O artigo abaixo foi organizado para
ser publicado em duas etapas, mas dada a relevância do tema
e o avançado processo de conferências nos Estados,
resolvemos publicá-lo de uma única vez. O artigo é grande
mas lembramos que o tema é relevante e merece cuidadosa
atenção, leitura e divulgação.
Comitês Estaduais: consolidação, coesão, renovação
Walter Sorrentino*
A 9a.
Conferência fez importantes indicações sobre a política de
quadros e sua incidência para o papel dos comitês dirigentes
partidários. Isto está na ordem do dia, nesta reta final de
realização das Conferências Estaduais, que culmina com a
eleição de órgãos dirigentes em todos os Estados, em todas
as capitais e nos maiores municípios do país. Mas a chave
que define o tamanho e qualidade do impulso do PCdoB nos
próximos dois anos está nos comitês estaduais a serem
eleitos.
Num
olhar retrospectivo, a dialética concreta de nosso percurso
nesse terreno nas últimas décadas é reveladora. Ele tem suas
origens em 1978, quando se reorganiza a direção nacional. A
Chacina da Lapa, após o fim da experiência do Araguaia, mais
o enfrentamento político e ideológico com a corrente
liquidacionista, levou a uma nova direção nacional, eleita
afinal no 6o. Congresso em 1983 ainda na ilegalidade.
Estabeleceu-se desde aí a exigência em construir direções
estaduais sólidas, para dotar o PCdoB de um sistema de
organizações em todo o país.
Nesse
prolongado processo, obtivemos enorme êxito, culminando
desde o 9o Congresso em que o PCdoB está organizado e
presente em todos os Estados do país. Mais que isso, está
presente a partir de um Comitê Central e Comitês Estaduais
maduros nos maiores Estados da federação, em meio a integral
unidade política e ideológica em todo o país. Anteriormente,
em 1992, no 8o. Congresso, soldamos mais uma camada de
nossas convicções, reafirmando o leninismo em matéria de
concepção partidária. Data de 1997 a consigna de um partido
de feições modernas e nosso diagnóstico de uma defasagem nos
planos ideológicos e organizativos da atividade partidária,
que nos levou a estabelecer os Planos de Estruturação
Partidárias desde então. Mais uma vez pôs-se como vetor
essencial, ao lado da orientação política ajustada, o papel
das direções estaduais, indicando a necessidade de estender
esse processo de construção e consolidação aos comitês
municipais dos grandes municípios do país. Enfim, para
constituir um sistema de direção coeso, em bases
amplamente democráticas, em reforço ao papel do centro
único nacional. Estamos nesse percurso, agora entrando no
5o. Plano e visamos tornar definitivos e legais todos esses
Comitês, recuperando as situações retardatárias, e
estruturar o partido em todos os municípios com mais de 100
mil habitantes.
Trata-se, como se vê, de um processo perene, duradouro.
O que muda são as condições em que é perseguido e as
exigências a responder. As Conferências deste ano
transcorrem em condições notoriamente especiais,
espetacularmente mais favoráveis para o PCdoB. A expansão
das fileiras partidárias, o empuxe vigoroso de seu papel
político, a complexidade de sua atuação em todas as esferas
de ação, por si só já significa novas e maiores exigências
para a atividade de direção em todos os níveis. Por isso, a
construção e consolidação das direções precisam ter
continuidade em outro patamar. Uma multiplicidade de vetores
concorre hoje para a composição delas, seus papéis, funções
e feições, método e estilo. Isso foi exaustivamente tratado
na Resolução da 9a. Conferência e em nossa
imprensa eletrônica. Algumas reflexões centrais precisam ser
postas para articular esses vetores.
A
consigna central é de consolidação e avanço no papel dos
Comitês Estaduais. Eles precisam conferir maturidade
ao Partido enquanto corrente política, ideológica e
organizativa com características próprias no cenário de cada
Estado. Isso implica em desenvolver o pensamento político,
os marcos e esforços ideológicos e organizativos para
superar as defasagens.
Uma
justa orientação dos comitês estaduais é indispensável para
a maior coesão das fileiras partidárias. Nos marcos
da nova realidade política desafiadora para o
desenvolvimento do pensamento político do PCdoB, onde
estamos chamados a responsabilidades ampliadas, eles são
pólos para elevar a confiança de todos os comunistas
na linha partidária, o que pressupõe construir a própria
confiança de seus integrantes nela, essencial para extrair
da linha partidária toda a conseqüência para o impulso do
Partido. A confiança se constrói com a comprovação prática
do acerto dessa linha, com seu estudo aprofundado, seu
desenvolvimento para todos os campos de atuação, e
estimulando sua maior elaboração a partir de uma rica
atividade na luta de idéias e de ligação com as massas,
dirigindo suas lutas.
Aí se
apóia e exigência de elevar a unidade do Partido em
torno dessa linha. Isso é da essência de qualquer direção
partidária. Direções são uma construção coletiva de todos os
militantes, destinada a instituir um centro único de
direção, democraticamente eleito por todos os militantes por
intermédio de seus delegados, e sua missão primeira é
aplicar, defender e desenvolver a linha política do PCdoB,
definida nas instâncias máximas das conferências. Essa é uma
necessidade muito atual para as eleições de comitês
estaduais: a de que estabeleçam a unidade partidária em
patamar mais elevado, à base do centralismo democrático, de
disciplina, e da articulação dos projetos políticos do
Partido e de cada uma de suas lideranças, sob o comando de
um centro de direção eleito por todos, para agir em nome de
todos.
Isso
define componente essencial para o papel e a composição dos
comitês estaduais, para que nos próximos dois anos de
mandato se conduza efetivamente o PCdoB a novo patamar de
força e inserção no movimento real. Essencialmente, é
preciso institui-los como centro de direção orgânica,
articulando os componentes políticos, ideológicos e
organizativos, nos marcos traçados pelo 10o Congresso e 9a.
Conferência Nacional.
Sua
composição precisa combinar equilibradamente o fator
renovação e o fator permanência. Permanência que indica
reconduzir aos comitês quadros maduros na compreensão dessas
exigências; renovação que indica promover quadros novos para
estimular seu papel e responsabilidades ampliadas,
impulsionar ou estabelecer novas frentes de trabalho. A
renovação não pode ser considerada mera coadjuvante da
permanência. Porque não diz respeito apenas à renovação de
pessoas, mas a renovação de papéis que elas desempenham,
dentro ou fora do comitê. Os quadros podem e devem cumprir
diferenciados papéis, alternando-os ao longo da vida
militante. Deixar de integrar direção não é sempre superação
do quadro, mas alteração de papéis. Se absolutizamos a
permanência, a renovação se restringe. Dada a maior
complexidade de nossa atuação em todas as esferas, os
comitês tendem a ser maiores, mais representativos da
diversidade que é o Partido em cada Estado. Isso não se
confunde com critérios federalizados, ou de composição de
interesses e projetos particulares. Visto de conjunto, cada
integrante do comitê estadual deve ter condições de pôr em
primeiro plano sua condição de dirigente do conjunto da
atividade do Partido, a par de seu papel específico como
quadro político, de massa ou de direção municipal. Seus
integrantes devem ter papéis concretos a desenvolver como
dirigentes, no âmbito do comitê e do plano de estruturação
estabelecido para o Estado. Portanto, em sua composição,
devemos integrar não só os mais capazes e comprometidos, as
lideranças partidárias, mas também forças novas para
reforçar e impulsionar frentes internas e externas da
atuação partidária.
Uma
questão para a renovação é o da composição social e de
gênero das direções. Temos feito uma boa experiência,
combinando em nossas direções quadros políticos, de massa e
intelectuais orgânicos. Não obstante, devemos manter em
vista uma visão estratégica e de longo prazo, que nos
indica a necessidade de elegermos mais trabalhadores,
mulheres e jovens para os comitês estaduais. A promoção de
quadros novos de direção pode e precisa dar maior estímulo
aos operários e operárias, às mulheres e aos jovens.
Quanto
aos operários e operárias, o PCdoB reforçou sua atuação nos
últimos anos nos Estados de maior importância industrial.
Levar operários e operárias à direção, mesmo quando
eles ainda se mostram em formação, é não só um modo de
ajuda-los nesse processo, mas também de ajudar o Partido,
porque reforça o seu caráter de classe, a linha que
precisamos perseguir de maior protagonismo político na luta
social, e em geral o caráter disciplinado e consciente da
atuação militante. Sempre temos que levar em conta que a
formação dos operários como quadros experientes de direção
precisa de esforços dirigidos, pacientes, perseverantes e
duradouros. Em geral, o PCdoB sempre ganhou quando promoveu
quadros operários à direção, mesmo quando nem todos se
mantiveram em tais órgãos, enriquecendo, entretanto, sua
formação e papel posterior.
Outra é
a questão das mulheres. Sem dúvida, o movimento de
emancipação das mulheres foi um dos fatos mais marcantes da
humanidade das últimas décadas do século, que mudou a cara
do mundo. Emancipação ainda truncada e barrada sob o
capitalismo, mas que sem dúvida pôs o contingente feminino
como uma força cada vez mais ativa em todos os campos de
atividade. Também no Partido isso ocorreu. Na base do
trabalho partidário, sobretudo o trabalho junto às massas, o
percentual de mulheres é elevado, mesmo sem atingir a
metade. Entre as nossas mais representativas lideranças
partidárias, inclusive campeãs de voto, estão mulheres.
Entretanto, quanto mais se "sobe" na estrutura partidária,
menor fica esse percentual. Precisamos de mais mulheres
conscientes nas direções partidárias! Esse é um
indicador de visão avançada e pioneira. Certamente, a
eleição de mais mulheres precisa ser apoiada por esforços
pacientes e perseverantes para estimular seu papel, levando
com conta as especificidades de sua condição social de
gênero.
Por
último, os quadros jovens. O PCdoB, no atual estágio de sua
estruturação, vai fazendo uma transição geracional em suas
fileiras dirigentes, o que é uma das principais provas de
sua maturação como corrente política organizada. A renovação
de quadros de direção em geral, e a indicação de membros
jovens em particular, integra esse movimento de transição, e
precisa ser feito ativa e conscientemente. No tocante ao
movimento jovem, o PCdoB é merecidamente a corrente mais
enraizada e organizada do país. Isso nos fornece um
manancial de quadros que precisam ser formados e temperados
na luta. Sua eleição aos comitês estaduais, como vem
ocorrendo no Comitê Central, é um poderoso estímulo para
essa formação, e um prefigurador do PCdoB que teremos nos
próximos anos. Devemos ser audazes nesse processo de eleger
mais jovens aos comitês estaduais.
Ao lado
das premissas de composição dos comitês estaduais, avulta em
nossa experiência a necessidade de adequados métodos e
estilos de direção. É muito mais freqüente do que o
desejável, em nossa experiência, verificar que se entrava a
atuação do partido por insuficiente atenção a esse aspecto.
Há vários indicadores em nossa experiência nesse aspecto.
Um
indicador claro em nossa experiência é a noção avançada de
que as direções em geral, o comitê estadual em particular,
para se erigir em centro único respeitado e enriquecedor da
atividade partidária, precisam ter o papel de coordenar o
projeto político do Partido e de cada uma de suas frentes,
incluindo o dos principais quadros e líderes partidários.
Isso explicita mais o que é central para o papel de direção,
e confere ao seu trabalho um caráter mais largo e inclusivo,
combinando autoridade e persuasão no rumo definido pelo
projeto político que é de todos. Isso não convive com um
dado já consagrado em nossa experiência: métodos fechados,
burocráticos, mandonistas, tratamento sectário entre os
quadros de direção, que estiolam a atividade partidária. As
coisas ficam inviáveis quando a própria direção se envolve
em facciosismos ou fica refém de pólos de interesse
existentes no interior do Partido. Se levarmos em conta as
indicações do 10o Congresso e 9a
Conferência Nacional conseqüentemente, podemos superar um
sem número de situações de falta de unidade e coesão nas
fileiras partidárias. Direções e os quadros que as integram
são respeitados pela sua capacidade de impulsionar o projeto
político do Partido, integrar suas frentes de atuação,
promover a unidade e concórdia entre todo o coletivo, ter
capacidade de auscultar seus anseios e ajuizar os
inevitáveis conflitos internos com flexibilidade, firmeza e
persuasão, no rumo político decidido democraticamente.
Enquanto métodos, isso exige o maior desenvolvimento da
institucionalidade partidária. O Partido é um ente
político, que congrega elementos conscientes e organizados,
unidos em torno de um projeto político. Sua direção precisa
assegurar e estimular a legalidade de sua vida
interna em todas as suas instâncias, o respeito aos
princípios e normas, devidamente regulamentados. Sem dúvida,
com o atual crescimento, isso se fará cada vez mais
necessário, inclusive ao nível da direção central.
Outro
dado já bem sistematizado é que, sendo o Partido um sistema
de organizações, o próprio processo de direção se
constitui num sistema, menos ou mais integrado, menos ou
mais desenvolvido. Hoje, a chave para o sucesso dos comitês
estaduais é apoiar-se em um conjunto de comitês municipais
nos maiores municípios, e compor comissões capazes em apoio
ao trabalho executivo. Sem isso, a direção estadual fica
carente de instrumentos. Por isso dissemos, em artigo
anterior, que o elo principal hoje para a consolidação dos
comitês estaduais é levar o centro de gravidade do processo
de direção para fortalecer o trabalho dos comitês
municipais, entre os quais, em primeiro lugar, está a
consolidação dos comitês de capitais. Experiências úteis e
importantes tem sido feitas - e precisam ser desenvolvidas -
para erigir esses comitês como pólos de referência para
alcançar o conjunto dos comitês municipais inclusive dos
pequenos e médios municípios do interior.
Nesse
sistema de direção, segue em curso a necessidade de uma
justa combinação entre o papel das comissões políticas -
centro de gravidade do trabalho de direção entre uma e outra
reunião plenária do comitê - e o trabalho executivo das
secretarias, o secretariado. As comissões políticas não se
limitam à discussão política, negligenciando os processos
ideológicos e organizativos da estruturação partidária. Os
secretariados, por sua vez, coordenam o trabalho executivo
das secretarias. Quando seus membros integram também as
comissões políticas, eles são como os membros permanentes da
comissão política - dedicados especificamente ao trabalho de
direção das frentes partidárias.
Nem
sempre encontramos essa justa combinação. Nos últimos anos,
particularmente, se enfraqueceram os núcleos executivos, em
correlação com o melhor papel que vem sendo cumprido pelas
comissões políticas. Isso atingiu até mesmo a área
nevrálgica da organização. Mas são crônicos quanto às
secretarias de finanças, de juventude e de movimentos
sociais-populares, alvos de nosso esforço no último PEP, sem
falar na exigência de secretaria para dirigir o crescente
trabalho institucional. Os núcleos executivos não podem ser
fragilizados em sua composição. Ao contrário, é preciso
reforçá-los. É preciso trabalhar no rumo de que o
projeto político pessoal prioritário de cada membro desse
núcleo executivo é exatamente dirigir o Partido, e a partir
daí buscar dar representatividade social e política ao seu
papel no seio da sociedade - como dirigentes partidários.
Salvo situações onde o Partido e sua direção estão mais
maduros e desenvolvidos, quando se pode combinar o papel de
parlamentar e presidente, por exemplo, a regra neste momento
de impulso é concentrar forças para um trabalho de direção
executiva composto por quadros que tenham isso por
prioridade.É importante ressaltar que isso não implica em
absolutizar critério de disposição exclusiva ou
disponibilidade de tempo para integrar esses núcleos
executivos, como já foi indicado na Resolução da 9a.
Conferência. Ao contrário, direção partidária, mesmo em
nível executivo, precisa saber levar em conta as
disponibilidades diferenciadas entre cada qual de seus
membros, para alargar o repertório de possibilidades e
aproveitar a maior inserção social que isso pode propiciar.
O central não é ter pessoas providenciais, mas processos de
direção integrados, contando com as secretarias
fundamentais, comissões auxiliares em apoio, infraestrutura
para cada qual cumprir os papéis determinados. Em suma,
direção é uma orquestração de esforços, para o que se
necessita de visão larga, capaz de incluir numerosos
quadros, e programas de trabalho positivados.
Ao ver
de conjunto a articulação desses vetores, precisamos ter
visão construtiva, dentro do processo perene e duradouro
citado no início. Nada nasce pronto, nem sempre é possível
dar saltos. Mas precisamos considerar que esse é o norte do
esforço, e traçar caminhos e meios para alcançá-los nos
próximos dois anos de mandato. A hora é propícia, porque é
de grande impulso para o PCdoB. É mais favorável ao avanço e
as superações de defasagens. Por isso, precisamos considerar
a necessidade de concentrar esforços especiais nesta hora no
trabalho de direção dos comitês estaduais, com ousadia e
descortino. Considerar também que, para extrair todas as
conseqüências desse impulso, ao lado da essencial orientação
ajustada, se necessita também de um processo de direção e
dirigentes capazes de emular o Partido, galvanizar
sua militância no rumo de perseguir projeto político, ou
seja, estabelecer a direção como liderança interna do
Partido, respeitada pela clareza, determinação e arrojo
em impulsionar esta nova fase da vida do PCdoB.

*Walter
Sorrentino, médico, é
Secretário Nacional de Organização do
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