9 de Outubro de 2017 - 9h18

As três formas da luta de classes e a importância da luta teórica

Raul Carrion *

Os marxistas vulgares – partindo da premissa de que na história os fatores econômicos são determinantes – concluem erroneamente que a consciência social é mero reflexo da economia e dela decorrente.


Da mesma forma – visto que “a teoria nasce da prática” e “a prática é o critério da verdade” – concluem que a teoria é uma decorrência imediata da prática, ignorando a importância que os fundadores do materialismo histórico e dialético sempre deram à investigação científica da essência dos fenômenos e das concatenações internas de todas as coisas. O que não nos é proporcionado de forma direta pela prática. Marx nos ensina, inclusive, que “se aparência e essência coincidissem, toda e qualquer ciência seria supérflua”. E João Amazonas complementa: “é a teoria que generaliza a experiência, que revela as leis objetivas em atuação”.

Ao contrário de uma visão mecanicista e ingênua, os grandes pensadores marxistas dedicaram grande parte de suas vidas ao desenvolvimento da teoria revolucionária, sempre vinculando a prática à teoria e a luta prática à luta teórica. Não por acaso, a obra de Marx e Engels ocupa dezenas de volumes. O mesmo pode ser dito em relação a Lenin e a outros renomados marxistas.

E não se pense que essa enorme produção se deu em momentos de “folga” ou de calmaria da luta de classes. O Manifesto Comunista foi elaborado às vésperas da grande vaga das revoluções de 1848. Fruto de mais de 10 anos de investigações, Marx lançou em 1867 – quatro anos antes da Comuna de Paris – o Livro 1 de O Capital e dedicou praticamente o resto de sua vida a complementação dessa obra. Caberá a Engels organizar e publicar os Livros 2 e 3 d’O Capital, após a morte de Marx.

Já o livro As duas táticas da socialdemocracia, de Lenin, foi escrito no contexto da revolução de 1905. Três anos depois, enfrentando a onda contrarrevolucionária que lhe seguiu, Lenin escreverá Materialismo e Empiriocriticismo, atualizando e desenvolvendo o materialismo dialético, frente às novas descobertas da física e da Teoria da Relatividade. Nele, combateu o idealismo filosófico, que ressurgia com força e dizia que o marxismo estava superado. Da mesma forma, Lenin publicará em 1917 – às vésperas da revolução de outubro – O imperialismo, fase superior do capitalismo e O Estado e a Revolução, armando o proletariado russo para a conquista do poder.

Certamente os nossos “praticistas” estarão pensando que Marx, Engels e Lenin ou não tinham nada para fazer ou eram grandes “teoricistas”, descompromissados com as lutas concretas...

Ao contrário, o problema é que Marx compreendia a importância da consciência dos homens na luta transformadora e sabia que “o que difere a mais engenhosa abelha do mais comum dos homens é que tudo que este faz passa antes pelo seu pensamento.” Além disso, sabia que “os pensamentos da classe dominante também são, em todas as épocas, os pensamentos dominantes (...) a classe que tem o poder material dominante numa dada sociedade é também a potência dominante espiritual”.

Tendo em vista que são os homens que fazem a história, a crítica teórica à ideologia burguesa dominante – capaz de conquistar inclusive da mente dos explorados – é decisiva para o avanço da revolução.

Por essa razão, Engels afirmará em 1994 – referindo-se à luta do proletariado alemão – que “pela primeira vez desde que existe o movimento operário, a luta se desenvolve em forma metódica em suas três direções combinadas e relacionadas entre si: teórica, política e econômico-prática (resistência aos capitalistas). Nesse ataque concentrado, por assim dizer, residem precisamente a força e a invencibilidade do movimento alemão.”

Lenin, quase 30 anos depois, endossará essas palavras de Engels, afirmando que “sem teoria revolucionária não pode haver também movimento revolucionário. (...) Engels reconhece na grande luta da socialdemocracia não duas formas (a política e a econômica) – como se faz entre nós – mas três, colocando ao seu lado a luta teórica.”

João Amazonas, diante da crise do socialismo, dirá no final do século XX: “Prescindir da teoria ou rebaixar o seu papel é uma forma de descartar o socialismo (...) das três formas de luta de classes – econômica, política e teórica –, a que se referia Engels, precisamente a luta teórica ganha maior dimensão nos dias de hoje (...) nas condições atuais do mundo e do nosso país, a frente teórica adquire importância sobressalente, de primeiro plano.(...) salta à vista a extraordinária importância que assume a luta teórica (...) sem superar essa crise, não haverá revolução socialista, proletário-revolucionária, em nenhuma parte do mundo.”

E referindo-se aos que reduzem a luta teórica a qualquer debate de ideias e se dispõem a tratar unicamente os problemas mais candentes do dia a dia, João Amazonas adverte: “Há companheiros que dizem (...) que agora é só cuidar dos problemas atuais (...) tal opinião não faz mais do que repetir Berstein, que dizia que o objetivo é nada e o movimento é tudo. Movimento sem uma teoria que ilumine o caminho não leva a coisa alguma.”

Concluo perguntando: há, por acaso, contradição entre destacar a existência dessas três formas da luta de classes e a defesa que o PCdoB faz da necessidade de acumularmos forças nas frentes institucional, de massas e da luta de ideias? Penso eu não, desde que tenhamos claro que a luta política não se reduz à atuação institucional e que nem toda a luta de ideias é uma luta teórica. Enfim, que compreendamos que a luta política, a luta de massas e a luta teórica são tarefas permanentes de todos os comunistas!

* Historiador e membro da Comissão Política do PCdoB/RS. Foi vereador de Porto Alegre em três legislaturas e deputado estadual do RS por duas legislaturas. Atualmente, preside a Fundação Maurício Grabois-RS

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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