7 de Dezembro de 2017 - 20h38

UFMG – aliança do fascismo com a sociedade do espetáculo

A autonomia das universidades surgiu ainda na Idade Média – no longínquo ano de 1088, na universidade de Bologna, Itália, e fará 930 anos no ano que vem. Foi um avanço civilizatório que, numa época de fragilidade da lei e império do arbítrio dos poderosos, destina-se a proteger o conhecimento, a liberdade de pesquisa e de pensamento. E é nesse sentido acolhida na tradição constitucional brasileira, como preconiza o artigo 207 da Carta Magna de 1988, que garante a autonomia didática, de pensamento e pesquisa e também administrativa e financeira das universidades.

A violência que a Polícia Federal cometeu nesta quarta-feira (6) contra a Universidade Federal de Minas Gerais, é mais uma peça no colar de horrores do governo golpista de 2016. Ao arrepio da lei, e confrontando claramente a Constituição de 1988, a Polícia Federal invadiu a universidade e prendeu o reitor, Jaime Ramirez, a vice-reitora, Sandra Goulart, o ex-reitor Clélio Campolina, a ex-vice-reitora Heloisa Starling e outros professores. E os levou para depor numa investigação que apura supostos desvios de recursos na construção do Memorial da Anistia Política no Brasil. Uma ironia amarga, estampada no próprio nome dado à operação policial (“Esperança Equilibrista”), com um aparente objetivo igualmente espúrio de desmoralizar ações da luta democrática para resgatar a memória das barbaridades cometidas pela repressão policial durante a ditadura de 1964. Um dos autores da canção que é o hino da Anistia, João Bosco, indignado, prontamente denunciou como inapropriado, e desautorizou esse uso pela PF.

Este novo e brutal ataque à universidade pública despertou pronta indignação de professores, intelectuais e democratas pelo Brasil afora. Entre eles, instituições como o Conselho Técnico-Científico da Educação Superior da CAPES, que denunciou a ilegalidade da operação. A ação da Polícia Federal é uma clara violação de garantias constitucionais. Mas vai além disso – ao investigar ruidosamente supostas ações ilegais, age também para desmoralizar a universidade pública, reforçar a idéia da direita de que elas são sorvedouros de recursos públicos; contribui assim para a campanha espúria contra o ensino público e gratuito. Isto é, faz o jogo ilegítimo daqueles que querem um ensino superior pago e, assim, de difícil acesso aos brasileiros mais pobres.

Esta ação da Polícia Federal ocorre dois meses após igual violência cometida contra o reitor Luiz Carlos Cancellier, na Universidade Federal de Santa Catarina. Sem suportar o enxovalhamento a que foi submetido, o reitor tirou a própria vida, em 2 de outubro passado.

Agressões desta natureza, que combinam ação policial e repressiva com o espetáculo que proporcionam, são típicas do fascismo. Modernamente foram inauguradas pelos nazistas que, desde a década de 1930, prodigalizaram ações “espetaculares” e repressivas para, com teatralidade, acirrar a sanha sanguinária de seus adeptos da direita. Não tinham ainda a televisão e as redes sociais que, em nossos dias, potencializam a repercussão destas ações fascistas.

Mas o monstro do fascismo está desperto e age com uma liberdade que preocupa e angustia os democratas. Este monstro precisa ser contido. E o antídoto para ele está em nossas mãos, em nossa indignação, em nossa capacidade de lutar contra a aliança – denunciada pelo governador Flávio Dino – do demônio do fascismo com a civilização do espetáculo. Está em nossa capacidade de cantar a “Esperança Equilibrista” como o hino da liberdade que é, e não como o canto fúnebre em que a direita quer transformá-lo.


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