Brasil

13 de novembro de 2017 - 18h07

Glória à memória de Fátima Oliveira


   
Fátima foi minha mulher de meados dos 1980 ao início dos anos 1990. Eu a conheci em Imperatriz (MA), em 1986. Ela médica empresária, eu presidente do PCdoB no Maranhão.

Fátima - e seus quatro filhos - foram morar comigo em São Luís, depois fomos pra Belo Horizonte e depois pra São Paulo. Depois que nos separamos ela voltou à Belo Horizonte, onde viveu e exerceu a Medicina até mais ou menos 2015, quando se aposentou e voltou para São Luís. Passados cerca de dois anos faleceu vítima de um câncer extremamente agressivo que a aniquilou em pouco mais de dois meses.

Mas essa é só uma trajetória pessoal e geográfica. O que interessa é outra coisa.
De pequena empresária que vivia assoberbada pela rotina maluca de um hospital, Fátima se transformou rapidamente numa intelectual de projeção nacional e mesmo no exterior. Intelectual da emancipação feminina, da luta antirracista, da luta pela saúde da mulher, progressista, revolucionária, comunista!

Lia, avidamente, dois a três livros por semana e produzia seguidamente, tendo deixado cerca de 10 livros publicados. Lembro-me bem do primeiro sobre Engenharia Genética, dedicado a Rogério Lustosa e que despertou grande interesse em João Amazonas. Aliás, quando Álvaro Cunhal esteve no Brasil em visita a nosso PCdoB. Amazonas convocou-a para, junto com outros camaradas, recebê-lo.

E foi em ascensão meteórica que Fátima se transformou em referência da luta feminina. Integrou conselhos nacionais, dirigiu entidades, proferiu centenas de palestras pelo Brasil e pelo mundo afora.

Como militante comunista, a camarada Fátima era diligente. Gostava do trabalho corpo a corpo. Lutou pela eleição de Luiz Pedro à deputado constituinte pelo Maranhão, participou das campanhas de filiação ao PCdoB de casa em casa no bairro de Fátima, em São Luis, tendo trazido ao Partido dezenas de pessoas. Participou sucessivamente das campanhas de Sérgio Miranda e Jô Morais em Minas. E agora, por último, das campanhas de Flávio Dino a governador e DomingosDutra a prefeito de Passo do Lumiar, município da Grande São Luis, onde residia.

De uma relação atritada após nossa separação fomos aos poucos voltando às boas. Fui algumas vezes a Belo Horizonte para ajudá-la com um filho doente. Encontramo-nos na posse de Flávio Dino, mantínhamos contatos virtuais sempre em torno de Clarinha, netinha, filha de Lívia que havia se transformado em uma das razões de sua vida.
Tinha ficado de ir visitá-las ainda este ano. Quando liguei pra marcar ela me disse: “Não venha porque adoeci e é grave”. Ao que eu respondi: “Agora é que eu vou mesmo”.

Fui imediatamente nos meados de setembro. Ela ainda encontrou forças para me buscar no aeroporto. Mas a doença avançava como uma avalanche. Em um mês roubou-lhe mais de 20 quilos. Não podia comer nada. Dor e mais dor. Saí da casa dela em 20 de setembro data em que completou 64 anos.

Ela, uma vida toda de medicina, sabia que não tinha saída. Não queria se tratar. A muito custo conseguimos com fosse pra Belo Horizonte, pro Hospital das Clínicas, onde trabalhara por mais de 20 anos e tinha sólidos laços de amizade.

Zé Renan, Paulinha, Rafael Barbuto e muitos outros renomados médic@s e enfermei@s do Hospital das Clínicas, foram incansáveis.

Os camaradas do Maranhão assumiram todos os problemas com translado e sepultamento.

Minha gratidão a tod@s.

E assim foi-se a Preta, levando um pedaço de mim.



 
*Dilermando Toni é economista e membro do Comitê Central do PCdoB.

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