“Raça em extinção”: o 117º ataque de Bolsonaro à imprensa

De forma irônica, presidente afirmou que jornalismo deveria ser vinculado ao Ibama e disse que quem lê jornais “não está informado”

Não demorou muito para Jair Bolsonaro atacar a imprensa em 2020. Nesta segunda-feira (6), o presidente afirmou que o jornalismo está em extinção e deveria ser vinculado ao Ibama (órgão responsável pela preservação do patrimônio natural). Ele havia sido questionado se mantém conversas com os presidentes da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), sobre as reformas econômicas que estão na agenda dos parlamentares em 2020.

Em resposta, o presidente disse que sempre conversa com Maia e Alcolumbre, mas que não pretende “provocar uma crise”. Ele se referia à ordem do cronograma das reformas tributária e administrativa. Depois disso, partindo para a ironia, Bolsonaro disse que quem não lê veículos de imprensa não está informado.

“Quem não lê jornal não está informado. E quem lê está desinformado. Tem de mudar isso”, afirmou Bolsonaro, na manhã desta segunda, ao deixar o Palácio da Alvorada. “Vocês são uma espécie em extinção. Eu acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama. Vocês são uma raça em extinção”, prosseguiu.

Para justificar o ataque, Bolsoanro tergiversou que “é importante a informação, não a desinformação ou o fake news”. Segundo ele, o governo cancelou a assinatura de “todos os jornais” no Palácio do Planalto. “Todos, todos, não recebo mais papel de jornal ou revista. Quem quiser que vai comprar”, afirmou. “Não me acusem de ter crucificado Jesus Cristo não, por favor, tá certo? Esse tipo de informação atrapalha a todos vocês. Cada vez mais a gente não confia em vocês.”

Conforme levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), é o 117º ataque de Bolsonaro à mídia desde o início de seu mandato – e o primeiro neste ano. Segundo a federação, 116 investidas ocorreram em 2019, sendo 11 ataques a jornalistas, e 105 tentativas de descredibilização da imprensa. A média do presidente é de quase dez ataques por mês a jornalistas, a veículos de comunicação e à imprensa em geral.

No sábado (4), Bolsonaro já havia criticado a cobertura jornalística do governo ao comentar, no Twitter, uma reportagem do UOL que mostra que ele usou recursos do fundo eleitoral na campanha na qual foi reeleito deputado em 2014. Na mensagem, Bolsonaro acusa o veículo de mentir porque a lei atual que trata do financiamento público foi aprovada em 2017.

Na fala desta segunda-feira no Palácio da Alvorada, o presidente voltou a citar a reportagem: “O UOL falou: Bolsonaro falou para não votar em candidatos que usem o fundão, mas ele usou em 2014. O fundão é de 2017. É de uma imbecilidade. Não vou dizer todo mundo aqui, para não ser processado pela ANJ [Associação Nacional de Jornais] e não sei o quê, mas é de uma imbecilidade. Não sabe nem mentir mais”.

Bolsonaro omite, no entanto, que a possibilidade de dinheiro público financiar campanhas já existia. A mudança que a lei aprovada pelo Congresso em outubro de 2017 trouxe foi a exclusividade da verba eleitoral ser de dinheiro público e de pessoas físicas, sem a participação de empresas. De acordo com a reportagem do Uol, Bolsonaro usou R$ 200 mil de recurso público destinado ao PP em 2014.

“Ao atacar a mídia, Jair Bolsonaro revela-se não apenas um político convencional”, retrucou Josias de Souza, colunista do UOL. “Demonstra ter uma pontaria precária para um capitão. Aponta para os repórteres e acerta pelas costas o pedaço da sociedade que desconfia do presidente. Faria um favor a si mesmo se trocasse a crítica pela autocrítica.”

A ABI (Associação Brasileira de Imprensa) rechaçou as declarações de Bolsonaro. “Enquanto a informação for uma necessidade vital nas sociedades modernas – e ela será sempre –, o jornalismo vai continuar a existir. E, com certeza, sobreviverá por mais tempo do que políticos inimigos da democracia, que, estes sim, tendem a ser engolidos pela história”, diz a nota, assinada pelo presidente da ABI, Paulo Jerônimo de Sousa.

Ataques recorrentes

Os ataques à imprensa foram uma marca do governo de extrema-direita em 2019. Numa live em 7 de novembro, Bolsonaro anunciou o boicote à CartaCapital. “Não vai ter mais a revista CartaCapital. Para que assinar uma revista dessas? Só tem mentira. Não vou nem falar em fake Newsfake news tem uma certa inteligência muitas vezes. Ali é mentira deslavada”, disse o presidente, sem fazer referência a um conteúdo específico. “É uma medida econômica. Estamos cortando despesas, não é perseguindo a Folha, nem perseguindo a CartaCapital.”

O jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil, também recebeu uma série de ataques do presidente, após divulgar vazamentos de mensagens entre o ex-juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol, durante a Operação Lava Jato. Em 30 de julho, Bolsonaro chamou Greenwald de “militante” e acusou-o de cometer ilegalidades na Vaza Jato. “O Greenwald é jornalista? Ele é militante! Eles já acharam R$ 100 mil com gente deles lá”, disse em Brasília. A declaração ocorreu dias após Bolsonaro afirmar que Greenwald poderia “pegar uma cana no Brasil”.

O último caso de maior notoriedade em 2019 foi quando Bolsonaro disse a um repórter que ele tinha cara de “homossexual terrível”. Na ocasião, havia sido perguntado sobre o caso de corrupção que envolve o seu filho, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Ativistas de direitos humanos consideraram a fala como homofóbica e violenta.

Da Redação, com agências

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