Brasileiro que mora na China afirma que não há desespero na população

O professor universitário José Medeiros fala sobre o cotidiano da população chinesa e de suas impressões sobre a repercussão no Brasil do surto do novo Coronavirus

José Medeiros mora na China há 12 anos l Foto: Arquivo pessoal

Nascido na cidade de Touros, no Rio Grande do Norte, José Medeiros da Silva é professor na Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang, em Hangzhou, no Nordeste da China e está há catorze dias sem sair de casa. A região onde Medeiros mora está em quarentena devido ao surto de coronavírus e fica a 567 quilômetros da cidade Wuhan, capital da província de Hubei, o epicentro da doença.

Em toda a China já foram registrados até está quarta-feira (5) 24.447 casos confirmados, sendo 493 mortes, e milhões de pessoas estão confinadas em suas residências para ajudar a conter a propagação da doença. Em Hangzhou, um dos pontos turísticos mais conhecidos da região, o Lago Oeste, está esvaziado ao longo das últimas semanas. A província de Hubei, com uma população de 59 milhões de pessoas, está totalmente isolada, segundo. Apenas caminhões de alimentos e suprimentos médicos circulam na área.

Morando na China há 12 anos José Medeiros, que é também colunista do Portal Vermelho, integrou-se bem a vida do gigante asiático, é casado com a chinesa Ningning e conhece bem a vida do povo. Diante da crise, ele avalia que a China apresentou grande capacidade de gerenciamento. “Isso se reflete na forma responsável e sem desespero com que a população chinesa enfrenta, no dia a dia, a delicada situação”, comenta.

Como está a situação da região em que mora?

Nesses dias estou em Shaoxing, uma cidade que fica a uns 60 km de Hangzhou, capital da província de Zhejiang. Para se ter uma ideia, essa província possui mais de 55 milhões de habitantes. E Hangzhou (9,8 milhões de pessoas) tem uma população duas vezes maior do que a população que a do Rio Grande do Norte. Pelos dados mais recentes, essa província já identificou 800 casos, felizmente sem nenhum óbito. Em Hangzhou, temos 141 casos e em Shaoxing, 30. Vale ressaltar que agora o foco da ação do governo é evitar a propagação em território nacional. Por isso as medidas tão fortes, como fechamento de cidades, uma quarentena quase generalizada, etc.

José Medeiros e sua esposa Ningning em visita à casa do escritor Lu Xun, o pai da literatura moderna chinesa

Como é viver em quarentena? O que está fazendo para evitar o contágio?

Realmente, praticamente quase toda a China está em quarentena. O feriado do Ano Novo [25 de janeiro] foi estendido, assim como a volta às aulas. Essa quarentena voluntária é resultado de uma orientação do governo com uma percepção por parte da população da gravidade da situação. Aqui, já faz mais de uma semana que praticamente não saio de casa e assim estão a maioria dos chineses. E quando saem, procuram sair protegidos, com máscaras. Claro que isso é um incômodo, mas temos consciência de que é o procedimento necessário e a forma mais eficiente de se evitar o contágio. Nesse sentido, a colaboração da população está sendo essencial.

Como é para fazer compras? O comércio funciona?

Há 12 anos que vivo na China e tenho acompanhado o progresso material do país. Essa parte de compras e abastecimento já não é mais um problema. Você pode comprar tudo sem precisar sair de casa. Além do mais, o país tem uma capacidade de gerenciamento de crise impressionante. Isso, em parte, talvez explique a forma responsável e sem desespero com que a população enfrenta uma situação tão delicada como essa.

Em condomínio residencial de Shaoxing a população participa do combate ao virus l Foto: José Medeiros

Como vê o alarme global sobre a doença?

O alarme, no sentido de perceber a gravidade da situação, é importante, pois somente assim se poderá fazer um trabalho de prevenção adequado. No entanto, o alarmismo revela muito mais uma imaturidade e não ajuda em nada. O Brasil tem uma tendência ao alarmismo e isso é bom evitar.

Acompanha as informações sobre a chegada da doença ao Brasil?

Sim, preocupo-me muito com o meu país e estou sempre muito atento ao que se passa por aí. Não vejo motivos para desespero dos nossos conterrâneos. Mas sei que o desconhecido tende a gerar medo. O Brasil poderia estudar como a China está lidado com essa situação, isso poderia realmente servir para amadurecermos mais e nos preparar melhor para o enfrentamento de situações adversas.

Como está a relação dos brasileiros que moram na China com as representações diplomáticas brasileiras? Recebem informações?

O consulado do Brasil em Xangai, responsável pela área onde eu moro, tem mandado informações e pedido para que fizéssemos cadastro. Para se comunicar, eles usam um aplicativo chamado Wechat, uma espécie de Whatsapp, muito utilizado aqui na China. É isso. Agora é esperar para ver o desdobramento da situação. Ao meu ver, a prioridade número um do governo [chinês] é evitar que o vírus atinja outras cidades na dimensão que atingiu Wuhan. Nesse momento, só nos resta nos precaver e aguardar esse desdobramento.

Fonte: AgoraRN

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