torcedor do Palmeiras, assassinou o próprio filho de 15 anos, corinthiano. A diferença de torcida por times foi a causa, a razão, a propriedade final que o pai fincou na carne do filho.

Em resumo: o que é histórico da escravidão continua em todos os lugares do país. Joaquim Nabuco, o profeta, viu muito bem: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. Amados Batistas sempre voltam. Até quando?

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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