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23 de fevereiro de 2017 - 12h40

Anticomunismo e racismo: Budapeste retira estátua de Lukács de parque


Estátua de György Lukácz em parque de Budapeste Estátua de György Lukácz em parque de Budapeste
A Assembleia Municipal de Budapeste aprovou no fim de janeiro a retirada da estátua de György Lukács (1885-1971), filósofo judeu e marxista, do parque Szent István, na capital húngara. Embora a justificativa oficial seja a tentativa de eliminar símbolos comunistas do espaço público, críticos da medida apontam que o que a move é o antissemitismo que se fortalece na Hungria.

A moção para a retirada da estátua do parque foi apresentada pelo deputado Marcell Tokody, do partido fascista Jobbik, ou “Movimento por uma Hungria melhor”. A facção, que se descreve como “conservadora e radicalmente patriota e cristã”, é considerada por parte da opinião pública húngara uma organização neonazista e antissemita.

Tokody alegou que Lukács “desempenhou um papel em três governos comunistas” na Hungria, e durante seu período no Exército Vermelho húngaro “deu pessoalmente a ordem para a execução de oito soldados”, acusados de colaborar com as tropas tchecas, em 1919. Além disso, segundo o parlamentar, a partir de 1945 sua reputação internacional como filósofo e escritor “foi usada para legitimar o comunismo” em outros países.

A Assembleia Municipal aprovou a moção de Tokody com 19 votos a favor, três contra e uma abstenção.

Em artigo no site Hungarian Free Press, György Lázár destaca que Lukács foi um dos filósofos mais influentes do século 20 e é um dos responsáveis pelos fundamentos filosóficos na Nova Esquerda, tanto na Europa quanto no continente americano, e sua obra é ensinada nas principais universidades de todo o mundo.

“Por que o Jobbik quer remover a estátua? O fato de Lukács ter sido marxista e comunista não tem tanto a ver com isso. Várias ruas em toda a Hungria têm nomes em homenagem a comunistas proeminentes”, escreve Lázár. Para o articulista, as raízes judaicas do filósofo – cujo pai József mudou o sobrenome Löwinger para Lukács, que tem sonoridade mais próxima ao idioma húngaro – são a motivação para a campanha da ultradireita contra o monumento.

“Não é preciso ser marxista para apreciar Lukács como uma figura importante na história das ideias”, escreve o rabino húngaro Joel Berger em artigo no site Jüdische Allgemeine. “Especialmente porque é óbvio que a remoção da estátua diz respeito ao Lukács marxista e ao Lukács judeu”, afirma.

“Não se deve de fato vincular ao marxismo essa política do passado escandalosa, que tentou enobrecer o pior do ódio aos judeus na história húngara. É uma política de direita aberta que vivemos atualmente na Hungria”, conclui o rabino.

“Políticos do Jobikk afirmam que a cultura e a ‘alma nacional’ húngara foram envenenada por pessoas judias como Lukács. Essa ‘poluição’ deve ser ‘eliminada’ e o partido governante Fidesz [de Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria] parece disposto a ajudar a Kulturkampf [termo que designa políticas marcadas pelo racismo nas disputas culturais no Império Alemão] a livrar o país desta ‘ameaça judaico-bolchevique’”, afirma Lázár.

A estátua de Lukács deve ser retirada do parque até o fim de março, e no lugar dela será instalada uma estátua do rei Estevão I (969-1038), que dá nome ao parque em Budapeste. O novo monumento deve ser inaugurado em agosto de 2019.

O destino da estátua do filósofo, esculpida pelo artista plástico húngaro Imre Varga em 1985, deve ser o Szoborpark, ou parque das estátuas, que reúne monumentos do período comunista que foram retirados de seu local original.


Fonte: Opera Mundi

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