Mundo

5 de fevereiro de 2018 - 13h01

Líderes racistas e a hipocrisia do establishment midiático

   

As declarações do presidente Trump com relação ao tema da imigração, de natureza claramente racista, rodeadas de uma agressividade e grosseria insultante para com os de origem não europeu, causaram um escândalo a nível nacional e internacional que chegou a inquietar até mesmo o establishment político-midiático do governo federal dos Estados Unidos. O Departamento de Estado (ministério de assuntos exteriores) trabalha para tentar atenuar os danos causados à imagem do país em países da América Latina, Ásia e África. São muitos os artigos, nos maiores meios de comunicação do país (como o New York Times), horrorizados pelas as palavras do presidente e seu efeito negativo.

Aplaudo esta denúncia que se está fazendo das declarações de Trump sobre a imigração, tão ofensivas e grosseiras para milhões de seres humanos no mundo. Porém, creio que há uma enorme hipocrisia em meio a esse panorama, porque enquanto Trump é devidamente criticado por tal comportamento o mesmo establishment midiático ocidental promove uma película que é um canto a Winston Churchill, apresentado como o grande defensor dos valores do mesmo mundo ocidental (que se definem acriticamente como a liberdade e a democracia) contra o comunismo, quando na verdade o personagem foi muito mais racista, mais vil e maligno para a comunidade internacional que o realizado por Trump – ao menos até agora.

As omissões sobre Winston Churchill

Winston Churchill foi a máxima expressão do imperialismo britânico e do seu racismo. Declarado fervente seguidor do darwinismo humano, considerava que seu objetivo como dirigente do império britânico era manter a pureza do que ele definia como a raça britânica, disseminando toda uma série de propostas para – segundo ele – melhorar a raça britânica, chegando inclusive a estabelecer campos de concentração na Grã-Bretanha para pessoas com deficiência, incluindo problemas mentais, proibindo que se casassem e forçando sua esterilização. Reclamava frequentemente sobre o grande problema que significava a existência e a reprodução de tais indivíduos, promovendo seu isolamento com o objetivo de proteger o declínio da raça britânica. A nível internacional, defendeu o direito das que considerava “raças superiores” de dominar a as “raças inferiores”. Defendeu, portanto, o genocídio ocorrido nos Estados Unidos contra os indígenas nativos daquele país. Também defendeu a subjugação do povo palestino, povo ao qual se referia como “hordas bárbaras comedoras de merda de camelo”.

Contrário à independência da Índia, indicou que odiava os hindus, não os considerava humanos, e sim “bestas (usava o termo beastly people para se referir a eles) que seguem uma religião de animais”. Justificava o uso de todo tipo de armas contra os oponentes ao Império Britânico, incluindo as armas químicas, e não atendia as dúvidas sobre a utilização de gás nas guerras: “sou a favor do uso de gases tóxicos contra tribos incivilizadas… difundiria um terror vivaz”, declarou ele quando os curdos se rebelaram contra o Império Britânico em 1920, no nordeste do Iraque.

Nada disso aparece no filme “O Destino de Uma Nação” (Darkest Hour é o seu título original), onde o personagem Churchill aparece como o grande defensor da democracia e do mundo livre, primeiro contra o fascismo e depois contra o comunismo, o que tampouco foi verdade no caso do fascismo. Antes da II Guerra Mundial, Churchill não só mostrou uma clara simpatia para com o golpismo fascista na Espanha, liderado pelo General Franco (que se sublevou contra o regime democrático que se pretendia instalar através da II República, em 1936, com ajuda militar provida por Hitler), como também escreveu maravilhas a respeito de Mussolini, seu estilo de governo e sua pessoa (“que homem mais extraordinário!”), ademais do seu projeto: “o fascismo presta um grande serviço ao mundo… se fosse italiano, estaria do seu (de Mussolini) completamente”. Em 1935, escreveu sobre Hitler em termos igualmente elogiosos. Seu agradecimento a Franco, a Hitler e a Mussolini era primordialmente por haver freado o comunismo. Se converteu ao antifascismo anos mais tarde, quando viu que o expansionismo da Alemanha nazi entrava em conflito com os interesses do Império Britânico.

Tampouco essas simpatias e transformações estão na película, que mesmo assim deve receber todos os tipos de prêmios. Tanto é assim que o establishment midiático e cinematográfico estadunidense (Hollywood), que se horroriza com os insultos de Trump aos imigrantes, acaba de escolhê-la como candidata aos prêmios Oscar, com seis nominação, incluindo a de melhor filme.

Seu sucesso, de novo, é um indicador a mais da enorme direitização que o mundo ocidental está sofrendo, que tentam mostrar como normais as mensagens extremas como a do imperialista Churchill.


* é professor de ciências políticas e políticas públicas da Universidade Pompeu Fabra

Fonte: Carta Maior 

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