21 de Dezembro de 2017 - 16h14

Querido Papai Noel...

Daniel Costa Lima *

Estava aqui matutando em como escrever um texto sobre paternidade em pleno período de férias e a poucos dias do Natal e ainda assim conseguir a atenção de ao menos meia dúzia de amigos e amigas, quando pensei: “Só tascando Papai Noel logo no titulo!”. Apelativo? Sim, um pouco, mas é por uma boa causa e além disso, o uso do “bom velhinho” não é totalmente gratuito.



Última foto de uma série feita por um pai chinês, que durante 27 anos se fotografou ao lado de seu filho. 

Como muitas pessoas sabem, a imagem de Papai Noel que conhecemos – um homem branco, idoso, rechonchudo, de farta barba alva, bochechas rosadas e que usa roupa e touca vermelhas – foi cuidadosamente desenvolvida pela Coca-Cola na década de 1930. Desde então, uma horda destes simpáticos senhores tem sido encarregada de jogar no colo de pais e mães o peso de tentar comprar o presente do sonho de seus filhos e filhas, transformando o que deveria ser a celebração do nascimento de um homem que pregava o amor ao próximo (em especial, aos mais necessitados), na maior celebração capitalista do planeta. Eis que surge uma conexão entre o Natal e a paternidade, a quase santificação do consumo em um e a supervalorização do papel de provedor no outro.

Obviamente, todo mundo consome. Assim, o problema não está nos presentes que compramos nesta época do ano, mas na abissal disparidade de poder de compra entre os diferentes estratos sociais. Da mesma forma, prover pela família é não apenas uma das principais funções de pais e mães, como também uma forma de cuidado. Ao meu ver, a maneira como celebramos o Natal e a forma como vivenciamos a paternidade compartilham um erro crasso - deixar de lado coisas que realmente importam e se agarrar com unhas e dentes à crença de que podemos suprir as necessidades afetivas de nossas crianças com presentes. Na verdade, é da nossa presença afetuosa que elas e eles realmente anseiam e necessitam.

Tenho tentado nesta coluna proporcionar mais reflexões do que entregar afirmações embrulhadas para presente sobre a paternidade e hoje não vai ser diferente...

Dessa vez, terei como auxílio a história gentilmente e corajosamente compartilhada por um homem durante um grupo de pais que facilitei numa escola em Brasília, em 2014. Em dado momento da atividade, pedi que os participantes tentassem recordar um momento marcante que tiveram com os seus pais. Como o grupo era bem grande, com mais de 60 homens, pedi que cinco voluntários contassem as suas histórias, a desse homem, que tinha uns 45 anos, foi a última.

Ele primeiro levantou uma das mãos se voluntariando, depois, ficou em pé e, mesmo parecendo tímido, optou por vir para a frente do auditório. Lá, olhando mais para as suas mãos do que para os demais participantes e com uma voz trêmula, ele disse algo assim:

"A minha história com o meu pai não é das melhores... (os outros voluntários tinham contado histórias bonitas, engraçadas e emocionantes). Meu pai era um homem bastante frio, calado e severo comigo e com meus outros irmãos e irmãs. Em toda a minha infância, eu nunca recebi um abraço, um beijo ou uma palavra doce dele... Mas ele era diferente com o meu irmão caçula, que é só dois anos mais novo do que eu. Esse meu irmão nasceu com uns problemas de saúde, quase morreu no parto e ficou um bom tempo entrando e saindo de hospitais. Eu não sei se era por conta disso, mas o que sei é que meu pai era diferente com ele, botava no colo, abraçava, brincava e nunca batia...

Um dia eu briguei na rua... na verdade, eu apanhei mesmo. Eu devia ter uns 10 anos e cheguei em casa bem chateado e segurando o choro. Eu entrei na sala, que estava vazia, sentei na mesa de jantar e fiquei chorando baixinho, escondendo o rosto entre os braços. Eu achava que meu pai não estava em casa mas de repente ouvi seus passos. Eu sabia que era ele porque ele pisava pesado, sabe? Ao notar que ele estava vindo em minha direção, mantive o rosto escondido e tentei enxugar as lágrimas, pois ele não gostava que a gente chorasse. Foi ai que algo completamente inusitado aconteceu...

Ele parou ao meu lado, disse com ternura, "Meu filho, o que foi?" e uma fração de segundo depois, eu senti a sua mão acariciando os meus cabelos. Como ele nunca tinha me feito um carinho antes, eu tomei um susto e levantei a cabeça imediatamente! Para minha surpresa, ele pareceu ainda mais assustado do que eu, e disse rapidamente "Oh, me desculpe, achei que era o seu irmão!", e saiu. E foi isso, o único carinho que eu recebi do meu pai em toda a minha vida foi por engano..."
.

Após a sua fala, a primeira reação a povoar o pequeno auditório foi a gargalhada e o riso de alguns homens. Logo em seguida, aplausos. Por fim e bem mais discretamente, as lágrimas, que eram rapidamente enxugadas por uns, mas que escorriam livremente no rosto de outros.

Lá na frente, o corajoso homem pareceu perder por um momento a sua timidez. Ele levantou o rosto mostrando os seus olhos marejados e com uma voz firme e um lindo sorriso disse a todos que nada o fazia tão feliz quanto dar carinho e dizer ao seu filho que o ama.

O que esse homem fez foi interromper um ciclo de negligência e violência, algo que é muito mais difícil do que podemos imaginar. Eu já conheci muitos homens que tiveram a coragem de mudar, entre eles, Márcio, que vocês podem conhecer aqui, mas infelizmente, conheço um numero ainda maior que continua perdido num espiral descendente de silêncio, sofrimento, raiva e violência.

No excelente documentário sobre gênero e masculinidades “The Mask You Live In”, de Jennifer Siebel Newson (A Máscara Em Que Você Vive, 2014), Joe Erhmann aponta um caminho possível para nos curarmos do que ele chama de uma ferida paterna. Em seu processo de busca por respostas, ele tentou reencontrar o seu menino de cinco anos para que pudesse confrontar o seu pai e ao fazer isso, em suas palavras, “algo incrível aconteceu”. Pela primeira vez, ele conseguiu sentir empatia pelo seu pai ao se fazer a seguinte questão “Quem machucou ele de tal forma para ele ter se tornado um homem tão raivoso?”.

Eu compreendo que muitas pessoas não estejam dispostas a embarcar nesta aproximação empática e afetuosa com os seus pais, afinal, algumas relações pai-filho/filha se quebraram de tal forma e com tal violência que às vezes a distancia física e emocional é o melhor e único remédio. Mas para muitos/as, algo ainda pode ser feito e que data melhor para isso do que o final do ano, quando tradicionalmente tentamos refletir sobre a vida que temos levado e planejar algumas mudanças.

Deixo então uma singela sugestão. E se no lugar das batidas promessas de sempre fizéssemos um compromisso de demonstrarmos diariamente o amor que sentimos pelas nossas filhas e filhos? Lembrando que além de palavras, a nossa simples presença afetuosa em todos os momentos possíveis, mesmo que sejam poucos, é o que de fato importa.

E se aproveitássemos o embalo e também tentássemos nos aproximar de nosso pai, agora também avô? Se o problema for o silêncio entre vocês, lembre-se que ele pratica esse esporte há mais tempo, então a iniciativa provavelmente terá que ser sua. Se achar o contato ao vivo audacioso demais, que tal uma mensagem para quebrar o gelo? Não saberia como começar? Que tal por um simples “Querido papai...”.

* Pai de Francisco, psicólogo, mestre em saúde pública e consultor independente no campo de gênero, masculinidades, paternidade e cuidado e violência baseada em gênero.
costalima77@gmail.com

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR