30 de Outubro de 2017 - 12h38

 O legado de Nísia Floresta Brasileira Augusta

Maria Valéria Duarte de Souza *

No início deste ano de 2017, a cidade de Nísia Floresta, localizada no Rio Grande do Norte , tornou-se nacionalmente conhecida devido a rebelião no presídio de Alcaçuz ali localizado. O que quase ninguém sabia, pelo menos, fora das fronteiras potiguares, é que o nome da cidade é uma homenagem aquela que é considerada a primeira feminista do Brasil.


De fato, quando a palavra feminismo sequer existia, Nísia Floresta Brasileira Augusta , nascida Dionísia Gonçalves Pinto (1) a 12 de outubro de 1810 na localidade de Papari (hoje, Nísia Floresta), já defendia ideias emancipatórias sobre a condição das mulheres, principalmente sobre as questões relativas a educação.

Filha de pai português e mãe brasileira, rebelou-se contra um casamento arranjado, abandonando o marido, a quem mal conhecia, ainda que tivesse pouco mais de 13 anos de idade. Aos 18 anos, em 1828, para maior escândalo da sociedade local, passa a viver com Manuel Augusto de Faria Rocha. As dificuldades enfrentadas pelo jovem casal , além do drama vivenciado por sua família após o assassinato de seu pai, provocam a mudança para Recife. Lá, em 1831, Nísia começa a escrever para o jornal pernambucano “Espelho das Brasileiras”, assinando artigos que tinham como temática central a condição feminina.

É sob este aspecto que Nísia Floresta consolida sua trajetória singular, destoante daquela imposta às mulheres de seu tempo. Suas análises e questionamentos enfatizavam um aspecto impensável para a época: a participação das mulheres em espaços então restritos aos homens tais como o campo das ideias e o da ciência, além de defender veementemente a participação das mulheres nas instâncias decisórios da sociedade. Eram ideias extremamente avançadas pois , mesmo considerando as mudanças ocorridas no país, politicamente independente desde 1822, a condição das mulheres em nada, ou quase nada, havia sido alterada. Tanto as aristocratas como as chamadas “mulheres do povo”, (sem falar na condição degradante das mulheres escravizadas) embora ocupando posições sociais completamente distintas, tinham em comum a baixa escolaridade, embora, em certos casos, fosse permitido às filhas da aristocracia um precário acesso às primeiras letras para que pudessem soletrar as orações de seu breviário.

Nísia considerava fundamental para as mulheres ter as mesmas oportunidades de estudo que os homens para que, assim como eles, pudessem assumir posições dirigentes, inclusive ocupando cargos públicos. Nessa linha, fundou e dirigiu vários colégios : No Rio Grande do Sul, para onde , já viúva, mudou-se às vésperas de estourar a Revolução Farroupilha, e, anos depois, no Rio de Janeiro, onde fundou o Colégio Augusto, causando espanto por inserir no currículo destinado a formação das alunas o latim, além de autores considerados “impróprios” para a formação de meninas. Em seu livro intitulado “Opúsculo Humanitário” de 1853, realiza uma dura crítica aos métodos de ensino em geral e ao ensino direcionado às meninas, em particular. Considerava que a “educação” dada às mulheres não passava de um conjunto de futilidades que em nada contribuía para que conquistassem espaços relevantes na sociedade.(2)

Hoje, em pleno século XXI, a luta das mulheres por direitos, entre eles, o direito a educação e ao trabalho, já obteve avanços significativos. Porém, no Brasil, ainda que o número de mulheres que chegam a educação superior seja maior do que o número de homens, as mulheres ainda ganham menos (3). Além disso, a presença de mulheres nas áreas de ciência e tecnologia é ainda muito reduzida em comparação com a presença masculina e, além disso, as mulheres que atuam nessas áreas sofrem um constante processo de invisibilização. Também é reduzida a participação feminina no campo da chamada luta de ideias e da formação de opinião. Basta compararmos, em uma breve verificação, quem são, hoje, no Brasil, os formadores de opinião e veremos que são, em sua maioria, “formadores” e não “formadoras”. Certamente a causa dessa desproporção não está na capacidade intelectiva das mulheres, mas no modelo de sociabilidade no qual, embora tenham as mulheres conquistado o espaço público, ainda são sobrecarregadas com as tarefas do espaço que o patriarcado historicamente lhes reservou: o espaço da casa. Nísia Floresta Brasileira Augusta rebelou-se contra esta e outras concepções limitantes para as mulheres e que ainda permanecem. Muito ainda o que avançar, Nísia...

Notas:

(1) O nome, ( pseudônimo), Nísia Floresta Brasileira Augusta é, na verdade, um manifesto. Nísia, a abreviatura de Dionísia, seu nome original, Floresta, em homenagem ao sítio Floresta, onde nasceu; Brasileira, uma referência a seu senso de nacionalidade ; Augusta, em homenagem a seu companheiro, Manuel Augusto , a quem homenageou também no nome de seu mais famoso Colégio: o “Colégio Augusto”.

(2) Em 1832, aos 22 anos, Nísia Floresta traduz para o português (ela falava várias línguas) o livro da autora inglesa Mary Wollstonecraft , “Vindications of the Rights of Women”, com o título “Direitos das Mulheres, Injustiça dos Homens”. Considerado mais do que uma tradução, este trabalho apresenta também análises e opiniões da própria Nísia sobre a condição das mulheres, sendo considerado a primeira obra sobre feminismo no Brasil.

(3) Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílo (PNAD/IBGE-2014), a maior escolaridade das mulheres não se traduz em maiores rendimentos. Ao contrário, na medida em que o nível de escolaridade das mulheres aumenta, maior a diferença em relação aos rendimentos dos homens. As mulheres com cinco a oito anos de estudo receberam por hora, em média, R$ 7,15, enquanto os homens com a mesma escolaridade receberam R$ 9,44 (diferença de 24% a menos para as mulheres). Para 12 ou mais anos de estudo, a diferença é maior: R$ 22,31 para as mulheres e R$ 33,75 para os homens ( diferença de 33,9% a menos para as mulheres).
Bibliografia

FLORESTA, Nísia. Fragmentos de uma obra inédita: notas biográficas. Brasília, Editora UnB, 2001.

* Graduada em Serviço Social, com especialização em Planejamento e Gestão e mestrado em sociologia, e militante do PCdoB no Distrito Federal

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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