Alexandre Santini *

"Mecanismo" e o discreto charme da classe artística

"A série do Padilha no Netflix é o paroxismo exagerado e grotesco do verdadeiro Mecanismo. Mas você não precisa ser um Padilha para ser mais uma peça da engrenagem".

Prólogo

A primeira versão deste texto foi escrita em 2013, num contexto de intensificação dos debates e embates políticos nas redes e nas ruas. Naquele momento, o centro da questão era a emergência do movimento “Reage, Artista”, como um posicionamento novo de certo setor da cultura carioca, oriundo das artes cênicas, em direção a uma abordagem mais ampla e politizada das questões de seu ofício e dos saberes e fazeres culturais.

Retomo o mote, e parte daquele texto que me pareceu extremamente atual, para tratar do “Mecanismo” de José Padilha, e suas repercussões junto aos que atuam e militam no campo das artes e da cultura.

I

Até bem pouco tempo, sentia uma preguiça inconfessável de tomar parte nos debates do setor cultural da cidade do Rio de Janeiro. Meu desconforto tinha uma natureza semântica: eu não tinha assunto, ou paciência, para conversar com um segmento que se autodenominava como “classe artística”, ou simplesmente, “a classe”. Ora, chamar artista de “classe” é uma estupidez sociológica. Classe é trabalhadora ou burguesa – em suas múltiplas combinações, interseções e reticências. Artista não é classe, e nem uma qualidade especial de ser humano. Cada ser humano, por sua vez, é uma qualidade especial de artista.

II

Na primeira década do século XXI, a cultura brasileira ampliou significativamente seu repertório de temas e de atores, tornando sua dramaturgia muito mais interessante e diversificada. A partir do governo Lula, as gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no Ministério da Cultura possibilitaram o florescimento de um amplo ecossistema de experiências sociais e culturais que ganharam visibilidade, escala, reconhecimento institucional e articulação. O Do– In antropológico preconizado por Gil ferveu um caldeirão de experiências culturais país afora, possibilitando o surgimento de novos fluxos culturais no país. Entre 2003 e 2010, no Brasil, houve imaginação no poder, pelo menos no tocante às políticas públicas de cultura.

III

A vida cultural do Rio de Janeiro – e me refiro àquela estabelecida entre o centro e a zona sul da cidade – dançou fora do compasso e ficou à margem da efervescência cultural vivida pelo Brasil profundo, e mesmo na cidade além-túnel. As favelas, os subúrbios, a baixada, são territórios historicamente mais afetados (para o bem ou para o mal) e antenados com políticas públicas e com a ação do Estado, e se deram conta antes do que estava acontecendo. Do outro lado do Rebouças, a boa e velha nostalgia da corte. Certa noite carioca em meados da primeira década do século XXI, numa mesa do baixo gávea, um poeta marginal – daqueles mais estabelecidos- em sua eloquência etílica, vaticinou: “esse negócio de ponto de cultura é um monte de menino pobre batendo na lata!”. Não ter dado continuidade aos pontos de cultura, que no seu auge chegaram a 4 mil iniciativas e 8 milhões de pessoas envolvidas em suas atividades, é retrocesso que custa caro para a sociedade brasileira. Perdemos meninos pobres que batiam na lata para o tráfico, a violência, a prisão.

IV

Reage, Artista. Uma iniciativa que começou pontualmente como reação ao fechamento da rede municipal de teatros por conta do incêndio da Boate Kiss, no Rio Grande do Sul, e se converteu ao longo dos anos em ferramenta de utilidade pública para o debate cultural na cidade. Ao sair da zona de conforto, reconhecendo a importância do diálogo entre a sociedade civil e o estado na construção de políticas públicas em um sentido transversal, se desdobrou em outras experiências: Ocupa Lapa, Ocupa MinC, Ocupa Escola, MATER, entre outras. A iniciativa mais recente, denominada IntervenSomos, se propõe a realizar atividades de arte, cultura e educação nas favelas e territórios populares, em face a intervenção federal no Rio de Janeiro. Iniciativas irmãs se frutificaram por outros cantos da cidade e Região Metropolitana: Norte Comum, Ocupa Nise, Fórum das Artes Públicas, Baixada em Cena, Leão Etíope do Méier, O Passeio é Público, entre (muitas) outras.

V

Mecanismo. Voltemos ao velho e bom marxismo: não se trata somente do que se produz, mas de quem controla os meios de produção. Artistas reconhecidos nacionalmente, muitos deles excelentes em seu ofício, quando se tornam mão de obra qualificada de grandes corporações nacionais e internacionais da indústria cultural, topam fazer parte da engrenagem que criou “Mecanismo”. E isso independe dos posicionamentos públicos interessantes de parte destes artistas, muitos dos quais aplaudimos e concordamos. Existem contradições nesta indústria, pelo seu alcance de escalas geométricas e pela possibilidade de explorar novas fronteiras de linguagem, trazendo temas e questões importantes para o debate público? Evidente que sim. Mas ser um artista engajado e ter o seu modo de vida comprometido e atrelado ao mundo do trabalho das grandes corporações da cultura não exime ninguém de ser parte do “Mecanismo” que é a legitimação cultural do sistema capitalista.

VI

A série do Padilha no Netflix é o paroxismo exagerado e grotesco do verdadeiro Mecanismo. Mas você não precisa ser um Padilha para ser mais uma peça da engrenagem. Essa opção começa por escolhas simples: onde você mora, quanto paga de aluguel / condomínio, qual o preço da escola dos seus filhos, do que você “não pode abrir mão” para manter o seu padrão de vida? Sentar na mesma mesa que senta a burguesia, comer no mesmo restaurante, tomar o mesmo chopp, estudar nas mesmas escolas, custa caro e cobra o seu preço. Parte significativa da “classe artística” faz essas opções de forma tão cotidiana que se torna inaceitável qualquer discussão no sentido de abrir mão de contratos, cachês e salários pagos pelas agências culturais do Mecanismo.

VII

Existe vida artística e cultural fora do Mecanismo? Evidente que sim. As alternativas são inúmeras, mesmo em um momento tão difícil para os artistas e produtores culturais no Brasil. Mas isso exige consciência de classe, algo que ficou fora de moda no debate intelectual brasileiro por um tempo. Entender que o artista, antes de tudo, é um trabalhador cuja força de trabalho é seu corpo e seu espírito, forma e conteúdo. E que em algum momento será necessário escolher um lado. E toda escolha significa algumas renúncias. Existe todo um campo de atuação social, educacional, de promoção da cidadania cultural ou mesmo de pesquisa de linguagem e conteúdos artísticos e culturais, que se constrói por fora do Mecanismo. Para ambições e padrões de vida mais modestos, com um pouco de tempo e esforço dedicados, com certeza é possível. Mas fica mais fácil sustentar um discurso e uma posição pública quando este é compatível com a prática e com a vida que se leva.

*  Gestor cultural, dramaturgo e escritor, é diretor do Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói (RJ) e autor do livro "Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina"




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