24 de Agosto de 2017 - 9h40

Grandes manobras em torno da Venezuela

Manlio Dinucci *

Os projetores político-midiáticos focados no que se passa no interior da Venezuela, deixam na sombra o que se passa em torno da Venezuela. Na geografia do Pentágono, isso entra na área do Comando Sul dos EUA (Southcom, na sigla em inglês), um dos seis “comandos combatentes unificados” nos quais os EUA dividem o mundo.


O Southcom, que cobre 31 países e 16 territórios da América Latina e Caribe, dispõe de forças terrestres, navais e aéreas e do corpo dos Marines, aos quais se somam as forças especiais e três específicas forças tarefas: a Joint Task Force Bravo, instalada na base aérea de Soto Cano em Honduras, que organiza os exercícios multilaterais e outras operações; a Joint Task Force Guantanamo, na base naval de mesmo nome em Cuba, que efetua “operações de detenção e interrogatório no quadro da guerra ao terrorismo”; a Joint Interagency Task Force South, com base em Key West, Flórida, com a missão oficial de coordenar as “operações antidrogas” em toda a região. A atividade crescente do Southcom indica que o que o presidente Trump disse dia 11 de agosto – “Temos várias opções para a Venezuela, inclusive uma possível ação militar” – não é simples ameaça verbal.

Uma força especial dos Marines, dotados de helicópteros de guerra, foi deslocada em junho passado para Honduras, para operações regionais com duração prevista de seis meses. Sempre no quadro do Southcom, houve em junho em Trinidad e Tobago as manobras Tradewinds, das quais participaram forças de 20 países das Américas e Caribe. Em julho houve no Peru o exercício naval Unitas, do qual participaram 18 países; e, no Paraguai, manobras de forças especiais de 20 países. De 25 julho a 4 de agosto, centenas de oficiais de 20 países tomaram parte na Panamax, manobra oficial destinada à “defesa do Canal do Panamá”.

De 31 julho a 12 de agosto, aconteceu, na Base Conjunta Lewis-McChord (Washington), o Mobility Guardian, “o maior e mais realista exercício de mobilidade aérea”, com a participação de 3.000 homens e 25 parceiros internacionais, especialmente as forças aéreas colombianas e brasileiras, que se dedicaram a missões diurnas e noturnas com as forças dos EUA, da França e da Grã-Bretanha. O “cenário realista” é o de uma grande operação aérea, para transporte rápido de forças e armas para a zona de intervenção. Em outras palavras, um ensaio de intervenção militar na Venezuela hoje ameaçada por Trump.

A base principal seria a vizinha Colômbia, ligada à Otan em 2013, por um acordo de parceria. “Pessoal militar colombiano – documenta a Otan – participou de numerosos cursos na Academia de Oberammergau (Alemanha) e no Colégio da Defesa, da Otan em Roma, e também de numerosas conferências militares de alto nível.”

Que já existe um plano para intervenção militar na Venezuela já foi confirmado pelo almirante Kurt Tidd, comandante do Southcom: em audiência no Senado, dia 6/4/2017, o almirante declarou que “a crescente crise humanitária na Venezuela talvez torne necessária uma resposta regional”.

Para concretizar a ameaça da “opção militar” de Trump, mesmo em contexto diferente, a estratégia é a mesma já usada na Líbia e na Síria: infiltração de forças especiais e mercenários com a missão de jogar gasolina às fogueiras locais para aumentar a tensão social; provocar enfrentamentos armados; acusar o governo de massacrar o próprio povo e, na sequência, a “intervenção humanitária” inevitável, que, seja qual for o nome que tenha, sempre será invasão da Venezuela, por uma coalizão armada comandada pelos EUA.

* Jornalista, geógrafo e cientista político. Escreve regularmente no jornal italiano Il Manifesto

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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