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Brasil, sexta-feira, 21 de novembro de 2008

27 de JANEIRO de 2004

 COLUNAS

MILITÂNCIA PARTIDÁRIA – I       

         Walter Sorrentino*

A linha definida na 9a. Conferência Nacional nos reclama avançar para uma atualização de concepção e prática sobre as questões de Partido – seu caráter, função perfil e feições. Está na medula dessas questões re-visitar a questão da militância política, das formas de organização, do papel dos quadros e comitês dirigentes, etc, matéria que está apontada também no Encontro Nacional convocado pelo CC para março próximo.

Não retomo exaustivamente aqui as condições (e exigências) que tornam possível (e necessário) esse esforço hoje, bastante tratado em nossos documentos partidários e nesta coluna. Refiro apenas que isso se tornou indispensável, dada a condição de avanço na luta em nosso país e no continente sul-americano. Desse modo, até para contribuir com os debates do Encontro, a coluna vai procurar abordar alguns elementos que podem servir para compor um repertório de respostas mais consolidado nessa momentosa questão da organização partidária. A intenção é apenas fornecer indicações sobre a reflexão que vem sendo feita pelo PCdoB, desde o 8o. Congresso, procurando ajudar assim a todos que se aventurem a uma abordagem sistemática da questão e apontar, a título de discussão, alguns possíveis desenvolvimentos.

A CRISE E A ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DE ESQUERDA

Um ponto de partida sintético nesse debate pode ser dado pela noção de “crise orgânica”. O conceito foi utilizado por Marta Harnecker**, em complemento à crise teórica e programática da esquerda, que ela indica existir. Referindo Clodomiro Almeyda, ela dá essa denominação à crise que se refere “à natureza orgânica [dos partidos de esquerda], à sua relação com a sociedade civil, e identificação das suas atuais funções e das formas de levá-las a cabo”. Isso tem levado, segundo a autora, à “perda da capacidade de atração e mobilização perante as pessoas e especialmente perante a juventude, quanto numa evidente disfuncionalidade das suas atuais estruturas, hábitos, tradições e maneiras de fazer política...”. Sem endossar expressamente o conjunto da apreciação feita por M. Harnecker, essa parece ser uma categoria apropriada para dar conta das (e conter) recorrentes referências em outros autores à crise da forma-partido e à crise de militância, manifestamente para os partidos de esquerda, no âmbito mais largo dos partidos políticos de massa, democráticos.

Pode-se distinguir algumas vertentes que se cruzam na caracterização dessa categoria conceitual, para submetê-la ao crivo crítico. Uma vertente decorre das características da sociedade atual, que condicionam e-ou dificultam o papel do partido político de esquerda hoje, a reclamar novas formas, papéis, funções e feições. Isso foi tratado em nosso 10o Congresso e, tendo como central a problemática do sujeito histórico da luta anti-capitalista, tem motivado intensa reflexão sobre a situação e papel do proletariado desde 1999, com a Conferência Sindical Nacional e o Seminário conduzido pelo IMG sobre o tema.

São reflexões que apontam para investigar, na práxis política, como se alteraram, mediante a reestruturação capitalista ocorrida nas últimas décadas, as identidades sociais e a gama variada de necessidades, difíceis de se organizar e representar em um projeto político e orgânico homogêneo, num ambiente de refluxo da luta pelo socialismo. Isso tem se revelado muito centralmente quanto ao papel das classes trabalhadoras. As tendências tecnológicas e o impacto da mobilidade-flexibilidade produtiva alterou as formas tradicionais de identidade subjetiva e representação dos trabalhadores e o novo padrão de integração territorial alterou critérios estritos de territorialização como sede prioritária das relações sociais. Isso infere novas dimensões de organização da política, de fracionamento de interesses, novas sedes e focos do conflito social, novos ativistas sociais quese insurgem contra a opressão, promovendo atomização de identidades que enfraquecem a solidariedade coletiva. Atuam aí também as alterações profundas num modelo determinado de organização da política: a reivindicação sobre os poderes constituídos, dado o desmonte do Estado e das políticas públicas. Quanto à democracia, é notório seu esvaziamento real, submetida ao crivo do mercado, inclusive o “mercado político”, espetacularizado midiaticamente em eleições, e sujeito ao “interesse de grupos”, ao serviço do pretendido pensamento único. Na prática, o poder real se transferiu em boa medida das instituições democraticamente validadas para esferas extra-institucionais – finanças, poder econômico, mídia, lobbies. Isso tem conferido às relações sociais certa característica de anomia.

Outra vertente é representada pelas vicissitudes da experiência – e derrota – da experiência socialista. Desde nosso 8o Congresso temos nos debruçado a fundo sobre suas causas e conseqüências, incluindo o fenômeno da degenerescência do PC que teve lugar nessa experiência. Há uma intensa pregação ideológica regressiva, afetando a perspectiva de milhões que buscam saída para os problemas da crise sistêmica do capitalismo. São todos fatores que reclamam uma mediação política que infere novos aspectos organizativos para o partido político marxista revolucionário. O fato é que isso afeta a perspectiva militante, pois deu lugar a intenso descrédito na perspectiva da luta por uma nova sociedade, na desilusão com o socialismo e o modelo organizativo de Partido que legou. Por toda parte condena-se a estrutura dita vanguardista, verticalista e autoritária, tendo por base a cópia de um modelo determinado de partido. Sem deixar de partirem de considerações reais, tais construções são também apropriadas ideologicamente e são parte da luta de idéias na sociedade. Uma abordagem crítica disso tudo vem sendo realizada por nós, desde o 8o Congresso de 1992, e está no centro da contenda pela manutenção do caráter do Partido Comunista, num esforço de renovação e permanência destinado a retomar, em outro patamar, a perene luta pela construção do instrumento essencial da luta transformadora.

Nos últimos anos, por fim, outra vertente teórica e prática ocupa a cena nesse debate: a problemática dos movimentos sociais. É de se referir que, mesmo em meio a essas dificuldades todas, cresce a atividade associativa,  de variados matizes e formas. Em face da redução da capacidade aglutinadora das ideologias, emerge uma série de movimentos que não têm aspirações totalizantes ou universalizantes, e que motivam militâncias muitas vezes críticas da sociedade sem perspectiva de poder político nem de mediação partidária, sem aspirar a novos modelos sociais. Questões sociais novas, como o papel da mulher na sociedade e no trabalho, novas formas de organização cultural, temas como a luta por direitos étnicos, ambientais, de opções sexuais, direitos humanos, etc, são marcantes no atual panorama social.

Retoma-se nesse ambiente, como sempre, a velha contenda sobre o papel do partido político de esquerda, que mantém central a estratégia classista proletária de transformação social. Isso é próprio dos momentos de enfrentamento do refluxo do movimento e de sua retomada. Busca-se rebaixar ou mesmo negar o papel do elemento consciente na luta por uma nova sociedade e, com isso, negar o papel desses partidos. Na 9a. Conferência Nacional, e em toda a participação nos Fóruns Sociais Mundiais, temos estabelecido um diálogo crítico com tais intentos, simultaneamente a um confronto em termos de estratégia política. Diálogo e confronto que implica reconhecer novas realidades e desafios para a esquerda de orientação marxista, enfrentar insuficiências para dar conta de novas realidades de formas de consciência, luta e organização dos variados ativistas sociais, para ser capaz de englobar tais interesses fragmentados. Isso nos exige repor uma relação dialética entre o fator espontâneo e o fator consciente na luta por uma nova sociedade, emular e respeitar a autonomia dos movimentos sociais, recusar a noção reducionista de correias de transmissão. São exigências para reafirmar o papel insubstituível de um partido político que luta por transformações sociais e econômicas de fundo, procurando cumprir seu programa socialista, englobando a luta econômica e política, social e cultural. Porque, no fundamental, trata-se de ganhar a batalha de idéias em torno da indispensabilidade de um novo poder político para promover a mudança do regime social.


*Walter Sorrentino, médico, é Secretário Nacional de Organização do Comitê Central do PCdoB

waltersorrentino@pcdob.org.br

**Harnecker, Marta. "Tornar possível o impossível - a esquerda no limiar do século XXI". Pág. 345. Paz e Terra. 2000.

 

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