Há 30 anos, quando partiu, Prestes estava preocupado com a democracia

É um exercício interessante pensar como Prestes veria o Brasil atual e o mundo de uma forma em geral.

Prestes, um líder histórico do povo brasileiro l Foto: Arquivo

Hoje, 7 de março, registramos a passagem de mais um aniversário de falecimento de Luiz Carlos Prestes. Lá se vão três décadas. Ele partiu em 1990, logo após a realização da primeira eleição direta por voto popular pós-regime militar de 21 anos. Prestes deixou esse mundo e o Brasil lúcido e preocupado como sempre, crítico com os limites da Constituinte de 1988, decepcionado com a eleição de Collor em 1989, mas de certa forma esperançoso com o processo de redemocratização no Brasil. Chegou a ver pela televisão a derrubada do Muro de Berlim, mas partiu antes da derrocada da União Soviética.

Muitas coisas mudaram ao longo das últimas três décadas, talvez ele se espantasse com o desenvolvimento da tecnologia que nos trouxe para uma era digital e virtual de vivência da política. Ouso imaginar, no entanto, que ele diria que os problemas fundamentais da desigualdade e injustiça social não se alteraram, mudou a forma de denunciar e interagir via redes. É um exercício interessante pensar como Prestes veria o Brasil atual e o mundo de uma forma em geral. Infelizmente o broto de democracia que ele e outros plantaram naqueles idos da década de 80 do século passado não se tornou a árvore frondosa que muitos sonharam e imaginaram.

Tivemos entre 1990 e 2015 uns vinte e cinco anos de ensaio democrático, como talvez ele diria. Mas apesar do constante e batido discurso de que temos “instituições fortes”, o que se presencia é uma retomada da curva ascendente do autoritarismo das elites e que de forma contínua vem sendo praticado pelo comitê executivo do Estado, tomado pela família Bolsonaro, aliado às forças militares e para-policiais nos estados. Enquanto escrevo, por exemplo, vejo a notícia de que o MEC lançou um edital para compra de livros didáticos tirando a exigência dos mesmos se aterem a “princípios democráticos”. Dia a dia nossa democracia é atacada e enfraquecida.

A democracia era uma das grandes preocupações de Prestes na véspera de seu falecimento. Revendo o programa “Roda Viva” realizado com ele em 1986, ouço as seguintes reflexões sobre o processo constituinte que se iniciaria no ano seguinte: “o essencial é que houvesse democracia. Para a massa, para o povo. Que fosse realmente democrático. (…) E essa democracia é que precisávamos legislar sobre ela, para que pelo menos a Constituição assegurasse essa liberdade. Isso é que era fundamental”. Aprovada a Constituição de 88, Prestes se manteria crítico ao seu resultado em termos de garantias democráticas.

Na esteira de sua preocupação com a democracia, vinha uma reflexão sobre a falta de lideranças políticas, decorrente dos limites ao exercício da luta política. “O povo brasileiro, o que há é falta de líderes. Nesses 21 anos se formou um líder sindical, que é o Lula. Mas, os líderes políticos são os mesmos de antes de 64. É o Ulysses Guimarães, é Montoro, é Brizola, são todos os mesmos. Qual é o político novo no Brasil, que tenha surgido nestes últimos 21 anos? Não temos ainda. Porque não havendo democracia, não havendo debate, não havendo luta política, não podem surgir líderes.”

Outro ponto bem interessante da entrevista concedida por ele e que dialoga com a nossa atualidade brasileira encontrei ao ouvi-lo dizer: “em qualquer democracia burguesa, as Forças Armadas são um instrumento do Estado. No Brasil, as Forças Armadas é que ditam ao Estado o que deve fazer. E continua a mesma coisa. De maneira que não houve nenhuma alteração profunda (ele falava da redemocratização). Houve alteração, naturalmente, em elementos táticos. Hoje já podemos chamar os generais de torturadores e eles ficam calados. Porque, do ponto de vista tático, para eles é melhor calar, realmente.” Essa reflexão é espantosamente atual, 30 e poucos anos depois.

A mensagem que extraio dessa releitura e da visita ao passado de um Brasil que tentava soerguer sua democracia e na qual líderes como Prestes, Brizola, Amazonas e outros ainda estavam vivos é que somente uma elevação da consciência dos riscos que corremos hoje poderá nos lançar a um novo patamar de luta. Como dizíamos nos dias mais duros do golpe contra Dilma, “não, não está tudo bem”. Será preciso muita força, muito estudo (como diria meu avô), amplitude e capacidade de organização popular para reconquistarmos a iniciativa política na reconquista democrática.

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