Cultura

23 de dezembro de 2017 - 17h30

Mário Magalhães, biógrafo de Marighela: "A hora é de não calar”


Edilson Lima
Wagner Moura estreia como diretor de longa-metragem com filme baseado na biografia dp guerrilheiro Carlos Marighela Wagner Moura estreia como diretor de longa-metragem com filme baseado na biografia dp guerrilheiro Carlos Marighela
O livro foi lançado em 2012 e está em sua sétima reimpressão. Ele apresenta a vida do deputado federal da Bahia, que também foi escritor e estrategista da guerrilha no Brasil. A obra, editada pela Companhia das Letras, atravessa a história do revolucionário, contando episódios da vida de um dos maiores símbolos da esquerda brasileira e até hoje considerado o inimigo número 1 da ditadura militar.

Em entrevista ao Porém.net, Mário Magalhães falou de suas expectativas para o filme, sobre o elenco – que terá o cantor Seu Jorge no papel de Marighella – e as declarações de Wagner Moura que recentemente declarou à imprensa que seu filme “não será imparcial, mas sim um filme de quem está resistindo”.

O jornalista também falou de seu próximo trabalho. Ele prepara, de novo para a Companhia das Letras, uma biografia de Carlos Lacerda (1914-1977), personagem controverso do Brasil do século 20.

Confira a entrevista na íntegra.

Porém.net: Você teve contribuição na idealização do filme? Como foi o contato do Wagner Moura e com a O2 Filmes?

Mário Magalhães: Minha contribuição essencial foram os nove anos de trabalho que eu dediquei à elaboração da biografia “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo”. O livro constitui a matéria-prima, não ficcional, para o filme de ficção que o Wagner Moura (foto) está dirigindo e a O2 Filmes, produzindo. Ao ler “Marighella”, na virada de 2012 para 2013, o Wagner quis contar aquela história em sua estreia como diretor de longa-metragem. Fiquei feliz e honrado em ceder para ele e a O2, produtora comandada por craques como Fernando Meirelles e Bel Berlinck, os direitos de adaptação para o cinema. Conversei com o elenco, em São Paulo. Impressionaram-me o profissionalismo e a garra com que o pessoal se preparou para as filmagens, que já começaram.

                                                                                                Wagner Moura dirige o longa baseado na biografia
Porém.net: O que você achou da escolha do elenco?

Magalhães: A equipe do filme só tem fera, em todas as áreas. Inclusive no elenco, integrado por atrizes e atores como Seu Jorge (intérprete do protagonista), Adriana Esteves, Luiz Carlos Vasconcelos, Ana Paula Bouzas, Bruno Gagliasso, Maria Marighella (a neta de Carlos Marighella é uma excepcional atriz), Humberto Carrão, Bella Camero e muito mais gente de talento. Vem aí um filmaço.

Porém.net: Em entrevista ao O Globo, Wagner Moura citou que o filme não será imparcial e que o atual momento do país pede o posicionamento. Como avalia?

Magalhães: O Wagner filmará um filme de ação, como é o meu livro e foi a vida de Carlos Marighella. Como cineasta, ele decidiu criar uma obra escolhendo o seu lado da barricada, o que é legítimo. Como autor de biografias jornalísticas, o meu comportamento é distinto. Não quero ser advogado (para defender personagens), promotor (para acusá-los) ou juiz (para julgá-los). Empenho-me em narrar o que os personagens fizeram, disseram e, na medida do possível, pensaram e sentiram. Forneço informações que permitam ao leitor formar o seu próprio juízo. A escolha do Wagner diz respeito a um filme de ficção, ainda que baseado numa história real. Essa escolha deve tornar seu filme mais forte, autoral. Em tempo: imparcialidade quimicamente pura não existe; ninguém é filho de chocadeira.

Porém.net: Ainda sobre o atual cenário, vivemos um momento de escalada de repressão, que chegou até as universidades. Como avalia este cenário?

Magalhães: De regressão política, cultural, acadêmica e existencial. São golpes da barbárie contra a civilização. O horror.

Porém.net: Em passagem por Curitiba para o lançamento do livro Confesso que perdi, Juca Kfouri falou sobre a falta de posição de muitos jornalistas diante de todo esse cenário. Por que o jornalismo está calado?

Magalhães: Não são somente os jornalistas, correto? Eu poderia falar muito, mas prefiro ser sintético, reproduzindo meu breve comentário sobre as intoleráveis ações policiais contra docentes da UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais]: quem cala consente; na noite do Brasil, a hora é de não calar.

                                                                                                                       Seu Jorge no papel de Marighela
Porém.net: Nesta mesma linha, “jornalismo é oposição”, parafraseando Millôr Fernandes?

Magalhães: Eu concordo com o Millôr Fernandes: jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados. Mas há muitos, muitíssimos jornalistas que supõem que jornalismo é oposição a alguns e bajulação a outros. Quando digo oposição não me refiro a antagonismo partidário, e sim a jornalismo crítico, rigoroso, que contribui para que os cidadãos se informem sobre as coisas como as coisas são. Para mim, compra de deputado será sempre um escândalo, contudo há quem trate corretamente tal crime como “suborno”, quando os personagens são uns, e noutros casos empregue o eufemismo “negociação”.

Porém.net: Sua pesquisa atual está focada em Carlos Lacerda, próximo biografado. Há similaridades como a biografia do Marighella, mesmo com personagens tão distintos?

Magalhães: São personagens igualmente fascinantes. Suas vidas são de tirar o fôlego. Além das vidas que viveram, permitem reconstituir a política, a arte, a cultura e o comportamento de várias épocas. Co-protagonistas, coadjuvantes e figurantes são também personagens marcantes, goste-se ou não deles. Uma diferença é que, a despeito dos altos e baixos da existência, Marighella manteve uma trajetória linear, ainda jovem embicou num caminho, no qual perseverou até a morte. Lacerda, não. Esse contraste não faz um melhor do que o outro. Os inimigos acusavam Lacerda de incoerência. Num exemplo, por ter se tornado um combativo anticomunista depois da militância comunista de muitos anos. Ele respondia dizendo que seus valores fundamentais – liberdade e justiça – não mudavam, e sim a forma com o se expressavam. Que não tinha por que, ao se deparar com ideias melhores do que as suas, não mudar de opinião.

Porém.net: Você afirma que é legítimo amar ou odiar Marighella, mas é impossível permanecer indiferente à sua trajetória. Diante disso, por que ainda é importante lermos sua biografia e assistirmos ao filme quando for lançado?

Magalhães: Acho que é impossível entender a história do Brasil do século 20 sem conhecer a trajetória dos “meus” dois Carlos, Lacerda e Marighella. Não sugiro que ninguém concorde ou discorde das ações e das ideias deles. Mas ignorá-los, eles e seus contemporâneos, é eliminar capítulos maiores da nossa história.

Porém.net: Quando o livro foi lançado a polarização política do Brasil não estava tão clara quanto hoje. O livro, inclusive, recebeu críticas de pessoas que aparentemente sequer conhecem Marighella. A publicação acabou tendo um papel extra que você não esperava pela mudança da conjuntura?

Magalhães: A biografia “Marighella”, graças à generosidade de muita gente, é sucesso de público e de crítica. O livro está na sétima reimpressão. Recebeu seis prêmios, incluindo o Jabuti como melhor biografia. Amealhou elogios tanto de quem se identifica com Marighella como de quem o rejeita. Há quem cite o livro para incensar Marighella, e quem malhe o revolucionário baiano mencionando passagens do livro. Para um autor que se recusou a julgar seu protagonista, isso é motivo de satisfação. A partir dos mesmos relatos, coexistem opiniões conflitantes. Para gostar ou não de Marighella é preciso conhecê-lo, e não somente de ouvir falar. Os mesmos critérios jornalísticos, históricos e narrativos adotados com Marighella serão reproduzidos com Lacerda, que também pode ser amado ou odiado, porém, penso eu, não ignorado. Quanto a quem se tornou patrulheiro da leitura alheia, “denunciando” recentemente um leitor da biografia “Marighella”, eu não tenho dúvida: se esses patrulheiros vivessem na Alemanha da década de 1930, teriam se unido aos nazistas nas grandes fogueiras em que eles queimavam livros.

***

Mário Magalhães (foto) nasceu no Rio de Janeiro em abril de 1964. Formou-se em Jornalismo na Escola de Comunicação da UFRJ. Trabalhou nos jornais “Tribuna da Imprensa”, “O Globo”, “O Estado de S. Paulo” e “Folha de S. Paulo”, diário do qual foi repórter especial, colunista e ombudsman. Manteve um blog no portal UOL. Foi professor de dois cursos de pós-graduação da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro: Cinema Documentário e Jornalismo Investigativo. Cursou parcialmente Pedagogia na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas.


Recebeu 25 prêmios jornalísticos e literários no Brasil e no exterior, incluindo menções honrosas. É autor da biografia “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo”, editada pela Companhia das Letras. Também é autor do livro “O Narcotráfico” (Publifolha, 1999) e co-autor dos livros “Viagem ao país do futebol” (DBA, 1998, parceria com o fotógrafo Antônio Gaudério); “Crecer a golpes” (C. A. Press/Penguin Group, 2013, edição de Diego Fonseca); “Ciudades visibles: 21 crónicas latinoamericanas” (RM, 2016, edição de Boris Muñoz), “11 gols de placa: Uma seleção de grandes reportagens sobre o nosso futebol” (Record, 2010, organização de Fernando Molica); e “O melhor da gastronomia e do bem-viver” (DBA, 2004, organização de Luiz Horta).



Porém.net

  • VOLTAR
  • IMPRIMIR
  • ENCAMINHAR

Últimas Mais