Cloves Geraldo *

"Três Anúncios para um Crime"

Carcomidas estruturas

Luta da mãe para punir os assassinos da filha e a reação dos conservadores sulistas nos EUA são o centro deste filme do cineasta Martin MacDonagh

Não à toa dois filmes que abordam o racismo e a discriminação da mulher têm recortes que reforçam a visão não de tendência individual, mas como resultado das imposições e controles das estruturas conservadoras, ou seja, da burguesia e da alta classe média. Em “MUDBOUD – Lágrimas sobre o Mississipi” (veja texto deste colunista sobre o filme), a cineasta afro- estadunidense Dee Rees expõe as fraturas provocadas pelo racismo nos idos 30/40, e seu compatriota-caucasiano Martin McDonagh o aprofunda ao destacar a luta da mulher em “Três Anúncios para um Crime”.

Trata-se, portanto, de uma questão de poder, de classe dominante, introjetado nas ações e ideias dos que as absorvem e reproduzem. McDonagh explicita o racismo por meio das frases e comportamento do irascível policial Jason Dixon (Sam Rockwell) e de sua mãe (Sandy Dixon). E chega a ser sútil quando atinge Denise (Amanda Warren), balconista de loja de artesanato. Este fio narrativo, no entanto, expande a compressão do espectador para ele absorver o tema central: a luta da lojista Mildred Hayes (Frances MacDormand) para encontrar e punir os estupradores e assassinos de sua filha Ângela Hayes (Katryn Norton).

É através dela que McDonagh funde duas visões: I – a da mulher que, além de cansar de esperar solução do Departamento de Polícia da pequena Ebbing, Missouri, é maltratada por Dixon e negligenciada pelo delegado William”Bill” Willough (Woody Harrelson); II – há um silêncio mortal das instituições municipais sobre a morte de sua filha. É vista mais como alguém que, para limpar o próprio nome e, quem sabe da filha, decidiu incomodar as lideranças e autoridades com a instalação de três out-doors numa rodovia sem movimento nas proximidades de sua casa no campo para exigir resposta às suas reclamações e, mais do que isto, aos seus direitos.

Mildred reage contra os que a discriminam

McDonagh a constrói como mulher de meia idade, divorciada, que vive com o filho Robbie (Lucas Hedges), que monta uma cruzada contra não só Bill, como toda a estrutura que a discrimina. Tinham passado sete meses e nada. E todas as acusações sobre o agravamento da doença letal de Bill, das resistências dos fiéis da Igreja Católica e dos segmentos da

classe-média, configurada no dentista Geofrey (Jenny Winsott), eram lançadas às suas costas, como se a solução do assassinato de Ângela fosse ameaça ao seu predomínio e sua revelação expusesse seu acobertamento.

Também a TV local se portou como participante da estrutura conservadora, ao apoiar a queima dos três out-doors, como forma de silenciar Mildred. Sua repórter Gabriela (Malaya Rivera Drew) afirmou em cobertura ao vivo no local que aquele ato punha fim à pressão dela. São, enfim, as estruturas de controle, como a mídia, o aparato de segurança e de Justiça, que reforçam o poder do qual fazem parte para manter as posições conservadoras dominantes. E não abrindo espaço para posições divergentes, democráticas e avançadas, e movimentos que apontem saídas para o combate ao racismo, à homofobia e à misoginia.

Ao centrar sua narrativa no que realmente expõe o poder conservador, como Dee Rees o fizera em “MUDBOUD – Lágrimas sobre o Mississipi”, McDonagh consegue fugir ao clichê da heroína que age solitária contra tudo e todos. Mildred aumenta sua ira à medida que os tais poderes não lhe dão outra saída. Ela reage a Geofrey que tenta extrair seu dente sem anestesia, após lhe dizer ser contra os três out-doors, e sem resposta, ela enfia a comprida agulha no dedo dele. Ou responde ao padre que diz que fez uma enquete e todos da paróquia não a apoiam e ela lhe responde que ele e seus fiéis têm comportamento de gangues de ruas.

Bill atende ao que exige o poder conservador

Ainda ao contrário do que se poderia esperar de uma narrativa tensa e em altos decibéis. McDonagh e seu diretor de fotografia Ben Davis não criam atmosfera opressiva, dotada de sombras e contrastes em preto e branco. Há muita luz e ambientes abertos, como o campo, praia, floresta de verde intenso, salvo quando flagram o universo doentio e racista em que vivem Mamma Dixon (Sandy Martin) e seu filho Jason. Ela o mima e o trata como criança e o estimula a destilar rancor, preconceito e o torna incapaz de enfrentar os problemas que, como policial, tem de resolver.

Como roteirista e diretor, vê-se o cuidado de McDonagh para criar fios e tramas que reforcem a narrativa central. Há um contraste entre Mildred, inteligente, centrada, reativa, fria e insurgente, e Bill, frio, reflexivo, sorridente e, nem por isso, menos ardiloso e matreiro. Percebe-se o quanto ele atende às exigências da estrutura que o mantém no cargo, da qual ela não faz parte, embora seja lojista. Espertos, ambos sabem que

ele, mesmo confessando não ter conseguido desvendar o crime, se limitou a identificar espaços e situações, sem ligá-los a qualquer suspeito.

Este é o encanto deste “Três Anúncios para um Crime”. Tudo é dissimulado, como nas relações normais entre os detentores do poder de fato na estrutura capitalista. Mildred demora a percebê-lo, tanto que precisa entrar em choque com eles para mirar seu maior símbolo na pequena Ebbing. E ao entendê-lo decide afrontá-lo atirando coquetel Molotov em sua fortaleza não intransponível. Contudo, eles, por mais que tenham vontade, decidem ignorá-la. Seus únicos aliados neste universo de carcomidas estruturas são o mexicano Jerome (Darrel Britt-Gibson) que instalou o out-door, sua funcionária afro Denise e o anão James (Potor Dinklago) que lhe deram cobertura em seus maus momentos.

McDonagh mantém Mildred como símbolo da luta

Não sem razão, o filme se concentra em três vertentes narrativas, sem se desligar do tema central: I – a principal nortear as demais, tendo Mildred a desencadeá-la; II – a de Bill com suas artimanhas e flexibilidade para atender o poder de fato e não o que o fragiliza no cargo, no momento em que se encontra mal de saúde; III – a de Dixon, o mais complexo, sobre o qual recai a fragilidade do sistema e do doentio racismo sulista. Lhe cabe a tentativa de se reconciliar com Mildred e lhe apontar novos rumos. Assim, McDonagh o leva à redenção, depois de mostrá-lo como racista.

Em suma, em razão da opressão e dos condicionamentos impostos pelo poder de fato, McDonagh mantém Mildred com seu olhar ferino e frieza na ação não como heroína, mas como a mulher a quem cabe defender seu direito à Justiça, mesmo que apenas aranhe seus inimigos. Sua disposição diante de tantas barreiras racistas e misóginas mostra ao espectador que a esperança não é uma construção metafísica, mas cotidiana e centrada na realidade sem descanso. Ir pela estrada, como ela e Dixon fazem, é como abrir caminho para o que tanto almejam agora.

Três anúncios para um crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri). Drama. EUA.2017. 120 minutos. Música: Carter Buweel. Edição: Jon Gregory. Fotografia: Bem Davis. Direção/roteiro: Martin McDonagh. Elenco: Frances McDormand (Oscar de Melhor Atriz 2018), Woody Harrelson, Sam Rokwel (Oscar de Melhor Ator Coadjuvante 2018), Abbie Cornish, Lucas Hedges, Amanda Warren.

* Jornalista e cineasta, dirigiu os documentários "TerraMãe", "O Mestre do Cidadão" e "Paulão, lider popular". Escreveu novelas infantis,  "Os Grilos" e "Também os Galos não Cantam".




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