13 de Outubro de 2017 - 13h46

O filme Vazante e a escravidão

Urariano Mota *

 .


Sobre Vazante, o crítico Inácio Araujo, da Folha de São Paulo, escreveu no texto, que a partir do título “Submersa em esteticismo, obra aplaina horror da escravidão” é um achado:

“O filme de Daniela Thomas buscou reconstituição esmerada de 1821, atores estrangeiros, referências iconográficas precisas, locações cuidadosamente escolhidas. E, no entanto... deixa escapar qualquer possibilidade de retratar com força o tráfico e a sociedade escravocrata, a opressão étnica e patriarcal.

‘Vazante’ lança contradições de nossa formação e produz delas uma versão acomodatícia. Fosse esse ou não o desejo da diretora, os horrores do escravismo aplainam-se. Afogado em esteticismo, termina por ser um filme tão frouxo quanto estéril”

Da reportagem destacamos:

“Em Brasília, Daniela Thomas disse não ter feito um filme militante e nem ter tido intenção de fazer um retrato definitivo sobre a questão racial.

O crítico de cinema Juliano Gomes, da revista ‘Cinética’, argumentou que invocar essa posição de neutralidade em 2017 é impossível. ‘Seu filme é político, sim, e está profundamente a serviço do status quo’....

A cineasta paulistana Jéssica Queiroz também se sentiu incomodada com o retrato pintado em ‘Vazante’.

‘Os personagens negros não são individualizados. São um objeto em cena, uma grande massa negra escravizada’. Não acredito que a arte possa ser separada da visão política. Principalmente no momento em que vivemos’, avalia. ‘A arte precisa dizer alguma coisa, ter a ambição de mudar a realidade. Como produtora negra, da periferia, não posso fugir disso’

Para  o cineasta Chico Santos:

‘Houve uma tensão que considero extremamente saudável. Seria estranho se a população negra continuasse muda. Muitas vezes não estamos acostumados a ouvir vozes que sempre estiveram historicamente caladas. Ninguém está totalmente isento disso. Para nós do Coletivo Bodoque, esse foi o susto de Daniela’ "

A coisa boa desse filme tem sido provocar a expressão que protesta. Mas “isso não pode”, os conservadores reclamam. Mais de um cínico de direita já declarou que a esquerda rebelde quer censurar o cinema. Esse tipo de argumento é conhecido, sabemos. A direita, para sua pregação das trevas, sempre reivindica a sua, própria, liberdade de opinião. Se querem falar, que falem, mas aguentem a viva resposta. Para nós, democratas, o caso é dar livre curso à fala que critica o velho mundo.

Quando conheci “12 anos de escravidão”, pude notar que a realidade brasileira era ainda mais cruel que a mostrada no filme dos Estados Unidos. Mas os corações mais delicados, e hipócritas do Brasil por extensão, se recusavam a ver que os negros escravos aqui eram passados em moendas de cana, que lhes expulsavam as vísceras como bagaço. Que outros escravos, após o chicote, condenados à morte tinham as feridas abertas lambidos por bois. E nem era preciso falar o quanto é áspera e cruel a língua de um boi. As peles negras eram arrancadas no sangue e mel.

Dos anúncios passados do Diário de Pernambuco, copio alguns registros históricos como os seguintes:

“Terça-feira, 6 de novembro de 1866

Fugio - Fugio no dia 4 do corrente mez de novembro, o escravo Semião, de nação Moçambique, idade 36 annos, tem falta de dentes na frente, tem talhos no rosto, estatura alta...

Segunda-feira, 20 de dezembro de 1841

Escravos Fugidos – No dia 5 do corrente fugio da Vila do Limoeiro um negro de nome Joaquim Angico, de idade de 35 annos, alto, seco, com uma marca de ferida nos peitos...

Sexta-feira, 1º de fevereiro de 1867

Escravos Fugidos - Acha-se fugido nesta cidade um escravo com o braço direito cortado, preto, crioulo, de nome Manoel, 45 annos de idade”

Será preciso pôr negritos nas marcas da crueldade contra a mercadoria humana? O sentimento que nos toma é semelhante ao do fundamental cientista Charles Darwin, que anotou da sua passagem pelo estado escravocrata de Pernambuco:

“Até hoje, se eu ouço um grito ao longe, lembro-me, com dolorosa e clara memória, de quando passei numa casa em Pernambuco e ouvi os urros mais terríveis. Logo entendi que era algum pobre escravo que estava sendo torturado. Eu me senti impotente como uma criança diante daquilo, incapaz de fazer a mínima objeção”.

Diante de filmes nacionais que tomam poses de cultos e falam na maior leviandade que o mal é banal, e apenas adaptam uma citação à sua conveniência banal. Diante de obras que deveriam tornar inescapável a denúncia do mal, mas em lugar disso obscurecem a consciência, penso que já passou da hora da periferia levantar a sua voz. Que os nossos periféricos recebam cursos de roteiro e de cinema, que comam e bebam a melhor literatura e arte, para que nos devolvam o Brasil que buscamos. Chega de banalidade.

* Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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