Brasil

16 de dezembro de 2016 - 8h19

Chacina da Lapa: um crime com apoio do general Ernesto Geisel


   
Foi um dos piores crimes da ditadura militar: o assassinato a tiros de Ângelo Arroio e Pedro Pomar; sob brutais torturas, a morte de João Batista Drummond; e a prisão e tortura de Aldo Arantes, Elza Monnerat, Haroldo Lima, Joaquim Celso de Lima, Maria Trindade e Wladimir Pomar.

Eram dirigentes e militantes do PCdoB. O objetivo era riscar do mapa o partido que havia dirigido, desde o final da década de 1960, a Guerrilha do Araguaia, que foi a principal ação armada de resistência contra a ditadura militar.

A reunião do Comitê Central ocorreu nos dias 14 e 15, em uma casa na rua Pio XI, na Lapa, em São Paulo. Fora convocada para avaliar a guerrilha do Araguaia e teve a participação de nove membros da direção nacional do Partido: além dos já citados (que foram assassinados ou presos) lá estavam Jover Teles e José Novaes, além dos militantes que operavam no trabalho de infra-estrutura e segurança (Joaquim Celso de Lima e Maria Trindade).

Na época, devido à dura clandestinidade, as reuniões do Comitê Central ocorriam sempre sob rigorosas medidas de segurança e, objetivando sua preservação, nunca se reunia completo, e uma parte dos dirigentes não participava. Por isso, na reunião vítima da chacina não estavam, entre outros, Sérgio Miranda e Péricles de Souza, este por que, devido ao um desencontro, não recebeu a comunicação da data e, em seu lugar foi Aldo Arantes, que pela escala, não estaria nesta reunião.

O que não se sabia era que havia um traidor entre eles, como se descobriu a seguir: Jover Teles. Ele fora preso algum tempo antes, fez um acordo com a repressão e, traindo o Partido e seus camaradas, informou aos policiais sobre a reunião e aceitou ser seguido por agentes até o local onde ela ocorria.

A operação que culminou com a Chacina da Lapa foi iniciada no DOI-Codi do I Exército, no Rio de Janeiro. Em meados de 1976, a direção estadual do PCdoB fora desmantelada pela repressão dos generais Reynaldo Mello de Almeida (que era comandante do I Exército) e Leônidas Pires Gonçalves (chefe do Estado-Maior e do DOI-Codi).

Jover Telles era dirigente do Comitê Regional do Rio de Janeiro. Tudo indica que foi preso depois da queda de outro dirigente regional; pactuou então com a repressão, delatou seus camaradas e concordou em se deixar seguir até o local das reuniões do Comitê Central pois ele não sabia onde se realizavam.

A repressão, através do DOI-Codi, de equipes do I e do II Exército e do DOPS, utilizou grande e sigiloso aparato para atingir a direção do Partido. A tropa cercava a casa 767 da rua Pio XI e, ao receber a notícia de que todas as prisões haviam sido feitas, liberou o tiroteio contra a casa, que durou quase vinte minutos. Eram pouco mais que seis horas da manhã daquela quinta-feira sangrenta. A intensa fuzilaria destruiu parte da casa e assassinou Ângelo Arroio e Pedro Pomar.

Mas a repressão não conseguiu alcançar seu objetivo. Um deles, como confessou mais tarde o general Dilermando Monteiro, era assassinar João Amazonas; o outro era destruir o PCdoB.

Em meio à clandestinidade e à intensa perseguição policial daqueles anos, o Partido havia formado, fazia algum tempo, um centro dirigente no exterior, e ele foi a garantia da continuidade da orientação política e da unidade partidária, mesmo depois da Chacina da Lapa dizimar seus dirigentes. A publicação do órgão central do Partido, A Classe Operária, a elaboração e publicação de importantes documentos de orientação partidária, e, por último, a realização da VII Conferência Nacional do Partido (realizada em 1978) foram importantes tarefas cumpridas pela direção no exterior. Estavam no exterior, para cumprir estas tarefas, João Amazonas, Renato Rabelo, Diogénes Arruda e Dinéias Aguiar.

Após a Chacina da Lapa o Comitê Central foi recomposto. Além do núcleo no exterior, foi reforçado com as presenças, entre outros, de Sérgio Miranda, Péricles de Souza, Ronald Freitas, Rogério Lustosa e José Duarte.

A Chacina da Lapa encerrou de forma brutal a longa série de crimes e assassinatos cometidos pela ditadura militar contra seus opositores.

Ela ocorreu já na era da “distensão” do general-presidente Ernesto Geisel, que nomeou um general de sua inteira confiança - Dilermando Gomes Monteiro - para comandar o II Exército, sediado em São Paulo.

A política de “distensão” fora marcada pelos assassinatos de Vladimir Herzog (outubro de 1975) e Manoel Fiel Filho (janeiro de 1976), sob tortura no DOI-Codi de São Paulo. Elas provocaram forte reação principalmente de setores da classe média e da Igreja.

Entre os generais havia um grupo que não aceitava a orientação de Geisel e agia por conta própria, sem aceitar a política de “distensão”.

Geisel demitiu, por isso, o comandante do II Exército, general Ednardo D’Ávila e o substituiu pelo o general Dilermando.

O problema para Geisel não era a existência do aparato repressivo nem o exercício da tortura e a violação dos direitos humanos. A orientação recebida que deu ao general Dilermando era clara, como disse o próprio Geisel: minhas instruções era que ele evitasse “excessos. Se ele tivesse que montar alguma operação armada, uma operação contra comunistas atuantes, que analisasse adequadamente, para verificar se tinha fundamento. Evidentemente, eu não ia tolher sua liberdade de ação. Mas que procurasse examinar todos os casos.”

No caso do assassinato dos dirigentes do PCdoB e da tortura aos que foram presos, Dilermando seguiu aquelas instruções, como contou na entrevista à revista IstoÉ: “Aquilo foi acompanhado por mais de cinco meses de antecedência. Nós descobrimos que naquele dia iria haver uma reunião em tal lugar, com a presença de tais e tais elementos, e aí fomos um pouco embromados, porque constava para nós que o João Amazonas estaria presente e o mesmo estava na Albânia”. Ele confessou aqui, cinicamente, a pretensão de assassinar o histórico dirigente partidário.

A versão de Dilermando foi confirmada por Geisel: “Sempre se procurou acompanhar e conhecer o que o Partido [Comunista do Brasil] fazia, qual era a sua ação, como ele se conduzia, o que estava produzindo, qual era seu grau de periculosidade. Isso aconteceu durante todo o período revolucionário”. E Geisel prosseguiu: “o Dilermando, já no comando do II Exército, atuou em São Paulo sobre uma grande reunião dos chefes comunistas. A questão não era mais a força que eles tinham, mas não podíamos deixar o comunismo recrudescer. Fizemos tudo para evitar um recrudescimento das ações comunistas.”

A repressão, que havia destroçado as organizações que promoveram a resistência armada contra a ditadura, e agora o objetivo era desmantelar o PCdoB, que havia dirigido a Guerrilha do Araguaia.

Já atingira antes heróicos dirigentes partidários. Entre dezembro de 1972 e março de 1973 foram assassinados Carlos Danielli, Lincoln Cordeiro Oest, Luiz Guilhardini e Lincoln Bicalho Roque. Depois, entre 1974 e 1975, tombaram Ruy Frazão e Armando Frutuoso. Todos morreram sob tortura.

A queda da Lapa foi um duro golpe para o Partido, mas a ditadura militar não conseguiu seu objetivo principal que era destruí-lo. As organizações partidárias mantiveram seu funcionamento e o PCdoB continuou intervindo no movimento de massas.

Honra eterna aos que tombaram! Eles vivem no coração de todos os que lutam pela liberdade, pela democracia e pelo socialismo.


Referências

Bercht, Verônica. Coração vermelho - A vida de Elza Monnerat. São Paulo, Editora Anita Garibaldi/Fundação Maurício Grabois, 2013

D’Araujo, Maria Celina, e Castro, Celso. Ernesto Geisel. Rio de Janeiro, Editora FGV, 1997

Pomar, Pedro. Massacre na Lapa, como o Exército liquidou o Comitê Central do PCdoB. São Paulo, Editora Busca Vida, 1987


*É jornalista, historiador e escritor.  É da equipe editorial do Portal Vermelho e da Comissão Editorial da revista Princípios.

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais