Mundo

8 de abril de 2017 - 9h57

A Síria e os falsos argumentos dos Estados Unidos


Foto: Hassan Ammar/AP
   
Primeiro, não podemos ter ilusão quanto ao Putin e ao Bashar al-Assad. Às vezes, alguns setores da esquerda romantizam esses dois personagens, principalmente o Putin, que muitos tratam como um herdeiro do comunismo soviético. A nossa solidariedade é com o povo sírio.

Dito isso, também temos que ser pragmáticos para saber que o presidente russo é um mal necessário, o único capaz de barrar o poder desmedido dos EUA, ainda mais nesse momento obscuro de governo Trump. De outro lado, al-Assad é um contraponto importante no Oriente Médio, um governo laico num momento de avanço das forças fundamentalistas na região, muitas delas patrocinadas pelos estadunidenses, ”guardiães da liberdade”. Para uma mulher, por exemplo, é preferível mil vezes viver na laica Síria do que na teocrática Arábia Saudita. Aliás, os sauditas fazem um governo terrível, de financiamento de grupos terroristas sunitas, de constantes ataques aos direitos humanos e à autodeterminação dos povos. Mas, como são lacaios dos EUA, não há represálias. E tem gente nas redes sociais que defende a ação dos EUA argumentando que o al-Assad é um ditador. Sinceramente, isso só pode ser má fé.

Além disso, os EUA resolveram retaliar o governo sírio sem esperar qualquer tipo de investigação isenta que pudesse esclarecer o que efetivamente aconteceu em Khan. Não é necessário fazer um histórico sobre os tratados assinados e a destruição do arsenal químico sírio, mas apenas salientar duas questões: al-Assad seria muito burro de usar esse tipo de armamento nesse momento, e isso é algo que ele não é; não seria a primeira vez que os EUA usariam falsos argumentos para atacar um inimigo, basta lembrar das armas de destruição em massa que nunca existiram, mas justificaram a invasão do Iraque após o 11 de setembro.

A situação na Síria é muito complexa e não se resume ao estereótipo mocinho x bandido. São, pelo menos, quatro forças em luta, entre elas o ISIS (Estado Islâmico). Mesmo que al-Assad seja tirado do poder, isso não significará o fim da guerra. O mais provável é que o país siga o mesmo caminho que Iraque e Líbia depois da deposição dos seus governantes. Os países estão imersos em guerras tribais sem fim, numa rotina insana de violência com total degradação das condições de vida que só pioraram com o fim dos governos Saddam Hussein e Muamar Kadafi.

É claro que o uso de armas químicas é terrível e condenável, mas a guerra na Síria já dura seis anos com mais de meio milhão de mortos e quatro milhões de refugiados. Sendo assim, a reação ao que aconteceu em Khan parece seletiva e hipócrita, já que os mesmo governos que reagem indignados fecham suas portas aos refugiados.

A verdade é que nada disso vai ser alterado sem a destruição do sistema capitalista. Afinal, até uma criança de seis anos sabe que a maldição do Oriente Médio é o seu petróleo e, enquanto o ouro negro for essencial para as grandes potências, a população local não terá direito a autodeterminação. E no meio dessa loucura toda, os palestinos continuam esquecidos, imersos em sua tragédia particular.

É como diz o jornalista Rodrigo Vianna, “a política estadunidense para o Oriente Médio é a de criar o caos”. As indústrias do petróleo, bélica e de construção agradecem.




*Sandra Caballero é graduada em História e pós-graduada (latu sensu) em Ciências Humanas, professora de História e Sociologia no Ensino Fundamental e Médio e membro da Comissão de Formação do PCdoB-São Paulo.

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais