27 de Janeiro de 2018 - 18h37

 A nossa virada

Jandira Feghali *

Gente descartável e sem serventia” é o subproduto do pensamento moderno neoliberal. Ora, em nosso país essa gente é maioria, demandante do Estado e das suas políticas, e que exige um corajoso projeto de nação e autoestima elevada. Essa tal “gente” se enxerga em líderes que expressam suas potências e identidade e não aceita ser excluída, ser tornada invisível ou silenciosa.


  Nas ruas de Porto Alegre e São Paulo, no histórico dia 24 de janeiro de 2018, pude ver o intenso brilho nos olhos, os braços de afeto, os punhos de luta erguidos no ar, as bandeiras ao vento e a razão lutando com a expectativa que já se sabia perdedora. O resultado emanado de apenas três homens brancos de toga preta, que fizeram de seus postos (não eleitos) um instrumento de ativismo político e perseguição, representa o pensamento e o interesse dos que negam a vontade da maioria e excluem no Brasil.

A condenação daquele grande líder popular, nordestino, operário, respeitado em todo o planeta, contra quem nenhuma prova foi produzida ou encontrada, fez a consciência democrática se fortalecer no seio do povo. No Brasil e no mundo, a vergonha da injustiça brasileira, mas também o orgulho da nossa luta. Sua condenação significa a condenação da democracia brasileira, porque foi um resultado ao arrepio da Constituição e da lei. É preciso, sim, a reversão desta decisão e sua presença no pleito eleitoral deste ano.

Há anos, a mentira se especializou e ganhou contornos profissionais. Diferentes tecnologias de mídia, planejamentos de comunicação articulados, dados fabricados, falsas informações repetidas à exaustão (fake news), promiscuidade entre dinheiro, comunicação e agentes públicos deram o tom. Basta observar a isenção dos jornalões e do hard news televisivo no day after do julgamento do TRF4.

É a consolidação do mundo de poucos, dos que mandam, dos que podem, dos que proferem. Os outros, os muitos, os milhões, os sem emprego, os sem futuro “que se danem”. Mas é importante saber que o custo desta opção pode ser a democracia, a vida de pessoas desassistidas ou famintas, o abismo social, a desorganização de nossa nação.

E daí?

Aos que tramam condenações sem provas, sequestros de direitos históricos, subtração de perspectiva ou futuro, esse é o resultado esperado. Mas alto lá! Quando falamos de Brasil, falamos de um povo indolente, renitente, que já experimentou conquistas, que entendeu o jogo e já entrou em campo.

É chegada a hora de radicalizar a democracia, de intensificar a nossa capacidade de luta, de enfrentar o abuso e parcialidade das autoridades. Se ninguém está acima da lei, todos devem agir dentro dela, principalmente quando cumprem função judicante, onde a independência, imparcialidade e o devido processo legal deveriam prevalecer. É hora do Parlamento brasileiro ter a coragem de rever as leis e estabelecer parâmetros mais claros para impedir que três ou quatro agentes públicos, com base em hipóteses, possam violentar os pilares democráticos.

A nossa gente plural e potente, de alma impregnada de brasilidade, solidariedade e justiça, saberá levantar-se por seus desejos e direitos de liberdade e vida. A soberania de seu voto e escolha não serão mutilados. 2018 será o ano desta gente oprimida, mas sonhadora e corajosa.

Será o ano desta brava gente brasileira!

2018 será o ano da virada!

* Médica. Está no 6º mandato de deputada federal (PCdoB-RJ), foi secretária de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia de Niterói-RJ e secretária municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Relatora da Lei Maria da Penha, foi líder do PCdoB na Câmara dos Deputados e atualmente é vice-líder da Oposição.

* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.


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