25 de Setembro de 2017 - 10h55

A danada da luta de classes

Elder Vieira *

Há quem não bote fé em sua existência. Há quem, embora a saiba existente, a negue – faz que não vê, tenta não pensar no assunto, não lhe dá trela para que não se faça de importante. Há quem busque combatê-la com apelos à nossa condição humana; a sentimentos caridosos e cristãos. 


Há os que nela vejam a razão mesma da existência, algo que sempre existiu por inerente à sociedade; outros, um dado permanente da paisagem, natural como o sol que se põe ou alvorece o dia. Há quem diga que é invenção de comunistas, que a incitam, promovem, e, qual vampiros, dela se alimentam. Há quem considere alguns lugares ou dimensões da vida a ela imunes - como, por exemplo, a família, as artes, as amizades, o partido comunista...

Bem... Sei que é triste dizer, mas... a danada da luta de classes está em todos os lugares e, qual bactéria, contamina todas as dimensões da vida, e todas, todas as organizações. Ela não é uma invenção de quem quer que seja: é um fato. Fato que nem sempre existiu. Por mais incrível que lhes possa parecer, a humanidade já viveu sem ela, acreditem.

Não, os comunistas não vivem da luta de classes: vivem nela, não a consideram um espectro, e são os seus principais adversários. Diuturnamente, lutam para por-lhe fim, por meio da extinção das causas da divisão dos humanos em classes – a propriedade privada. Por outras palavras, laboram pela igualdade entre as pessoas pugnando pelo fim da propriedade capitalista, o que significa pelejar pela coletivização dos meios que produzem as riquezas, por sua divisão entre os que, com seu trabalho, as produzem.

Eles lutam pelo fim da luta de classes em meio à luta de classes manejando-a como representantes de sua classe, os trabalhadores, os principais interessados no fim da divisão de classes. Como a luta pelo fim das classes se dá por intermédio da luta de classes, e como essa luta está em todos os domínios da vida, a luta de classes se dá também dentro do partido dos que lutam pelos interesses presentes e futuros dos trabalhadores e da nação que esses trabalhadores constroem, o partido comunista, porque o pensamento dominante - das classes dominantes, das classes proprietárias, donas das fábricas, das terras, dos bancos, das mídias, das armas e dos Estados - todo o tempo tenta tomar conta dele, e os comunistas, todos os dias, abrem portas e janelas, sacodem os tapetes, aspiram os cômodos, esfregam os soalhos, espargem fungicidas, porque sabem que a danada da luta de classes, com suas poderosas contradições, sombras e jogos de aparências, está à espreita, para dividir e dominar.

A luta de classes tem parentesco com a guerra, e muita vez assume a forma de uma – guerra declarada, emboscadas, dedos nos gatilhos. Cabanagem, Balaiada, o Dois de Julho, as Revoluções de 30 e 35, a Guerrilha do Araguaia, todas estas e tantas outras foram a expressão bélica da luta de classes.

Numa guerra, perdem-se soldados, vidas, territórios. Os comunistas, na guerra de classes, perdemos um bocado de gente valorosa. Uns... mudaram de lado (algo bem comum); outros... abandonaram o barco e foram cuidar da própria horta; alguns... perderam-se em ilusões as mais diversas (de grandeza, de riqueza, de que talvez lobos e cordeiros possam beber da mesma água sem conflitos, mesmo quando o inevitável sangue derramado assim o conteste); uns... foram literalmente abatidos em combate, mortos ou desaparecidos pelas ditaduras e as traições por elas extorquidas.

Numa guerra declarada há inimigos declarados, corporificados em espiões, delatores, sabotadores, exércitos encabeçados por generais, representantes explícitos dos interesses em contenda. Mas, a luta de classes, se pode assumir a feição da guerra, com seus tanques e obuses, assume também e mais comumente a forma de um jogo em que o inimigo nem sempre se explicita e tampouco se corporifica. Na luta política e ideológica, em especial nas demandas internas das organizações revolucionárias, a coisa não se resume a ‘mocinhos versus vilões’, ou ‘o bem dos puros de coração contra os maquiavélicos mal intencionados’. A luta de classes assume comumente a luta entre idéias estranhas à causa e ideias coerentes com a causa dos trabalhadores. Há pensamentos que aparentam filiarem-se ao ideário das classes dominantes, mas que, vistos de perto, mostram-se os mais marxistas dentre muitos, por serem os mais adequados àquela conjuntura política ou àquela formação histórico-social; e os há que, embrulhados no melhor estilo leninista, não passam de verborragia vazia, que, de tão mecânicos, constructos ideais, mostram-se absolutamente inadequados como conceito ou diretiva. Muitas vezes, configuram-se verdadeiros contrabandos ideológicos, capazes de causar os maiores prejuízos.

Vejam a luta que resultou, no início dos anos 60 do século passado, na Reorganização do PC do Brasil. A coisa começou com o relatório de Kruschev contra Stálin no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, passou pelo canto de sereia dos Três Pacíficos do mesmo Kruschev e veio dar na Declaração de 1958. Prestes tornou-se o porta-voz de nocivo contrabando ideológico. Grabois e Amazonas saíram a campo e explicitaram: há duas orientações políticas que se opunham: uma, expressa na Declaração de 58, inspirada nas patacoadas kruschevistas, desarmava o movimento operário e o colocava a reboque das classes dominantes; outra, matinha os compromissos de classe do Partido e embandeirava trabalhadores na luta por sua emancipação.

Tanto a ala hoje conhecida como revolucionária, liderada por Grabois, Amazonas e Pomar, como a atualmente caracterizada como revisionista, liderada por Prestes, estavam convictas de que faziam o melhor pela causa dos trabalhadores e do povo brasileiro. A vida mostrou que a primeira é que tinha razão e que a segunda mergulhava objetivamente no oportunismo de direita. Naquele então, a maioria do então PCB, Partido Comunista do Brasil, do movimento social e da intelectualidade, ficou com Prestes. Os minoritários foram destituídos de suas funções e depois expulsos (bem verdade que expurgados de um partido ao qual nunca pertenceram, o PC brasileiro).

Todo esse episódio fez de Prestes um “inimigo a ser eliminado”? Toda essa lamentável cisão causada por um contrabando comprado pelo mais importante revolucionário brasileiro do século XX apaga sua história e sua importância para a causa do Brasil e de seu povo? Obviamente que não. Prestes, apesar dos galardões justamente ganhos, ou até por conta deles, tornava-se um importante adversário cujas idéias deveriam ser combatidas. Não se tratava de uma luta entre personas. Tanto que, quando a revista Cruzeiro tentou envolver Amazonas em maledicências contra Prestes, ele foi enfático ao dizer que as divergências não deixavam de fazer do Cavaleiro da Esperança um homem honrado.

A luta de classes assumiu a forma de luta de idéias interna. Essa luta chegou a um ponto insolúvel, tornou-se antagonismo, cristalizou-se em correntes que, ao cabo, tornaram-se alas. A solução foi a ruptura entre revolucionários e revisionistas, e a reorganização do instrumento da transformação social, que manteve seu nome, Partido Comunista do Brasil, mas alterou sua sigla, que passou a ser PCdoB.

Desde então, outras lutas ocorreram. Algumas redundaram, infelizmente, em expulsões, episódios sempre traumáticos. Essas lutas temperaram o Partido. Hoje, ele não vive cismas, enfrentamentos que comprometam sua unidade. Vez ou outra aparece alguém achando duas linhas onde não tem, é verdade, mas isso é da vida.

No recentíssimo debate que envolveu as formulações “Frente Ampla” e “União Nacional”, por exemplo, houve quem ressuscitasse a disjuntiva apontada por Grabois nos embates de fins da década de 50 da vigésima centúria com os reformistas (“duas linhas, duas orientações”). Nada com menor grau de parentesco. Alguns chegaram a ver, e outros, a ironizar, o ressurgimento da ilusão com o conceito de ‘burguesia nacional’ na proposta de união de forças nacionais contra o imperialismo. Lançar mão de um fantasma para se contrapor a um dado ponto de vista não ajuda o entendimento. Olhando bem de perto, não havia divergência de percurso nos caminhos propostos, apenas uma diferença de metros em cumprimento e largura de via. No que respeita o conteúdo, tudo o mesmo. A diferença residia que caminhando talvez um pouco mais, ao invés da pracinha do bairro, pudéssemos chegar à praça central da cidade, onde circula, em número e qualidade, mais variada gente.

Hoje, quem propôs união foi pregar em outra freguesia. Isso fazendo, parece demonstrar que não sabe manejar bem as leis que regem a luta de idéias e descredencia-se ao posto de marechal de exército a que parecia vocacionado. Mas isso também é da vida. O que fica disso tudo é que, sob a luta de classes, sobretudo quando ela assume a forma de luta de ideias, aparência e essência jamais coincidem.

- Por que nos lembra disso, insone teclador? Por que assombra nossa madrugadas com essas verdades tão dura quanto incômodas, quando mais necessitados estamos de esperança?
Porque tenho testemunhado muita perplexidade, sofrimento e atonia. Se a hora não é de ilusões, nem de bravatas, é de atenção, sentidos aguçados, movimentos a um tempo prestos e refletidos - pra juntar e manter muitos juntos, a fim de acumular força. Qual esfinge de Édipo, a fera que dá título a esse artigo quer nos devorar antes que a decifremos. Nossa esperança está em olhar a fera nos olhos. Só assim podemos resolvê-la.

* Escritor, servidor público, militante do PCdoB desde 1983

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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