Brasil

17 de março de 2017 - 16h49

Origem comunista no Brasil bebe das águas turbulentas de 1917


Foto: Cezar Xavier
Quartim de Moraes debate as relações entre a Revolução Russa e o surgimento do comunismo no Brasil. Quartim de Moraes debate as relações entre a Revolução Russa e o surgimento do comunismo no Brasil.
Em homenagem aos 95 anos de fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), oficializada durante um congresso realizado em março de 1922, o Centor de Documentário e Memória da Unesp reúniu especialistas para abordar essa importante fase da história política nacional.

O surgimento do PCB, à esquerda da política dominante, deveu-se muito a ação do jornalista Astrojildo Pereira. Bastante influenciado pela Revolução Soviética de 1917, Astrojildo rompe com o movimento anarquista. Cria, na sequência, a revista Movimento Comunista, primeira do gênero no país. Ele foi a Moscou defender a legitimação do PCB pela Internacional Comunista. Em 1924, o Partido passou a ser a “Seção Brasileira da Internacional Comunista”, o que equivalia a pertencer ao movimento mundial da revolução do proletariado.

O escritor e ativista político José Luiz Del Roio tem a legitimidade para apontar o pensamento do pioneiro comunista por ser o vice-presidente do Instituto Astrojildo Pereira (IAP), além de ex-senador da República Italiana. Ele é o responsável pela preservação do rico acervo de Astrojildo na Itália, durante a ditadura militar brasileira, doando-o à UNESP, que o disponibiliza aos pesquisadores. O CEDEM também comemora 30 anos de sua trajetória de preservação de documentação política e de movimentos sociais com uma série de debates como este.

Del Roio revelou em detalhes os poucos meses em que Astrojildo acompanhou as notícias que chegavam do Império Russo e depois da República dos Sovietes, morando no Rio, numa época em que chegavam poucas notícias, quinze dias depois que elas ocorreram na Europa, em línguas que poucos conheciam. Em guerra, as notícias eram censuradas pelos governos envolvidos no conflito. Sem mencionar que a Rússia era distante, desconhecida, indecifrável. “Além do que, estes ativistas tinham instrumentos de análise frágeis, pois só recebiam material anarquista”, salienta ele.

Na opinião do escritor, o que aproximava esses militantes da realidade concreta era sua implacável unidade contra a guerra e “a clarividência de Astrojildo”. No primeiro Congresso Operário de 1906, quando nascia a primeira Confederação de trabalhadores, já defendiam a greve geral contra a guerra. “Mas em 1914, quando explode a guerra, o desastre pra esquerda é total, pois os socialistas apoiam o chauvinismo de seus países e a guerra. Mesmo anarquistas importantes como o russo Kropótkin, apoiam a guerra de seus países”. A grande imprensa brasileira também apoia a guerra inglesa e francesa, pelo que dominam econômica e culturalmente o Brasil. “É a partir da análise daquele conflito europeu que Astrojilgo afirma: após a maior guerra do mundo, virá a maior revolução do mundo”, diz Del Roio, enfatizando o tom profético que essas palavras assumiram.

No dia 29 de junho, Astrojildo lança a convocatória ao primeiro Congresso Mundial pela Paz ou Contra a Guerra Imperialista, já que nem a Espanha (que era neutra) quis realizar. “Proletários das nações beligerantes, antes de morrer nas trincheiras defendendo os interesses da classe capitalista, é preferível morrer nas barricadas, defendendo a emancipação”, dizia seu manifesto. Uma postura leninista, que já dizia que não bastava ser pacifista, mas era preciso uma insurreição de massas contra a guerra imperialista. “Transformar a guerra imperialista em guerra civil”, dizia Lênin no mesmo período, nos recônditos remotos da atrasada Rússia.

No Brasil, 1917 começa com crise econômica forte, devido à impossibilidade de exportações devido à guerra. Assim, estoura a grande greve geral de São Paulo, de quase 50 dias, dissolvendo a Força Pública (a polícia), paralisará o Exército e, praticamente, derruba o governo de São Paulo. A greve luta contra a guerra, pois grande parte dos patrões (italianos) exigiam uma coleta de dízimo dos operários para o esforço bélico da Itália. Em São Paulo, também ocorre o encontro das mulheres operárias com o Exército, que leem um apelo aos soldados, que é praticamente uma cópia do apelo das mulheres de Petrogrado, em março de 1917. Del Roio conta que houve empatia e o Exército paralisou diante do apelo.

Diante da sublevação popular, vibram os anarquistas, mas também a imprensa brasileira, mostrando que se tratava de um momento muito esquisito. Então, assume como primeiro ministro um príncipe. Astrojildo, desconfiado, esperava pela reforma agrária e pela paz. Em artigo de início de junho da revista O Debate, Astrojildo já analisa as peculiaridades daquela turbulência política russa.

Nascem os sovietes, conselhos de operários e soldados, mas quem assume o poder é a Duma, o antigo parlamento. “É Lênin que deixa seu partido bolchevique em saia justa ao dizer que estava tudo errado. O poder real é aquele dos operários e camponeses que se levantou contra aquela instância”, diz Del Roio. Seu partido era pequeno e Lênin passou o mês de abril defendendo suas teses. “Duvido que Astrojildo já tivesse acesso ao pensamento de Lênin, pouco conhecido”. Mas Astrojildo entendia a Duma como representação de uma burguesia moderada, enquanto o conselho de operários e soldados representavam o proletariado “avançado, democrático, socialista e anarquista”. Com a queda do príncipe e assunção de Kerenski, os sovietes anulam toda a ação da Duma. “Qual das duas forças está destinada a preponderância da reorganização da vida russa? Com certeza o proletariado, que está com as armas nas mãos e não terá resistência”, dizia o texto brasileiro de 1917. “Acho impressionante ele chegar a essa análise com o instrumental que tinha”, surpreende-se o escritor.

Com a tomada do poder pelos sovietes, a grande imprensa brasileira começa a orquestrar a campanha contra Lênin, “o espião alemão”. Astrojildo reage em defesa de Lênin e do governo proletário e não consegue ser publicado. Com isso, começa a fazer seus “livrinhos” explicando a conjuntura, para venda em bancas. Um desses é uma mini-biografia de Lênin. “Em janeiro de 1918, quando faz seu primeiro livrinho, ele já tinha entendido as linhas centrais da Revolução Soviética e qual era o grande líder daquela Revolução”, explica.

Basta esses seis meses de Astrojildo seguindo a Revolução Russa para perceber a grandiosidade dessa personalidade. Mas Del Roio destaca também sua extrema modéstia e ferocidade ativista, capaz de erros crassos. Em outubro de 1918, Astrojildo prepara a tomada do poder, criando sovietes em fábricas e exército, desenhando a tomada do telégrafo, a rádio, etc, assim como em Petrogrado. e comete o erro de ter como chefe de esquema militar um policial infiltrado, que leva todo mundo preso. “Isso revela aquilo que somos: um país muito atrasado com revolucionários extraordinários”, conclui o escritor. Esta, então, é parte do relato da luta e análises que levam à criação da seção brasileira da Internacional Comunista, em 1922.

Prenúncio de revolução

Quartim de Moraes aproveita a deixa de Del Roio, para apontar um forte nexo entre guerra e revolução. E não apenas na Revolução Russa. A Comuna de Paris, em 1871, foi condicionada pela derrocada do Exército francês numa guerra imperialista com o Reich alemão, desmoralizando a máquina estatal e criando as condições para que o proletariado parisiense, cercado pelos prussianos, operasse sua insurreição.

A linha geral das avaliações sobre a Comuna, feita por Marx, achava que aquilo seria um desastre, logo no início. Ele temia que a capitulação de Napoleão, fosse incentivar lideranças mais ousadas a uma aventura perigosa. “Assim, esta que abre o ciclo das revoluções proletárias deste século e meio, fica marcada por uma conexão negativa, por mostrar uma revolução ocorrendo cercada por exército inimigo e com uma burguesia que ainda detinha reserva tática. A classe operária ficou isolada em Paris, algo que Marx já receava antes do ocorrido”, diz Quartim.

O período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial assistiu à capitulação do movimento socialista às pretensões bélicas do imperialismo, depois de ter dito que o proletariado europeu não serviria de bucha de canhão na carnificina que se pretendia. As poucas lideranças socialistas que insistiram no discurso contra a guerra foram neutralizadas, destaca o filósofo.

“A pane da máquina repressiva à manifestação espontânea de mulheres na Rússia, permitiu que as massas avançassem em fevereiro”, avalia ele, mencionando o relato de Del Roio sobre Petrogrado e São Paulo.

Na opinião dele, o partido bolchevique era pequeno mas extremamente organizado, “articulado entre teoria e prática, enfrentava com rigor analítico as questões de organização, fundamentalmente a coordenação entre propaganda e agitação”.

“Além da grandeza intelectual de Lênin, que já havia escrito O que fazer?”, acrescenta Quartim. Para além do combate, firmeza, lucidez, inteligência e determinação, Lênin também era capaz de antecipar-se com audácia aos acontecimentos, sem cair na aventura. Entendia a lógica objetiva da situação.

Na opinião do filósofo, a genialidade de Lênin levou a algo inédito do ponto de vista de todo o acerto teórico, após 60 anos de marxismo elaborado e com corrente forte na Europa: a aliança operária-camponesa. “Uma novidade em relação ao Manifesto Comunista, que considerava a massa camponesa reacionária. Associava a luta de vanguarda da classe operaria à imensa maioria do povo russo, aliando as duas palavras de ordem caras aos camponeses: parar a guerra no front e pôr fim à exploração feudal da terra”, afirma.

Onde a classe operária se isolou ela foi derrotada, lembra Quartim. Há sempre uma tendência de analisar o fenômeno a partir da percepção de uma massa indiferenciada de agentes. “Lênin era o contrário disso, pois identificava e considerava as peculiaridades da disputa concreta”, concluiu o filósofo.



 Fonte: Portal Grabois

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