6 de Dezembro de 2017 - 16h10

Junior não tem amigos

Fernando Borgonovi *

Em política só se conjuga o futuro no pretérito, mas, até onde a vista alcança, parece mesmo ter evaporado o sonho presidencial de João Dória Junior, o alcaide paulistano. A nau em que pretendia velejar para os mares abertos da República teve o casco seriamente avariado pelo iceberg de rejeição aferido no Datafolha da terça-feira (05).


Pudera: Junior, o precoce, mirou tanto 2018 que tropeçou em 2017, esse terrível ano que teimou em contar 365 dias.

Tudo começou com a má interpretação do resultado eleitoral. Inebriado pela vitória, leu o boletim de urna como uma carta branca, sentiu-se ungido. Esqueceu-se que ganhou a disputa contra o Haddad, mas o Ninguém da antipolítica ganhou dos dois. Agora, a massona desesperançada que decidiu se abster na eleição está formando opinião – e é contra o governo.

A prepotência, como se sabe, é má conselheira. Com três meses de governo, Junior decidiu que os limites da Serra do Mar e da Cantareira eram estreitos demais para seu ego; o Brasil suplicava pelo “gestor”. Subestimou o orgulho da cidade. Desde que José Serra abandonou a prefeitura para disputar outro cargo, usar o governo municipal como trampolim eleitoral virou um tapa na cara do paulistano.

Como se não devesse satisfações a ninguém, passou a percorrer o país recebendo essas honrarias postiças que as câmaras municipais adoram entregar. As viagens são tantas que passou a ser notícia o prefeito visitar São Paulo. Colocou-se abertamente como candidato, cometendo um erro tão primário quanto fatal na política: tentou furar a fila. E, pior, foi apunhalar justamente seu mentor – o insípido, inodoro e incolor Geraldo Alckmin.

Abro aqui um parêntese: Alckmin é um caso a ser estudado. Passando-se por coroinha de igreja, mantém um incrível controle do aparato estatal, é blindado pela justiça e pela mídia e governa São Paulo, sem oposição à altura, há quase 20 anos. Enfrentar um contendor assim é sempre um perigo.

Mas Junior estava com tudo e muita prosa, preferiu acelerar – e derrapar. Comprou briga com os dois segmentos mais sensíveis da população: velhos e crianças. A tentativa de incluir a malsinada “ração humana” na merenda escolar das crianças foi um erro tão crasso que beirou o suicídio político. A forma humilhante como Junior se dirigiu ao veterano companheiro de partido Alberto Goldman carimbou na testa do prefeito as pechas de arrogância e truculência. Como se diz por aí, praga de velho pega.

O alcaide mostrou-se também um político primário. Truculento e irritadiço no trato com seus auxiliares e aliados, estabanado na relação com a Câmara. Demitiu uma secretária ao vivo pelas redes sociais, tem perdido apoio de vereadores e vive às turras com o vice, Bruno Covas, como até as pedras portuguesas das nossas calçadas sabem. Caso clássico de quem prefere construir muros a edificar pontes.

Por fim, mas não menos importante: Junior simplesmente cansou de brincar de prefeito. A cidade está abandonada, especialmente as periferias. As ruas parecem a superfície lunar de tantos buracos, o lixo se acumula, o mato transforma as praças em terrenos baldios. Os serviços públicos estão sucateados e sendo propositalmente reduzidos, mesmo em equipamentos de saúde. Enfim, Junior não quer “prefeitar” mais.

A resposta ao aumento da rejeição, piora da avaliação de seu governo e desgaste de sua imagem foi culpar o governo anterior. Recluso à sua redoma, Junior prefere negar a realidade a reconhecer erros.

Os amigos são aqueles que dizem as verdades e, assim, nos ajudam a evitar vexames. É uma pena, mas Junior não tem amigos.

* Secretário de Organização do Comitê Municipal do PCdoB de São Paulo.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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