11 de Novembro de 2017 - 8h06

Halloween é para as crianças, o negócio é show de fogos no 4 de julho

Rita Coitinho *

No emocionante “A História da Destruição Cultural da América Latina”, Fernando Báez descreve a história de saques, pilhagens e assassinatos que deu início à “grande catástrofe”, que é como os povos pré-hispânicos e pré-lusos certamente nomeariam o que a historiografia europeia prefere chamar de “Conquista da América”.


Quem leu esse livro nunca mais olhou para nossa história do mesmo jeito, pela riqueza de detalhes com que Báez descreve as ações deliberadas de espanhóis e portugueses para varrer as culturas nativas de nossa terra, garantindo com isso seu domínio absoluto. Bibliotecas astecas e maias incendiadas, milhões e milhões de objetos de arte fundidos ou destruídos, massacres em razão do uso das línguas e costumes locais... e depois o saque, que continua até hoje, do que restou. Se você quiser estudar os livros mesoamericanos que não se perderam, precisará ir aos museus e bibliotecas europeus, pois quase nada está em nosso continente.

Mas não vou falar do livro de Báez, embora ele mereça. Começo por ele porque há, lá pela página 96 (da edição brasileira), a seguinte reflexão: “Há uma curiosa relação entre a etimologia das palavras colonização e cultura: ambas derivam da expressão latina colo, que significa ‘cultivo’. A colonização é, por isso, em sua própria essência, um processo de substituição de valores culturais”.

Essa passagem é particularmente significativa para esses dias em que, passado o 31 de outubro, ainda não pude digerir o mal-estar causado pelas vitrines enfeitadas com abóboras da minha cidade. Começamos com o Zé Carioca (“Alô amigos!”) no pós-guerra, a partir dele recebemos toda a parafernalha da Disney, passamos às decorações com neve no Natal - a despeito dos quase 40 graus que faz em dezembro - e agora adotamos a festinha do folclore estadunidense. Se “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, como diz a máxima do entreguismo nacional, porque não podemos autorizar nossas crianças a pedir “gostosuras ou travessuras” fantasiadas de monstrinhos, já que é tão divertido? Ao mesmo tempo, toleramos a perseguição neopentecostal – que são igrejas de origem estadunidense, não nos esqueçamos - ao dia (e aos doces!) de Cosme e Damião, às vestimentas rituais das religiões de matriz africana. Enquanto isso a classe média prefere escutar funk em inglês, que é chic, porque funk em português é só para periferia, e é kitsh.

Na medida em que nossas festas, mitos e tradições se perdem ou são colocados no gueto do “folclore” – aquela coisa exótica que a gente estuda na escola no “dia do folclore” – e são substituídos pelos mitos, festas e demais tradições do país mais poderoso do mundo, nos acostumamos a aceitar, junto com as celebrações, os receituários econômicos, os “conselhos” sobre como organizar nosso sistema político, nosso judiciário e sobre como nos comportarmos nas relações com os outros países. Nas ciências, pesquisador bom é o que fala, lê e escreve (e publica!) em inglês e que fez uma pós-graduação “lá”. Nos anos 1970 o saudoso Octavio Ianni já nos advertia sobre a questão da formação de nossa tecnocracia pelos organismos internacionais, que seria, segundo ele, o passo derradeiro à garantia da hegemonia dos EUA sobre os processos governamentais dos países subalternos.

À medida em que adotamos seu sistema de crenças e valores, passamos a nos considerar cada vez mais próximos do dominador, a ponto de nos considerarmos sua extensão. Nos tornamos, assim, uma sociedade passiva às ingerências externas, tolerante com a dilapidação do patrimônio do povo e entusiasta dos receituários importados – desde que venham em inglês. E assim cumpre-se a profecia de Willian Howard Taft, que já em 1912 dissera: “Não está longe o dia em que três bandeiras de estrelas e tiras assinalarão em lugares equidistantes a extensão de nosso território: uma no Polo Norte, outra no Canal do Panamá e a terceira no Polo Sul. Todo o hemisfério será nosso de fato, pois em virtude de nossa superioridade racial, já é nosso moralmente”.

Já que é assim, estamos demorando para organizar uma bela queima de fogos do 04 de julho, não? Com a experiência que temos, nosso 04 de julho vai ser muito mais bonito do que o do Tio Sam.



Em tempo: esse texto contém ironia.


*  Socióloga

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