19 de Julho de 2017 - 18h58

A violência no Brasil – números de uma guerra seletiva 

O Brasil vive uma situação de confronto absurda e violenta, semelhante à de países onde há guerra civil aberta.

Só no primeiro semestre deste ano, no Rio de Janeiro, houve 88 mortes de policiais. Número grande, mas apenas parte do número de mortes violentas ocorridas no estado, que, em 2016, foi de 6.248 (soma dos homicídios dolosos, latrocínios – roubo seguido de morte –, lesões corporais seguidas de morte e homicídios decorrentes de confrontos com a polícia).

No Rio, multiplica-se o número de pessoas atingidas por “balas perdidas”, inclusive dentro de casa, de escolas e até um bebê foi baleado no útero da mãe prestes a dar à luz!

São números de tal forma banalizados, seja pela intensa exposição nos noticiários ou por estatísticas divulgadas em profusão, de tal forma que muitas vezes acabam admitidos como “naturais”.

Um exemplo da crueza dos assassinatos foi o cometido em São Paulo, por um soldado da Polícia Militar, faz uma semana, contra o carroceiro e catador, negro e pobre, Ricardo Nascimento, conhecido como “Negão”. O policial que atirou nele devia estar certo de que o crime seria impune: foi em plena luz e não na periferia, mas no bairro de Pinheiros, um bairro central da capital paulista.

Há uma guerra aberta movida pela polícia, e o alvo é a população pobre, de pele escura, e principalmente jovem das periferias. Como mostrou o Atlas da Violência 2017, do Ipea/Fórum Brasileiro de Segurança Pública: homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas da violência no Brasil, onde, a cada 100 assassinados, 71 têm a pele escura. Que têm chances 23,5% maiores de serem assassinados do que os demais brasileiros.

Essa sensação de guerra fica ainda mais nítida ao se comparar os números de mortes violentas no Brasil e as vítimas de terrorismo no mundo. Em 2015, a cada três semanas ocorreram 3.400 assassinatos no Brasil; no mundo, foram 3.314 mortes em ataques terroristas – mostrou também o Atlas Ipea/FBSP.

As explicações para esta situação de degradação social são múltiplas, mas não podem dispensar a grave deterioração da qualidade da coexistência entre os brasileiros, decorrente da radicalização política e do ódio gerados pelo golpe de 2016. Que dividiu os brasileiros entre aqueles que se supõe “incluídos”, em geral homens, brancos e de renda alta, aos demais, que crescentemente têm seus direitos negados. Inclusive o direito à vida.


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