MILITÂNCIA PARTIDÁRIA –
II
Uma militância de nosso
tempo
Walter Sorrentino*
Na primeira parte deste artigo publicado na semana passada (
Militância Partidária 1
), discutimos as injunções que afetam a questão dos partidos
políticos de esquerda, democráticos, socialistas e
revolucionários. Nesta segunda parte, procuramos discutir as
conseqüências disso para nós, tendo por centro a questão da
militância. Tratamos, ressalte-se uma vez mais, de apenas
contribuir para uma discussão necessária, em torno de uma
linha política de organização consentânea com nossa
experiência e exigências da presente situação.
A noção de militância política está na medula disso tudo.
Precisamos pensá-la de forma renovada e ampliada, a partir
de nossa própria experiência, de nossos quase 82 anos de
existência, da experiência de luta de nossos trabalhadores e
nosso povo. Isso é feito em um ambiente ainda de defensiva,
mas certamente de retomada do movimento político e social
frente ao neoliberalismo, particularmente no Brasil, que
chama a atenção do mundo todo. E, manifestamente, porque o
PCdoB, mesmo no decurso da terrível década de 1990, cresceu,
alcançou vitória expressiva com Lula na Presidência, e agora
crescerá ainda mais. Como se sabe, propusemos na linha da 9a
Conferência a noção de um PC de massas, amplo e extenso,
centrado nos trabalhadores.
A problemática concreta da militância nessa situação envolve
algumas considerações fundamentais. A que precede tudo é o
elogio da militância política. Como dizia Brecht, é
importante ensinar “coisas velhas” como se fossem sempre
novas, porque “poderiam ser esquecidas e consideradas
válidas apenas para tempos já transcorridos. Não há
necessariamente inumeráveis pessoas para as quais elas são
totalmente novas?”. A política é a forma mais elevada da
consciência social e a militância política num partido
político transformador, em prol do socialismo, é uma das
atividades mais elevadas e enriquecedoras do espírito
humano, que emancipa as mentes de explorados e oprimidos,
expande suas potencialidades frente à alienação nas relações
sociais. Falamos da vocação pública de homens e mulheres
capazes de se armar com o que existe de mais avançado na
consciência social, de construir, pelo laborioso processo da
organização, o instrumento mais elevado da ação por um novo
poder político, e de levar a luta pela elevação do nível de
consciência, organização e mobilização dos trabalhadores e
do povo, através de ingente trabalho de esclarecimento,
pedagogia, e politização. Enfim, servir aos trabalhadores,
ao povo, à Pátria, em busca da solidariedade social, por
intermédio da luta política, está no horizonte de nosso
tempo onde sempre esteve nos tempos modernos: absolutamente
imprescindível. A luta pelo socialismo necessita de uma
organização política de vanguarda, capaz de arregimentar
corações e mentes das classes sociais mais avançadas em
torno de um projeto político de um novo poder. A unidade
básica e constitutiva dessa organização é o militante.
Sustentar tal perspectiva designa o que se entende pelo
caráter de militante comunista e é parte da resistência a
opor aos epígonos do pós-modernismo, bem como aos
reacionários e conservadores de toda espécie e de todos os
tempos. Militância comunista significa hoje, essencialmente,
enriquecer a participação social e política de cidadãos e
cidadãs, articulando sua vida social com o programa e a
política dos comunistas, e com um compromisso organizado nas
fileiras do Partido. É no Partido, e por intermédio dele,
que se realiza coletivamente essa elaboração e articulação.
Por isso, é preciso desaprisionar tal visão militante de
estereótipos idealizados, próprios de determinados períodos
ou experiências histórico-concretas. Ficou evidente, a
partir da constatação da degeneração dos PCs que chegaram a
dirigir Estados socialistas, que muitos erros foram
cometidos, afetando a perspectiva militante de toda uma
geração, esta que convive com os anos de crise. Um “modelo”
de partido foi disseminado, definindo um tipo militante
determinado. Desenvolveram-se muitos desvios nas relações
entre os comunistas e os trabalhadores e o movimento social
e, com isso, perdeu-se o apelo político e a capacidade para
expressar de maneira articulada, enquanto Partido, o
conteúdo e as linhas de desenvolvimento da vida social. Em
condições prolongadas de clandestinidade ou semilegalidade
dificultou-se ainda mais esse processo.
Perseguimos esse princípio militante nas condições da
atualidade, com as sensibilidades renovadas para as relações
de exploração e opressão social, tal qual se dão na
realidade concreta. Ao abrir caminho à militância, buscamos
construir o compromisso global de homens e mulheres com a
causa transformadora, a opção política radical e cotidiana
deles, sem contrapor militância às demais esferas da vida,
promovendo a qualificação das potencialidades privadas de
cada qual. Buscamos comprometer a capacidade, vocação e
talento pessoal de cada um, nas condições em que pode atuar,
segundo seu nível de assimilação ideológica, sabendo graduar
sua contribuição, segundo sua motivação e área de interesse.
Buscamos, enfim, constituir uma comunidade em torno não só
de um projeto político, mas também de valores culturais,
éticos e morais elevados, impulsionadores da formação de
cada um. É um caminho generoso, despido da noção doutrinária
de sacrifício e de negação da individualidade. No Partido
eles devem encontrar uma organização que articule sua
experiência direta, sua relação com os diversos focos das
relações e conflitos sociais, com o nosso projeto político,
que é antagonista, voltado à construção dos caminhos de um
novo poder político para as almejadas transformações
econômicas, sociais e culturais da sociedade de caráter
socialista.
Hoje é preciso um esforço de lidar de modo realista com a
perspectiva militante, encontrar caminhos mais largos para
desenvolvê-la. Trata-se de abrir o Partido para fora - falar
mais amplamente com a sociedade, na linguagem do tempo, - e
abri-lo também para dentro – dando conteúdos e formas mais
variadas e ricas à sua vida interna.
Há alguns elementos próprios de nossa experiência brasileira
a nos servir para exame. Há no Brasil uma forte tradição
movimentista, que leva à luta contingentes formidáveis
quando amadurecem condições objetivas. Isso determina para o
Partido períodos de expansão, estagnação e mesmo de refluxo,
de certo modo “naturais”. Há ainda a rica experiência do
trabalho com a juventude, na qual a UJS é importante
originalidade a indicar esse caminho mais largo e multiforme
de organização. É evidente também entre nós que temos
filiados e militantes, e entre estes há o militante desses
movimentos – menos ou mais conjunturais –, o militante de
determinadas causas e áreas de interesse, o militante
conjuntural, o inconstante, o dos períodos eleitorais, o
simplesmente irregular. Ademais, tantos são os militantes
quanto os que já o foram, deixando o Partido, mas guardando
para com ele, na maioria das vezes, relação de respeito e
sendo seu eleitor, simpatizante, amigo.
Por isso, deve-se buscar lidar com essa multiformidade de
situações, buscando abarcar todo esse potencial, o que é um
problema também da organização, e não só do próprio
militante. Exige-nos adaptar a vida partidária a esse estado
de coisas, de modo a buscar incorporar também essas amplas
parcelas na militância, o que, é inegável, nos possibilita
uma mais estreita relação com a sociedade. E nos demanda
modos de emular a militância para que façam do Partido
instrumento da ação cotidiana, numa relação de duas mãos.
Isso nos indica esforço persistente para
tornar claro e positivado o projeto político comum que deve
ser de todos, linhas de trabalho estabelecidas em áreas
diversas da luta política e social, formas renovadas e
amplas de trabalho ideológico para alimentar a perspectiva
militante e formas organizativas capazes de impulsionar a
maior adesão à realidade e luta social, funcionais a esse
projeto político, para articular a militância segundo as
suas áreas de interesse e de atuação.
De todo modo, no centro dessa problemática sempre estará
posta a definição de direitos e deveres militantes. Uma tal
gradação de compromissos e variedade de atuação militante
deveria levar a graduar direitos e deveres? Pode um
militante votar e ser eleito no Partido sem cumprir com as
condições militantes? Ou não aplicar as decisões da maioria?
Pode qualquer filiado ostentar a responsabilidade de
militante partidário? Quando um novo quadro político
filia-se ao PCdoB, pode trazer seus "correligionários"
automaticamente, em bloco, para o Partido? Pode-se, às
vésperas de processos eletivos internos, mobilizar
artificialmente contingentes filiados que não têm integrado
regularmente o processo partidário?
Trata-se de respostas que invocam princípios gerais – bem
estabelecidos no PCdoB -, mas também sua aplicação conforme
o caráter do processo político e o grau de maturação que
alcançamos como corrente política e ideológica organizada no
país. Podemos conceber organicamente o Partido como um
conjunto de organizações que contém hoje 60 mil militantes,
entre 200 mil filiados – ativistas ou não -, que têm ao seu
redor milhões de eleitores, simpatizantes e amigos. No seio
deste universo maior, que tem identidade com a mensagem do
Partido, deve-se ter uma política ativa e permanente de
filiação. Isso resulta em força política para o PCdoB. O
universo de filiados, por sua vez, é campo para permanente
esforço de ativação para as batalhas que travamos e
campanhas que realizamos. E é celeiro para trazer novos
contingentes à esfera da atividade organizada do Partido,
visando adquirir maior musculatura militante. É uma
dialética única e integrada, um processo vivo e permanente.
Mas permanece central a noção de
militância. Essa tem sido nossa opção desde o 8o Congresso e
mantém atual a exigência de compromissos básicos, que
implicam em direitos e deveres, expressão de uma opção
pessoal de consciência. Hoje eles se estabelecem nas quatro
condições estatutárias, traduzidas nas quatro
características centrais de ser militante: militar, estudar,
divulgar, contribuir. Militar, no caso, refere-se a atuar no
âmbito de uma das organizações do Partido,
debater-votar-aplicar a política decidida pela maioria,
pertencer à organização de massa de sua área de atividade.
Isso é o que pode conferir direitos de eleger e ser eleito
na estrutura partidária: direitos condicionam-se a deveres.
Derivam de um ato de consciência, pessoal e intransferível,
que denota compromissos assumidos com a organização.
Entretanto, volte-se a frisar: tendo uma visão larga e
não-doutrinária da militância, da necessidade de abarcar
essa multiformidade de tipos militantes, que compartilham
uma cesta-básica de obrigações com o Partido. E tendo
presente a dialética entre militantes e filiados. Numa
dessas pontas, a do caráter e perfil da militância, se se
quer abarcar suas diversas condições e seu maior grau de
variação no tempo e lugar, precisará ser definida a cada
processo, mediante cadastramento regular nas Conferências.
Isso nos propõe designar as normas democráticas de
legitimação de sua participação nos processos deliberativos
do Partido, aprimorando inclusive os mecanismos de
identidade de sua condição militante e de estar em dia com
suas obrigações partidárias. O recurso a sistemas de
cadastro informatizado interativo e documento próprio da
condição de militante, de validade renovável a cada
re-cadastramento (carteirinha de identidade partidária), são
instrumentos indispensáveis para dar maior agilidade e
transparência à norma. Na outra ponta, a da dialética entre
militantes e filiados, é preciso considerar que sua
existência será um dado mais permanente da nossa experiência
e é da própria tradição política do país. Filiados são
aderentes às idéias e propostas do Partido, apóiam suas
campanhas de massa e seus candidatos, ajudam sua sustentação
conforme suas possibilidades. Não necessariamente se dispõem
a participar regularmente de sua vida interna. Toda uma
discussão pode ser feita para adequar normativamente a
distinção de situações entre militantes e filiados,
inclusive em termos de Estatuto.
Uma coisa é notória em nossa linha organizativa: o centro do
esforço organizativo, nesta etapa de maturação, é a noção de
partido de numerosa e estável militância, ou seja, de força
organizada pela base, para a ação. E isso precisa ser
alcançado, sobretudo entre os trabalhadores, que concentram
em si a dupla situação de explorados e oprimidos pelo
capitalismo. Cresce a percepção de que, nesse rumo, a
batalha principal não é mais só filiar, mas organizar a
militância em formas funcionais aos propósitos apresentados.
Sem organizações mais desenvolvidas pela base, a noção de um
Partido Comunista de massas sofre grande pressão pelo estilo
amorfo, que compromete seu papel e sua mensagem classista
aos trabalhadores e todo o povo. Deve estar claro que,
normativamente, o critério central para designar militância
é exatamente a noção de pertencimento a uma organização do
Partido. É, então, principalmente a organização de base, seu
coletivo, que deve promover o ingresso e atestar a condição
de militante de qualquer filiado ao Partido, num processo de
caráter dinâmico, para não conferir a esse controle um
conteúdo burocrático, feito a partir "de cima". Isso nos
remete à problemática central das formas organizativas,
corolário direto da questão do caráter, papel, funções e
feições da militância na atualidade.

*Walter Sorrentino, médico, é Secretário Nacional de
Organização do Comitê Central do PCdoB
waltersorrentino@pcdob.org.br
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