28 de maio de 2017 - 23h12

Elas venceram a ditadura e inspiram jovens mulheres a barrar o golpe


Bruno Bou / Cuca da UNE
Manifestação de mulheres contra a violência de gênero Manifestação de mulheres contra a violência de gênero
O jornalista e escritor Luiz Manfredini, assim como as moças de Minas, entregou a juventude para derrubar a ditadura militar. Já nos primeiros anos da democracia, dedicou-se a contar a história de Loreta, Sissi, Gilse, Ludelina e Rosário, as integrantes da organização política marxista leninista Ação Popular que atuaram em Minas Gerais no período mais duro dos anos de chumbo.

As Moças de Minas é desses livros que nos devoram, a leitura flui num ritmo frenético porque cada nova página nos revela os horrores da ditadura e a coragem das mulheres que enfrentaram os generais com olhos e pulsos firmes. Manfredini faz uma narrativa sublime, o recorte histórico é preciso e nenhum detalhe passa despercebido.

“Carlos ia calado, respiração acelerada, o suor empapando os cabelos, escorrendo pela testa. Loreta deveria seguir atrás, boca fechada, acompanhando o marido, rezava o costume local. Mas a isso resistiu. Não era birra. Afinal, na caracterização prévia para empreender a viagem, em nada protestara. Havia adquirido numa loja popular de Belo Horizonte as roupas largas, compridas e antiquadas das mulheres do campo. Vestira-as sem sofrimento, deixando para trás as minissaias. Desnudara o rosto de toda maquiagem, comprimira os longos cabelos louros em duas tranças tão brejeiras quanto desusadas. Estava pronta para emigrar de um universo a outro sem uma palavra sequer de reclamação. Mas sentia-se mal caminhando atrás de Carlos feito um cachorro que se arrasta, dócil, na rabeira do dono.

- Não vou atrás coisa nenhuma. Vou ao lado – pensou, resolvida”.

O trecho é do primeiro capítulo do livro, quando Loreta e Carlos seguiram rumo ao interior de Minas Gerais, onde deveriam iniciar um processo de conscientização e politização dos camponeses para uma revolução popular.
Gilse Consenza, uma das cinco valentes moças de Minas


A sensibilidade do escritor, de fato, faz com que o leitor se apaixone por cada uma delas, as valentes moças que atuaram para fortalecer a luta de massas e derrubar o regime imposto com o golpe de 1964. A história foi reeditada em 2008, mas o livro foi lançado em 1989, nos primeiros anos de um novo Brasil, que se enchia de esperança. Manfredini conta que foi o primeiro relato sobre a luta contra a ditadura. “Foi o primeiro livro a reportar a história de quem lutou contra os militares sem, no entanto, pegar em armas naquele momento, como o fizeram tantas outras organizações. A AP dava prioridade a um processo de lutas de massas como base para iniciativas armadas, e não o contrário”, explica. 

As moças do Brasil de hoje

Assim como as moças de Minas, as mulheres brasileiras hoje se dedicam à luta contra o machismo, a opressão de gênero e o golpe em curso no país. Lá, nos anos 60, elas também foram influenciadas pelos movimentos feministas. Para ocupar as ruas tiveram primeiro de enfrentar o patriarcado em casa. Afinal, não era tão simples uma “moça de família”, “bela, recatada e do lar” romper as amarras familiares para se dedicar à luta por mais direitos.


Enquanto Gilse esteve presa, Gilda, sua irmã, cuidou de sua filha, Juliana. O Cartunista Henfil, cunhado de Gilse, enviou "recados codificdos" em tirinhas publicadas no jornal sobre o crescimento da filha
 
“Para se lançarem à luta, foram obrigadas a romper com amarras dentro da própria casa, junto às famílias que as desejavam, como se pensava predominantemente na época, moças prendas e dedicadas a maridos e filhos. A militância revolucionária continha, portanto, um elemento significativo de afirmação da mulher. Além disso, a concepção socialista que possuíam tangia a todos – homens e mulheres - a uma visão mais igualitária na relação entre os sexos. Mas, é claro, não havia uma consciência de gênero tão clara como ocorre hoje em dia”, conta Manfredini.

A luta inspiradora traz algumas lições valiosas: “A superação do individualismo, em favor de projetos coletivos de transformação do mundo. A prioridade do ser, em relação ao ter. A cultura dos chamados valores imateriais, que dão substância à nossa humanização e aos processos civilizatórios. Todas essas referências, aliás, servem à qualquer época”.

Elas viraram a mesa

- Olha, vocês até podem nos derrotar um dia, derrotar o exército. (...) Mas agora, minha filha, agora eu sou forte, tenho a força, as armas. Mais cedo ou mais tarde você vai falar o que eu quero.

Ela já havia captado a personalidade do inquiridor. E tudo o que fazia era manter-se em silêncio, ou atrapalhá-lo ainda mais.

[Ele continua]

- Se um dia vocês viraram a mesa, eu sei que estarei aí em seu lugar e vocês vão me torturar.

- Não, coronel. Quando o povo virar a mesa, nós não vamos usar esses instrumentos, não.

O diálogo é entre Loreta – depois de uma das tantas sessões de tortura sob as quais foi submetida – e o coronel Waldyr Teixeira Goes, responsável pela prisão das cinco moças durante a ditadura. Ele costumava dizer que elas eram “o diabo”. Porque “não falam”. Socos, pontapés, choques elétricos, safanões, agressões que as faziam vomitar sangue, perderem os sentidos, escorrer sangue pelos ouvidos e passar dias na enfermaria até se recuperar para o próximo interrogatório. Elas resistiram, viraram a mesa, e fizeram florescer a democracia que hoje novamente é golpeada.
Manifestação de mulheres contra a violência de gênero | Mídia Ninja
 
As “Loretas” de nosso tempo têm uma luta complexa pela frente. Hoje a resistência não está só nas minissaias, na maquiagem, mas também. Afinal, roupa curta é convite para estupro, e o ano é 2016, não 1968. Ainda há quem diga que “batom vermelho é coisa de puta”. E uma equipe ministerial composta apenas por homens mostra que a política não é um lugar para mulheres. Como elas, as mulheres lutam para virar a mesa novamente.

“Hoje, a luta não é perigosa, mas é muito mais difícil, complexa, ardilosa dada à heterogeneidade das forças políticas e a complexidade do jogo a que se entregam, os falsos caminhos, as ilusões. Então, as gerações passam, as lutam permanecem, ainda que em patamares e com características diferentes”, diz o autor. A resistência feminina por um mundo mais justo só tem a ganhar com a preciosa obra de Manfredini.

Leia a entrevista completa:


Mariana Serafini: Fiquei completamente encantada com a sua narrativa da saga das moças de Minas. Como você decidiu fazer este recorte da história?

Luiz Manfredini: Para mim foi uma casualidade. Em 1987 eu estava em Brasília para assistir a uma reunião ampliada da direção nacional do PCdoB, quando fui procurado pela Gilse Cosenza, que eu já conhecia. Ela sugeriu a ideia de escrever sobre a experiência das “cinco moças de Minas”. Eu conhecia a história porque militava, como elas, na Ação Popular. Lera a respeito no jornal Libertação, que a AP editava. A Gilse, na mesma hora, promoveu uma reunião com a Loreta Valadares, que também estava em Brasília. E então acertamos produzir o livro.

Apesar do heroísmo, trata-se de um período muito dolorido para as personagens, creio eu. Como foi o processo de reconstrução?

O livro contou, basicamente, com o depoimento das cinco. Foram quase 40 horas de gravações, extensas e bastante circunstanciadas, Salvador, Fortaleza e São Paulo. Assim, foi possível uma boa reconstrução dos acontecimentos. A esse material agreguei minha própria memória (como militante da AP me transferi para o campo, em 1969), uma razoável pesquisa bibliográfica, de modo a melhor compreender e expor aquela época tormentosa e, por fim, esquadrinhei o processo das moças, arquivado no Superior Tribunal Militar. Depois, organizei as informações, estruturei a narrativa e escrevi.

O livro foi reeditado em 2008, 40 anos depois do “começo da história”. Qual o objetivo de trazer à tona este relato uma vez mais?

O livro foi reeditado em junho de 2008 porque a primeira edição foi muito mal feita, com erros crassos de revisão e uma apresentação gráfica apenas sofrível. E também porque a história é emblemática da luta contra a ditadura e sua temática, a rigor, nunca deixa de ser atual. A reedição contou com novo projeto gráfico, com uma nova e rigorosa revisão e incluiu um capítulo que fala do destino de Juliana, a recém-nascida filha de Gilse Cosenza. A menina esteve presente em momentos dramáticos da prisão e, depois, sumiu da história.

A primeira edição foi lançada, de forma muito corajosa, logo no final da ditadura. Como a história foi recebida na época?

A história foi bem recebida. Primeiro porque, na época, surgiram muitos livros sobre a luta contra a ditadura. O tema era de grande apelo. Segundo, porque “As moças de Minas” foi o primeiro livro a reportar a história de quem lutou contra os militares sem, no entanto, pegar em armas naquele momento, como o fizeram tantas outras organizações. A AP dava prioridade a um processo de lutas de massas como base para iniciativas armadas, e não o contrário. Lancei a primeira edição em várias capitais e em algumas importantes cidades do interior do país.

Luiz Manfredini, o autor de Moças de MInas

Passamos hoje por uma explosão do feminismo no Brasil. A resistência das moças de Minas foi, de certa forma, feminista também?

As jovens que resistiram à ditadura estavam, como as mulheres de um modo geral, influenciadas pelos movimentos feministas que marcaram boa parte dos anos 1960. Para se lançarem à luta, foram obrigadas a romper com amarras dentro da própria casa, junto às famílias que as desejavam, como se pensava predominantemente na época, moças prendas e dedicadas a maridos e filhos. A militância revolucionária continha, portanto, um elemento significativo de afirmação da mulher. Além disso, a concepção socialista que possuíam tangia a todos – homens e mulheres - a uma visão mais igualitária na relação entre os sexos. Mas, é claro, não havia uma consciência de gênero tão clara como ocorre hoje em dia.

Como as moças do Brasil de hoje podem se inspirar na trajetória das mulheres que resistiram à ditadura militar?

As circunstâncias, hoje, são totalmente outras. As gerações são outras, o Brasil e o mundo são outros. Mas daquelas histórias que ocorreram há tanto tempo, permanecem alguns elementos que certamente ainda são referências inspiradoras. A superação do individualismo, em favor de projetos coletivos de transformação do mundo, por exemplo. A prioridade do ser, em relação ao ter. A cultura dos chamados valores imateriais, que dão substância à nossa humanização e aos processos civilizatórios. Todas essas referências, aliás, servem à qualquer época.

Um trecho que me marcou muito foi logo no começo, quando você conta que Loreta aceitou se “caracterizar como uma camponesa”, com roupas largas, sem maquiagem e o cabelo desgrenhado, sem reclamações. Mas não aceitou andar atrás do namorado. Avançamos no debate sobre o empoderamento feminino, mas não o suficiente para vivermos em questão de igualdade. Como seriam as “Loretas” de nossos tempos?

As “Loretas” do nosso tempo seriam mais ou menos como as mulheres conscientes que hoje lutam pela igualdade de direitos, por sua dignidade e seu valor social, econômico, político, cultural, dentro de um cenário de luta pela transformação social como um todo. Tudo isso sem o reducionismo de alguns comportamentos corporativistas que acabam por desqualificar a luta de gênero.

Cabe à geração de mulheres (e homens) que nasceram justamente quando você publicou a história pela primeira vez defenderem a democracia. Como você vê esta crise política que o Brasil enfrenta atualmente?

A luta social e política deve ser abordada sempre concretamente. Hoje, as novas gerações não precisam mais lutar contra a ditadura dos militares, mas os desafios não terminaram. A luta democrática, no exato momento que vive o nosso país, tem como centro a denúncia do golpe reacionário e do governo provisório que se pretende definitivo e em defesa da manutenção do mandato da presidente Dilma Rousseff. No bojo dessa luta, a defesa de um projeto politicamente mais democrático e socialmente mais justo, em contraposição à sanha neoliberal que ameaça dominar novamente o Brasil. Eis o bastão que essas gerações mais novas recebem daquelas que, na luta contra a ditadura, dedicaram todo o ardor e o vigor de sua juventude, alguns pagando, por isso, o preço da prisão, tortura e morte.

Outro trecho que chamou muito atenção é um diálogo entre Loreta e o coronel Goes, ele fala sobre a possibilidade de elas “virarem a mesa”. De fato, as moças de Minas venceram, acabou a ditadura e elegemos uma mulher que, assim como Loreta, entregou a juventude para lutar contra os militares. Mas a história se repete. Sofremos um golpe...

As moças venceram mas, como eu disse um pouco antes, os desafios continuam. Lutar contra a ditadura era muito perigoso, mas era mais fácil, já que havia, no cenário político, duas forças muito bem delimitadas: a ditadura e seus apoiadores e os que se opunham a ela, não havendo entre elas qualquer diálogo. Hoje, a luta não é perigosa, mas é muito mais difícil, complexa, ardilosa dada à heterogeneidade das forças políticas e a complexidade do jogo a que se entregam, os falsos caminhos, as ilusões. Então, as gerações passam, as lutam permanecem, ainda que em patamares e com características diferentes. Fico imensamente satisfeito por ter escrito um livro como “As moças de Minas” que, no dizer dos acadêmicos, “dialoga” com outro, Memória de Neblina, que lancei em 2011, compondo o que se chama, em literatura, um díptico. 
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Há um projeto em curso de levar o Moças de Minas para o cinema, segundo Manfredini, um pré-roteiro já foi finalizado e em breve essa história poderá chegar às telonas. 


Do Portal Vermelho

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