China: eficiência contra coronavírus se deve a modelo econômico

Em um mundo onde as estruturas de poder impõem consenso em torno do liberalismo econômico, economia chinesa tem forte presença estatal

Geógrafo Elias Jabbour diz que China caminha para Nova Economia do Projetamento

A presença constante e significativa da China no noticiário geopolítico e econômico desafia as noções do senso-comum sobre as características que tornam os países relevantes no cenário global. Em um mundo onde as estruturas de poder impõem uma espécie de consenso em torno do liberalismo econômico, o gigante asiático sobrevive – e dá as cartas – a partir de um modelo de economia planificada e com forte intervenção estatal.

Recentemente, chamou a atenção a reação rápida e eficiente do país ao surto de coronavírus, cujos efeitos sobre a economia chinesa ainda são imprevisíveis. Em entrevista ao Vermelho, o geógrafo Elias Jabbour, autor dos livros China – Infra-estruturas e Crescimento Econômico; China Hoje – Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado e China: Socialismo e Desenvolvimento, sete décadas depois, comentou essa e outras questões atuais do país, como a guerra comercial com os Estados Unidos.

Segundo Jabbour, a trégua no embate entre os chineses e o país de Donald Trump, selada com a assinatura de um acordo comercial, é apenas aparente. “O problema não é comercial e, sim, tecnológico e geopolítico”, diz.

O pesquisador afirma ainda que a eficiência da China no enfrentamento ao coronavírus deve-se ao que ele chama de Nova Economia do Projetamento. Trata-se de uma economia baseada em grandes projetos que ele considera um variação qualitativa do socialismo. Elias Jabbour é professor adjunto da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas.

Confira a entrevista:

Por que a China se tornou alvo preferencial de Trump, ainda durante a campanha? 

Pelo fato de a China ter despontado não somente como um país com superávits comerciais com os EUA, e sim por estar próximo da fronteira tecnológica em setores sensíveis. Por outro lado, a crise financeira de 2008 teve impactos contraditórios com o mundo capitalista em transe e a China aproveitando a oportunidade criada pela crise para ampliar sua influência no mundo tendo como braço principal quase uma centena de empresas estatais e grandes bancos de desenvolvimento. O lançamento em 2013 do projeto “Um Cinturão, Uma Rota” coloca a China como a grande rival a ser batida. A transformação da China em uma potência industrial, financeira – com o Estado dotado de grandes empresas capazes de materializar as estratégias internas e externas do país – é fator que tornou intolerável aos EUA um mínimo de convivência.

Houve uma aparente distensão da guerra comercial entre China e EUA com o anúncio de um acordo, no qual a China se compromete a comprar mais de US$ 200 bilhões em produtos dos EUA ao longo de dois anos. Acredita que a tensão ficou para trás e o acordo será bem-sucedido? 

A distensão é somente aparente. O problema não é comercial e, sim, tecnológico e geopolítico. Trata-se de uma batalha que marcará as próximas décadas.

Como o acordo comercial entre China e EUA afeta as exportações brasileiras? 

Os chineses estão a comprar mais dos agricultores norte-americanos que dos brasileiros, fato. Mas a demanda chinesa não tende a se estabilizar e sim elevar-se, no mesmo ritmo de seu processo de urbanização.

Em novembro do ano passado, durante o encontro dos chefes de Estado do BRICs em Brasília, Bolsonaro se desculpou com o presidente chinês, Xi Jinping, pelas críticas à China feitas durante a campanha.  O discurso ideológico do governo, a subserviência aos EUA, atrapalharam as relações comerciais do Brasil com a China?

Não atrapalham. Os chineses tem noção de tempo histórico. Eles sabem que alienígenas como Bolsonaro aparecem e desaparecem rapidamente a cena.

A imprensa noticiou que a China tem a intenção de pedir que os EUA flexibilizem os termos do acordo comercial, em função das dificuldades que o país vem enfrentando com a epidemia de coronavírus. De que formas a epidemia pode afetar a China, do ponto de vista econômico e social? 

Ainda são incalculáveis os prejuízos ao país. Falam em queda de 1% no crescimento do PIB, não sei. Mas preferiria focar na capacidade de reação dos chineses, que demonstra processos que a economia, per se, não explica.

Ficamos surpreendidos com a construção de hospitais em 10, 12 dias para enfrentamento ao surto de coronavírus. De que forma o modelo de organização chinês viabiliza essa resposta tão rápida? 

Trata-se de um sistema onde o elemento estratégico são as chamadas “capacidades estatais” construídas ao longo das últimas décadas. Digo isso para lembrar que o elemento estratégico que indica a natureza de um sistema varia de acordo com o modo de produção (o escravo ao escravismo; a posse da terra ao feudalismo; o capital no capitalismo; a propriedade dos meios de produção estratégicos no “socialismo original”  e as “capacidades estatais” no socialismo de nível superior). Elenco aqui algumas dessas “capacidades estatais” uma centena de grandes conglomerados empresariais estatais, sistema financeiro estatal, solo urbano e rural estatais, capacidade de planejar intervenções rápidas sobre o território  e a existência de duas mega-instituições (o Partido Comunista e o Estado socialista) capazes de operar grandes ondas de inovações institucionais necessárias à continuidade do processo de desenvolvimento entre outros. Acredito que os avanços em matéria de planificação econômica acrescido de todo esse aparato produtivo e financeiro está operando uma mudança qualitativa no modo de produção dominante àquela formação econômico-social. Esta mudança qualitativa está levando ao surgimento do que eu chamo de “Nova Economia do Projetamento”, ou seja, uma economia não mais totalmente operacional via mercado, mas sim via “grandes projetos”. Trata-se de uma variação qualitativa do socialismo. Uma etapa superior, por assim dizer.

O senhor afirma que há um “socialismo de mercado” na China, caracterizado pela associação entre economia monetária, keynesianismo e planificação soviética. No entanto, há contradições, como jornadas de trabalho excessivas, poucos dias de férias, inexistência de salário mínimo. Quais as perspectivas para a lei trabalhista na China? 

Tudo isso seria verdade até meados da década de 1990. Atualmente, a China é o país do mundo onde mais benefícios tem sido gerados à classe trabalhadora no mundo. Enquanto os direitos sociais e trabalhistas estão em decadência no ocidente, na China é o oposto. Existem problemas? Muitos, principalmente no setor privado da economia. Por outro lado, sistemas regionais de salário-mínimo foram implantados. Os salários médios no setor industrial triplicaram de tamanho desde 2010 e os salários crescem acima da produtividade desde o citado ano. Existe ainda uma longa estrada a percorrer neste quesito. Mas está sendo percorrida em sentido oposto ao do resto do mundo.

Como é o acesso à saúde e à educação na China? Há um sistema universal e gratuito?

Após o colapso do sistema danwei, que garantia todos os itens de seguridade social no âmbito das empresas, na segunda metade da década de 1990, as pressões sociais e a necessidade de mudança de dinâmica de acumulação interna do investimento ao consumo têm levado a governança chinesa a construir um amplo sistema de seguridade social e mais acesso aos sistemas públicos de saúde e educação. Os avanços são notáveis com, por exemplo, a utilização de sistemas operacionais mediados por Inteligência Artificial para maximizar a capacidade de atendimento rápido. A atual crise do coronavírus demonstra avanços significativos dos chineses em matéria de biotecnologia e o programa HealthCare 2030 é o maior esforço de construção de um sistema público de saúde da história da humanidade. 

O que podemos aprender com os acertos e erros da China em seu modelo econômico e social? 

Devemos aprender que, em um mundo condicionado pela formação de grandes blocos nacionais de capitais, onde a luta é pela afirmação, por parte de cada nação, de seu bloco de capitais em relação aos outros, somente países capazes de formar imensas capacidades produtivas e financeiras poderão sobreviver. Ao Brasil falta um grande projeto nacional. Às esquerdas, falta uma narrativa política e uma boa teoria econômica.

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2 comentários para "China: eficiência contra coronavírus se deve a modelo econômico"

  1. Pedro disse:

    Que bom ler entrevistas como esta do Elias Jabbour.

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