5 de janeiro de 2017 - 15h11

 Poderosa!


Clia Ferreira*

Pode ser porque ela dessas que nunca desce do salto, acorda maquiada e atrai todos os olhares masculinos para suas curvas modeladas na academia. Ou porque profissionalmente bem sucedida, financeiramente independente e tem grana para realizar desejos mundanos sem a necessidade de recorrer a homem nenhum. Ou porque a lder de uma famlia invejvel, com marido e filhos maravilhosos modelo comercial de margarina. Ou porque do tipo que anda com o foda-se ligado o tempo todo, no d a mnima para regras e padres, e faz da vida dela o que bem quer. Ou porque uma feminista combativa, ou uma intelectual respeitada, ou uma filantropa que faz o mundo mudar. Ou tudo isso ao mesmo tempo, ou um pouco de cada coisa de vez em quando ou qualquer outro motivo que eu nem imagino qual seja. O fato que este o principal elogio – pblico, pelo menos – que atualmente se dirige a uma mulher: poderosa!

Falvamos disso outro dia, eu e algumas amigas poderosas, e chegamos concluso de que um bom elogio, que todas ns gostamos de ouvir, at porque, como quase tudo que nos faz felizes, esse adjetivo carrega em si uma boa dose de fantasia, criada pelo olhar do observador. E assim podemos acreditar, ainda que por alguns instantes, que somos realmente tudo aquilo que insinuam, e, mais at, tudo aquilo que gostaramos de ser. E que carregamos em nosso DNA, em absoluto sigilo, algum tipo de superpoder semelhante ao das heronas – e vils, por que no? - dos quadrinhos.

Mas quais so os reais superpoderes das poderosas de carne e osso? Certamente elas no podem ler a mente alheia, adivinhar esconderijos misteriosos, ficar invisvel, resistir s piores bactrias do universo, ter uma fora descomunal. Tambm no conseguem transformar-se numa inteligncia digital fluindo pelos computadores da terra, manipular a gua, proteger-se em campos de fora, levitar, voar, regenerar-se, ressuscitar, enfim, no podem nada que uma mulher comum tambm no possa. E da se conclui o bvio: para ser poderosa, basta ser apenas isso, uma mulher comum.

Uma mulher comum que enfrenta mltiplas jornadas, que trabalha na roa de sol a sol e de vez em quando se d o direito de descansar tanto quanto queira porque simplesmente ela precisa e merece; que se desdobra o tempo todo, durante toda sua existncia, para tentar exaustivamente atender s necessidades de todos a sua volta, filhos, pais, companheiros, parentes, amigos, funcionrios e at os desconhecidos que precisam de sua solidariedade. Uma mulher com tantas atribuies e qualidades que no caberiam nem mesmo no generoso limite de linhas desse texto. Uma mulher exatamente como todas que conhecemos, ricas ou pobres, brancas ou negras, gordas ou magras, jovens ou velhinhas. Mulheres de todos os jeitos e de todos os lugares. Pois no assim que somos?

Ento, da prxima vez que algum lhe brindar com esse elogio, aproveite o sucesso e curta o reconhecimento. porque somos mesmo poderosas!



 *Celia Ferreira jornalista.

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