Chuva recorde e gestão tucana deixam SP sob alagamento e caos

Principal causa da tragédia não foi a chuva – mas, sim, as precárias políticas antienchente do PSDB nos governos estadual (gestão João Doria) e municipal (gestão Bruno Covas)

A combinação da pior chuva registrada em São Paulo em 37 anos com o abandono das políticas antienchentes deixou a capital paulista em um cenário caótico desde a madrugada desta segunda-feira (10). Com o transbordamento das marginais do Tietê e do Pinheiros, o registro de dezenas de pontos de alagamento e desabamentos em áreas de risco, a cidade parou.

De acordo com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), foi é a pior chuva para um mês de fevereiro em de São Paulo desde 1983. “Em três horas, choveu metade do que estava previsto para todo o mês. O desastre teria sido maior, não fosse o trabalho preventivo que a prefeitura fez ao longo dos últimos meses”, tentou esquivar-se o prefeito paulistano, Bruno Covas (PSDB).

A principal causa da tragédia não foi a chuva – mas, sim, as precárias políticas antienchente do PSDB nos governos estadual (gestão João Doria) e municipal (gestão Bruno Covas). Quando Doria foi prefeito de São Paulo, os recursos originários de operações de créditos foram superestimados. Em 2018, esperava-se gastar em obras R$ 46 milhões dessa fonte. Porém, não houve desembolsos. Em 2019, já sob Covas, a Prefeitura tinha previsão de gastar R$ 133 milhões obtidos por meio desses empréstimos, mas investiu R$ 171 mil.

Obras de melhorias nos córregos tendem a evitar o transbordamento de cursos d’água no bairro onde eles se encontram, mas aceleram a velocidade com que a água corre para os Rios Tietê e Pinheiros. Para especialistas, é preciso investimento constante na manutenção da calha desses rios, com a retirada de lodo e lama para evitar o assoreamento.

Segundo o governo paulista, em 2019 foram gastos R$ 49 milhões para a retirada de 400 mil toneladas de material do Tietê. O dado é contestado pela oposição na Assembleia. Levantamento da bancada do PT no Sistema de Gerenciamento das Execuções Orçamentárias mostra que, no ano passado, foram gastos apenas R$ 10,2 milhões nessa área.

Questionado, o governo estadual apresentou novos dados. Informou que, de 2016 a 2018, houve o investimento de R$ 217,1 milhões em obras de desassoreamento no Tietê e a retirada de 3,9 milhões de metros cúbicos de sedimentos. Vale lembrar que, em 2011, a gestão Geraldo Alckmin (PSDB) chegou a manter uma placa comemorando o fim dos transbordamentos do Tietê. Naquele ano, foram retiradas 2,1 milhões de toneladas do rio, segundo anúncio na época.

Agora, o caos foi além das marginais. Segundo Bruno Covas, 43 escolas municipais tiveram as aulas canceladas por causa das chuvas e outras 41 unidades básicas de saúde deixaram de funcionar em virtude de alagamentos. O governador João Doria, em viagem a Dubai, não se pronunciou.

Da meia-noite até as 16 horas de segunda, o Corpo de Bombeiros havia atendido 915 chamados sobre enchentes, 163 para auxílio em desabamentos e desmoronamentos e 170 ocorrências de quedas de árvores. A CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) suspendeu o rodízio municipal de veículos devido a problemas com o transporte público. Linhas do Metrô e da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) tiveram a operação prejudicada ao longo do dia, assim como a circulação de ônibus também foi prejudicada.

De acordo com o Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo, o nível do Rio Pinheiros é o maior dos últimos 15 anos. A previsão do tempo indica que os temporais só devem se afastar do território paulistano a partir de quarta-feira (12).

Prejuízos

Os prejuízos decorrentes do caos podem ultrapassar os R$ 140 milhões. Lojas e shoppings fecharam porque funcionários não conseguiram ir trabalhar, empresários perderam estoques e comércios tiveram negócios reduzidos por falta de clientes. Algumas agências bancárias permaneceram fechadas o dia todo. O movimento nos restaurantes caiu pela metade.

A Fecomercio (Federação do Comércio do Estado de São Paulo) estima um prejuízo de R$ 110 milhões nas vendas do comércio varejistas na região metropolitana – 0,4% do faturamento total de fevereiro. O cálculo considera compras por impulso (feitas no dia a dia sem planejamento prévio) que deixaram de ser realizadas por falta de consumidores e levam em conta de supermercados a farmácias, de lojas de vestuário a combustíveis.

“Quem faz a compra do mês ou se programou para comprar um eletrodoméstico fará isso nos próximos dias. Mas quem compraria por impulso se estivesse passando por alguma loja na volta do almoço, por exemplo, não comprará mais”, disse o assessor econômico da federação, Guilherme Dietze.

Os impactos das chuvas somam-se ao movimento já mais fraco de fevereiro, com menos dias úteis e Carnaval. “Será difícil para que os lojistas consigam diluir a perda. Há um prejuízo muito grande para o comércio que vai além das vendas não feitas”, afirma o economista da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), Marcel Solimeo.

Alguns shoppings fecharam mais cedo, como o West Plaza (zona oeste de São Paulo) e o Shopping D (zona norte), que encerrou as atividades às 18 horas. “A medida tem como principal objetivo zelar pela segurança e pelo conforto de colaboradores, clientes e lojistas”, informou o Shopping D. Outros, como Villa Lobos (zona oeste) e o Pátio Higienópolis (região central), nem sequer abriram, disse a Abrasce (associação de shoppings).

A Alshop (associação de lojistas de shoppings) afirmou que alguns estabelecimentos ficaram o dia todo sem energia elétrica, além de algumas lojas terem sofrido perda de mercadorias. Tradicionais centros de compra do centro de São Paulo, o Brás, o Bom Retiro e a Rua 25 de Março sentiram o impacto das chuvas, seja pela ausência de clientes, seja pela falta de funcionários que não conseguiram chegar ao trabalho.

“Muitas lojas fecharam mais cedo por causa do fraco movimento. As baixas foram bem grandes”, afirmou vice-presidente da CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas) do Bom Retiro, Nelson Tranquez Junior. “O mês é curto, e venda perdida não se recupera. Mas amanhã é um novo dia”, afirma o gerente da loja matriz da Armarinhos Fernando, Ondamar Ferreira, na 25 de Março, que espera um movimento melhor nesta terça (11).

Para Dietze, da Fecomercio, o prejuízo do setor pode ser até maior do que os R$ 110 milhões quando somado às possíveis perdas de equipamentos e produtos. Também houve falta de abastecimento de produtos alimentícios de entrega diária, entre outros transtornos, mas a associação não registrou incidente grave nos estabelecimentos comerciais.

“Essa perda não deve ser recuperada tão rápido, mas, pela previsão do tempo que estamos vendo, a expectativa é que não tenhamos mais chuvas tão longas. O que vai determinar o andamento do comércio é o escoamento da água. Enquanto tivermos limitações de transporte, continuaremos a ter perda no varejo” Guilherme Dietze, assessor da FecomercioSP.

A água da chuva tomou a Ceagesp, maior central de abastecimento de alimentos da América Latina, causando perda de alimentos que poderá se reverter em falta de produtos nos próximos dias, com possível impacto inflacionário. O Sincomat (Sindicato do Comércio Atacadista de Hortifrutigranjeiros e Pescados) diz que praticamente toda a mercadoria que estava na Ceagesp deve ser perdida.

“O Pinheiros entrou na Ceasa, imagina o quanto de sujeira não tinha lá. Nós não podemos operar nessas condições. Teremos que fazer a lavagem completa do entreposto”, afirmou Cláudio Furquim, presidente do Sincaesp (sindicato dos comerciantes que atuam na Ceagesp). Nos cálculos de Furquim, o volume de mercadorias que circulam às segundas-feiras pelo local tem valor por volta de R$ 25 milhões a R$ 30 milhões.

Além disso, a Ceagesp informou que as feiras de pescados e flores não iria funcionar na madrugada desta terça. Na avaliação de Furquim, se a chuva amenizar, será possível limpar o entreposto nesta terça, para tentar trabalhar na quarta-feira (12). Mas disse acreditar que o trabalho só deve se regularizar na madrugada de quinta-feira (13).

A segunda-feira, porém, é o dia da semana em que há o maior fluxo de mercadorias na Ceagesp – é, para a maioria dos feirantes, o dia de abastecimento para a semana. Transitam aproximadamente 16 mil caminhões, transportando algo em torno de 14 mil toneladas de produtos.

Nem tudo foi perdido, porque, quando as águas começaram a invadir o local os comerciantes conseguiram salvar parte da mercadoria e caminhoneiros, ao perceberem a situação, deixaram a Ceasa. Mas, segundo Furquim, todas os produtos que tiveram contato com a água serão descartados, inclusive os que estavam em câmaras frias.

Guilherme Moreira, coordenador do IPC (Índice de Preços ao Consumidor) da Fipe, afirmou que haverá impacto nos preços, mas que isso deve ser diluído ao longo do tempo. Na sua avaliação, o reflexo da forte chuva virá mais pelas produções afetadas do que pelo impacto na Ceagesp.

“Ainda é difícil dizer o impacto que isso vai ter, mas provavelmente haverá em produtos frescos. Não tanto pela Ceagesp [inundada], porque você não perdeu a safra toda ali. A preocupação é mais pelas produções.” Segundo ele, todo começo de ano o índice de preços é impactado por algum produto que sofreu com as chuvas.

Com informações da Folha de S.Paulo e do UOL

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