Sem categoria

Ato reúne centenas de pessoas para último adeus a Neuton Miranda

Um ato político em frente à Assembleia Legislativa do Pará marcou o fim do velório e a despedida final de Neuton Miranda nesta terça-feira (23). O local ficou repleto de bandeiras empunhadas por militantes do PCdoB. Familiares, amigos, lideranças do movimento comunitário, funcionários da Superintendência de Patrimônio da União e autoridades de todo o estado ocuparam a Casa, levando sua última homenagem ao comunista reconhecido pela história de lutas sociais que marcou toda sua trajetória.

Enterro Neuton

Patrimônio do povo, brasileiro lutador, sonhador e vencedor no Estado do Pará. Simples, paciente, otimista, político honesto, grande camarada. Essas e outras expressões foram amplificadas a partir do carro de som parado em frente à Alepa, onde companheiros se revezavam para lembrar o dirigente do PCdoB Neuton Miranda, 61 anos, morto por um ataque cardíaco fulminante no último sábado (20).

Neuton liderava um trabalho pioneiro de concessão de uso do solo que beneficiou mais de 60 mil famílias paraenses, de ribeirinhos a moradores da grande Belém. Apesar da saúde já debilitada por um tumor, o comunista deu continuidade ao trabalho e fazia isso quando seu coração parou.

“Belém é uma cidade muito pobre. Quantas centenas de famílias vivem em palafitas ou são sem-teto. E Neuton vinha transformando esta realidade desde que o PCdoB o indicou para a tarefa de revolucionar a Companhia de Habitação do Pará quando fui prefeito. Depois, continuou realizando este lindo trabalho na SPU. Ele faz parte da nossa história”, discursou Edmilson Rodrigues, que compartilhou de lutas conjuntas quando era deputado estadual junto com Neuton.

Érico Albuquerque, vice-presidente do PCdoB no Pará, continuou dizendo que “a construção da política no Pará tem muito de Neuton Miranda. Ele tinha um espírito de camarada, ele buscava transformar. Estamos todos muito tristes, mas vamos colocar em prática todos os sonhos dele, vamos fazer valer o trabalho que ele geriu na SPU. Vamos dar continuidade a tudo que e fez pelos ribeirinhos e pelo povo de Belém a partir da regularização fundiária”. Albuquerque finalizou, emocionado: “Você camarada é inesquecível. Vamos continuar seu trabalho em prol de um Brasil independente e um Pará próspero”.

Apesar do sol quente e da temperatura passando dos 38 graus, o povo que não se incomodou e ocupou as escadarias da Alepa, a praça Felipe Patroni e ruas vizinhas. Com lágrimas no rosto, homens e mulheres gritavam: “Neuton Miranda, bravo companheiro, heróis dos comunistas e do povo brasileiro”.

Exemplo de político

Não foram apenas os companheiros de partido que tomaram a palavra para homenagear Neuton Miranda. O vereador Ademir Andrade (PSB) disse que “embora seja um momento difícil para todos, é também um momento também de reflexão que nos mostra o quanto os políticos são vistos de maneira generalizada. Neuton Miranda é um exemplo de que nem todos os políticos são iguais. Convivi com ele por mais de 30 anos, assim como convivi com Paulo Fonteles. Essas pessoas dedicaram toda sua vida, sua existência à luta por um Brasil mais justo e deixaram seu legado”.

Os deputados João Salame (PPS), Luiz Cunha (PDT) e Guilherme Guerreiro (PV) ressaltaram que Neuton nunca abriu mão de suas posições ideológicas e sempre soube respeitar as diferenças e divergências.

Representando a Assembleia do Pará, o deputado Airton Faleiro (PT) fez um discurso diferente, estimulando o PCdoB a eleger um deputado federal pelo estado nas próximas eleições. “Conversei com militantes do PCdoB que me falaram que não está sendo fácil. Mas, disse que temos de dar continuidade ao sonho de Neuton. Sei que ele estava empolgado com a possibilidade de se candidatar deputado federal”. Faleiro afirmou ainda que Miranda “foi um vencedor neste Estado e faz parte da luta do povo”.

O secretário Claudio Puty representou a governadora Ana Julia Carepa durante o ato e declarou que “Neuton conseguiu por um ato administrativo transferir para Belém a regularização fundiária em nome da boa política e da construção de uma sociedade mais justa e socialista. Agora mais do que nunca é necessário fortalecer ainda mais o PCdoB”.

Tião Miranda, irmão de Neuton, se pronunciou agradecendo a cada um que compareceu ao velório. “Sabia do lindo trabalho que meu irmão fazia, mas não tinha dimensão do quanto era reconhecido e quanta gente o respeitava e o admirava”. Lembrando da trajetória do irmão, Tião contou que desde 1968, que foi vice-presidente da UNE e passou 10 anos na clandestinidade, seu pai “sofria muito porque não consegui localizá-lo”. Para ele, “Neuton não deixou riquezas; tinha uma casa, era simples, mas deixou o exemplo de político honesto e de um trabalho de muita luta”.

Dirigentes comunistas atuantes em frentes diferentes, como Marcão Fonteles, da CTB; Fausto Bulcão, da UNE; Lélio Costa, da SPU; Leila Márcia, presidente do comitê municipal de Belém e o vereador Ivan Tavares destacaram a inconformidade de Neuton com a injustiça social.

O também comunista Jorge Panzera, secretário de Esporte e Lazer do Governo do Pará, acompanhou toda a vigília e fez uma fala emocionada: “Ontem fiquei pensando com meus poucos mais de 25 anos de militância o que eu falaria de um camarada como o Neuton. Afinal, convivemos muito tempo. Ele era um amigo, um companheiro de verdade. Como encontrar palavras num momento tão difícil como este?”. E continuou: “Muitos aqui falaram de sua morte. Mas, prefiro falar como os cubanos: pessoas como Neuton não morrem. E o que ele fez desde a década de 1960 não se apaga. Fica a semente em cada um que partilha do mesmo sonho. Neuton tinha duas famílias, a de sangue e da cor vermelha, a família dos militantes do PCdoB”. Por fim, exclamou: “Neuton desapareceu fisicamente, mas deixou um grande legado. Neuton Miranda, presente!”.

Representando o Comitê Central do PCdoB, o secretário de Comunicação José Reinaldo de Carvalho disse que “o verso mais forte do Hino Nacional – “verás que um filho teu não foge à luta” – representa o Neuton. Ele nunca fugiu da luta, dedicou toda sua vida à libertação social. Prova disso foram as circunstâncias em que nosso camarada deixou a vida, trabalhando. Mesmo diante das adversidades, era um homem extremamente paciente. Tinha a paciência da persistência, da sabedoria de nunca se acovardar com as dificuldades. Era um homem que tinha a disposição para encarar as coisas pelo seu lado positivo, mesmo em situações muito difíceis. Era portador da ciência, da história e compreendia a luta dos comunistas”.

Ao final do ato político, todos acompanharam o cortejo fúnebre em direção ao cemitério Recanto da Saudade, no município de Ananinideua, onde aconteceu o enterro no fim da tarde. Lá, o corpo foi encaminhado à capela mortuária. Reunidos ao redor do caixão de Neuton, os presentes ouviram pela primeira vez a esposa, Leila Miranda, e a filha, Janaina Miranda. A jovem contou que há um mês esteve com o pai tratando do vestido de noiva para seu casamento, marcado para setembro. “Lembro que pedi para ele me ajudar a fazer a lista de convidados, mas disse que não sabia como. Agora entendo, vendo todos vocês aqui mensagem do meu pai”.

Velório

Durante os três dias de velório centenas de pessoas do povo, lideranças populares e políticos do estado compareceram ao salão da Assembleia Legislativa do Pará prestando homenagens a Neuton Miranda. Mais de cem coroas de flores foram enviadas.

Entre os presentes, a governadora Ana Julia Carepa declarou emocionada, segunda-feira: “Fico triste não só pela perda de um amigo, de um companheiro ou de um aliado. Mas pela perda de um homem que se dedicou a lutar pela justiça social. É esse homem, correto durante toda sua vida, que nos deixa e nos surpreende até na hora de ir embora. A melhor homenagem que podemos prestar para esse companheiro é continuarmos a luta pelo povo, porque com certeza nós o estaremos homenageando”.

Também marcaram presença os ex-governadores Jader Barbalho, Carlos Santos e Simão Jatene e o amigo e ex-prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues.

A participação da militância e dos dirigentes comunistas também foi marcante. Estiveram no velório o senador Inácio Arruda, os deputados Chico Lopes (CE) e Vanessa Grazziotin (AM), além de dirigentes e militantes de 80 comitês municipais do PCdoB do Pará.

Na avaliação de Moisés Alves, da direção estadual do PCdoB, o reconhecimento do mundo político, do povo, dos movimentos sociais e da mídia local mostra que Neuton “já faz parte do rol dos principais expoentes políticos que atuaram no cenário paraense. Sua capacidade de pensar, de atuar sempre em defesa dos menos favorecidos, o fato de estar sempre presente na luta das mulheres, dos estudantes e na defesa dos direitos dos trabalhadores, construiu a marca desse grande homem”. Para ele, “o Pará perdeu mais do que um político, mais do que um gestor público, perdeu um referencial da luta dos movimentos sociais, dos trabalhadores e do povo. Neuton Miranda vai estar sempre presente na memória e na luta de nosso povo”.

De Belém,
Michelle Muniz com a colaboração de Moisés Alves

Leia também: Governadora do Pará destaca a opção de Neuton Miranda pelo social
                          Camarada Neuton Miranda falece após ataque cardíaco