“Falar de democracia virou comunismo”, diz bispo crítico a Bolsonaro

Steiner lembra a máxima de dom Hélder Câmara: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”

O novo arcebispo metropolitano de Manaus, Dom Leonardo Steiner, acaba de ser transferido à Amazônia após oito anos como secretário-geral – o cargo de mais destaque – da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Sua chegada à região é vista como um contraponto à apatia que tomou conta da CNBB desde as últimas eleições, em maio. Embora a temida guinada à direita não tenha se concretizado, a conferência tem moderado o tom crítico ao governo. Prevaleceu nos bastidores a tese de que uma reação aguda daria ao bolsonarismo um “inimigo ideal”.

Logo na missa que o consagrou no novo posto, Steiner fez ataques duros e diretos à gestão Jair Bolsonaro. “Estamos tentando governar o País na base de notícias falsas, da agressividade, da violência. Isso não constrói um Brasil”, afirmou. Foi a senha para quem duvidada de que o religioso catarinense manteria neste novo capítulo o tom combativo que marcou sua trajetória até aqui.

De formação franciscana, Steiner é discípulo de Dom Pedro Casaldáliga, reconhecido como “bispo do povo”. Também mantém proximidade de dom Claudio Hummes, o cardeal brasileiro que mais influencia o papa Francisco. Fora da cúpula da CNBB, pediu à Santa Sé transferência para a Amazônia – é o quarto franciscano que, desde o Sínodo, assumiu dioceses na região.

Em resposta à pecha de “comunista” que tentam colar na CNBB, no papa e no próprio Steiner, sua resposta é igualmente firme. Ele lembra uma conhecida máxima atribuída a dom Hélder Câmara (1909-1999): “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

No fundo, diz o bispo, a confusão é proposital. “Hoje virou moda agredir as pessoas com ‘comunismo’, chamar de ‘comunista’. Falar de democracia virou comunismo”, afirma. “Fala-se tanto em ideologia e não se percebe que se fala a partir de uma ideologia. A ideologia que não consegue dialogar com outra torna-se devagar – uma espécie de ditadura do pensar e conviver”.

Sobre a experiência à frente da CNBB, o bispo diz ter encontrado “muitas pessoas a serviço dos pobres, (que) discutem democracia e justiça, solidariedade e fraternidade (…). A grande maioria não leu Marx. É melhor tentar viver o Evangelho, a vida de Jesus, que perder tempo com essas afirmações”.

Com informações da CartaCapital

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