Bolsonaro se sente traído e vai tirar Segurança Pública de Sergio Moro

Presidente ficou incomodada com entrevista dúbia do ministro ao Roda Viva, da TV Cultura

O presidente Jair Bolsonaro afirmou, nesta quinta-feira (23), que o governo pode contrariar a vontade Sérgio Moro e desmembrar a pasta ocupada hoje pelo ministro – Justiça e Segurança Pública. O governo trabalha com a ideia de retomar o modelo anterior e desmembrar o órgão em dois, recriando o Ministério da Segurança Pública.

“É comum (o governo) receber demanda de toda a sociedade. E ontem os secretários estaduais da Segurança Pública pediram para mim a possibilidade de recriar o Ministério da Segurança. Isso é estudado. É estudado com o Moro”, afirmou Bolsonaro, na saída do Palácio da Alvorada, antes de embarcar para a Índia. “Lógico que o Moro deve ser contra, mas é estudado com os demais ministros.”

Segundo a jornalista Vera Magalhães, a repercussão da entrevista de Moro ao Roda Viva, da TV Cultura, incomodou o presidente, que teria se sentido traído. O programa, transmitido na segunda-feira, que bateu recorde em mais de um ano e já foi vista por mais de 1,5 milhão de pessoas no canal do programa no YouTube,.

No dia da entrevista, um dos ministros mais próximos a Bolsonaro, o general Augusto Heleno, tuitou que Moro havia sido submetido a uma tentativa de “constrangê-lo”, por uma bancada “mal intencionada”. O próprio Moro, no entanto, tuitou dizendo que a experiência foi positiva, e que as perguntas haviam sido duras, mas delicadas.

Dois dias depois, Bolsonaro volta a cogitar tirar da pasta de Moro a Segurança Pública, apesar de a área ter índices positivos de avaliação. Decreto assinado por Bolsonaro também retira de Moro a decisão sobre expulsão de estrangeiros do Brasil.

Parece ter incomodado Bolsonaro o fato de que Moro, mesmo dizendo que não contraria publicamente o presidente, delimitou a diferença em relação ao chefe em vários temas sensíveis, como relação com a imprensa, juiz de garantias e delações premiadas. O ministro também revelou ter aconselhado Bolsonaro a demitir o secretário de Cultura Roberto Alvim.

Moro tampouco foi assertivo quanto a seu futuro. Disse claramente que vislumbra vários caminhos para si e que pode fazer um “sabático” quando deixar o governo. Se insistir em esvaziar Moro por medo de tê-lo a sua sombra, Bolsonaro pode fornecer a justificativa que o ministro precisa para deixar o governo e voltar candidato em um ano ou dois.

A possível mudança na Segurança Pública não significa a saída completa de Moro do governo. Bolsonaro deixou claro que, caso decida recriar o Ministério da Segurança, o ex-juiz seguirá no comando da Justiça. Segundo o presidente, o convite para Moro integrar o governo, em 2018, foi feito antes de se pensar na ideia de formar um “superministério” para ele – composto por Justiça e Segurança Pública.

“Se for criado, aí o Moro fica na Justiça. É o que era inicialmente. Tanto é que, quando ele foi convidado, não existia ainda essa modulação de fundir (a Justiça) com o Ministério da Segurança”, destacou Bolsonaro. Segundo ele, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já indicou ser favorável à recriação da pasta. “O Rodrigo Maia é favorável à criação da Segurança”, disse. “Acredito que a Comissão de Segurança Pública (da Câmara) também seja favorável. Temos que ver como se comporta esse setor da sociedade para melhor decidir.”

Segundo aliados de Bolsonaro, o maior entrave para a retomada da pasta seria criar um desgaste público com Moro, o ministro mais popular do governo, acima até do próprio Bolsonaro. No ano passado, o presidente cogitou a recriação do Ministério da Segurança – mas enfrentou resistências justamente devido às críticas de que a medida poderia esvaziar a pasta de Moro.

Com informações do Estadão

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