6 de Setembro de 2017 - 19h02

 Quando o dinheiro não cabe em uma cueca

Luciano Rezende *

 Já se passaram 12 anos desde que um assessor de um deputado estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) foi pego com cerca de cem mil dólares na cueca ao tentar embarcar em um aeroporto. E ainda hoje todos se lembram.


Na época, a grande mídia empresarial fez um estardalhaço tão grande, que o presidente nacional do PT, José Genoíno, teve que renunciar ao seu cargo. O deputado do Ceará, José Guimarães, foi bombardeado e sua inocência no caso veio apenas em 2012, por decisão do Supremo Tribunal Federal.

O caso do “cuecão”, batizado assim pela mídia privada, parece que foi ontem embora tenha ocorrido em 8 de julho de 2005. Um episódio folclórico da política brasileira que certamente jamais será esquecido justamente por ser constantemente alimentado pela direita brasileira com símbolo de toda a corrupção existente nesse e em outros mundos.

Os 51 milhões de Geddel Vieira Lima não cabem em uma cueca, mas certamente, em muito breve, caberão no esquecimento dos grandes meios de comunicação e ninguém mais se lembrará disso. Ganhou até um nome mais rebuscado, emprestado do inglês: “bunker”.

De fato, nenhum outro termo seria mais apropriado. São os bunkers os abrigos militares destinados a resistirem aos bombardeios externos. E podem ter certeza, resistirá.

Já o dinheiro na cueca daquele assessor de um deputado petista virou lenda e serve de inspiração até hoje para a grande mídia abastecer os “paneleiros” e outros combatentes seletivos da corrupção.

Ontem mesmo (05/06), quando o dinheiro ainda continuava sendo contado pela Polícia Federal, o foco passou a ser a nova denúncia feita pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, envolvendo Lula, Dilma e outros petistas como membros de uma organização criminosa. Ao contrário do dinheiro mostrado no “bunker” de Geddel, nenhuma prova material foi apresentada por Janot. Mas isso não vem ao caso, não é mesmo?

Esse é apenas um, entre milhares de outros exemplos, de como nossa imprensa promoveu o Golpe no Brasil, alimentando o ódio diariamente, batendo sempre na mesma tecla e disparando sua artilharia pesada apenas contra um alvo: os governos Lula e Dilma.

Será que o presidente nacional do PMDB, senador Romero Jucá, braço direito de Michel Temer, também renunciará ao cargo? Por muito menos que isso a mídia infernizou a vida de José Genoíno até que ele renunciasse à presidência do PT. Ou será que, em razão de seu discurso contra a aprovação da Reforma Trabalhista e suas críticas políticas ao presidente Temer e ao próprio Jucá, a única expulsão nesse partido caberá à senadora Kátia Abreu?

Será que os “calunistas” da Veja, Época, Istoé e O Globo, babarão a mesma quantidade de saliva nesse episódio do dinheiro do “bunker” de Geddel como babaram na cueca petista?
Será que Geddel enfim será preso como foi o assessor do dinheiro na cueca, ou continuará fingindo que anda rastreado por uma tornozeleira eletrônica?

No atual cenário e com a grade mídia cúmplice desse que é o maior assalto à democracia brasileira desde 1964, vai precisar mais do que uma marca de batom na cueca para se provar a relação de um “bunker” de dinheiro na conta do Golpe.

* Diretor de Temas Ecológicos e Ambientais da Fundação Maurício Grabois
É professor na Universidade Federal de Viçosa, campus Florestal.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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