Como o coronavírus puxou o tapete de Bolsonaro, por José Miguel Wisnik

Pandemia põe em xeque o negacionismo contumaz com que o presidente busca assentar as bases de seu governo

As primeiras páginas do novo livro de Ruy Castro, Metrópole à Beira-Mar – O Rio Moderno dos Anos 20, contêm um relato impressionante sobre a gripe espanhola, epidemia mundial que assolou o Rio de Janeiro em 1918. Diferentemente do que se sabe da pandemia do novo coronavírus, a altíssima letalidade da gripe espanhola atingia crianças de menos de 5 anos e adultos entre 20 e 40, além dos acima de 70.

Em pouco tempo, a explosão de mortes em massa, atingindo todo o espectro social, ultrapassou a capacidade não só dos hospitais como das casas funerárias e dos cemitérios. A catástrofe é narrada por Ruy Castro com uma precisão detalhista e vivaz que surpreende e horroriza. Não obstante – e no velho estilo folião que então nascia para o novo século –, “o Carnaval de 1919 seria o da revanche” de todos os que sobreviveram, “a grande desforra contra a peste que quase dizimara a cidade”.

A pandemia atual, embora menos brutalmente mortífera, é vivida em escala muito maior. Como diz a canção Parabolicamará, de Gilberto Gil, “antes mundo era pequeno / porque Terra era grande / hoje mundo é muito grande / porque Terra é pequena”. Os que sabemos que a Terra é pequena e redonda acompanhamos em tempo quase real a onda viral que se espalha pelo mundo grande – e podemos ter uma espécie de macro consciência dos efeitos em escala micro do vírus que vem em nossa direção.

Essa consciência não se restringe ao alcance local imediato, mas acompanha a curva virtual dos acontecimentos, avalia as consequências das medidas adotadas ou não em cada país, equaciona as incertezas, que são muitas. Mais que isso, antecipa estratégias que visem impedir a implosão dos sistemas de saúde, o descontrole e o aumento exponencial das mortes, mesmo que estas venham em meio a resfriados aparentemente sem maiores consequências para muitos.

Como se sabe, o caráter mais traiçoeiro da doença está em que ela parece atacar menos, em princípio, cada indivíduo portador do que, no final das contas, as estruturas de atendimento disponíveis e, com isso, uma massa enorme de atingidos com a qual todos estão comprometidos, como alvos ou transmissores em potencial. Já os que acham, literalmente ou não, a Terra e a realidade planas, achatando os fatos à sua medida, são incapazes de ler a curva dos acontecimentos e encarar as suas consequências.

Ao desqualificar a realidade da pandemia, no domingo passado (15), isolando-se pateticamente dos governantes do mundo – inclusive de seus aliados e seu modelo – e afrontando o País, junto a seus adeptos, o presidente da República somou mais um negacionismo à sua coleção: não há qualquer sinal de mudança climática, o nazismo não é de direita, o coronavírus não tem gravidade digna de atenção.

Dar atenção ao coronavírus é parar a economia, argumenta Bolsonaro, como se a realidade do vírus pudesse ser cancelada por essa constatação (ele foi explícito, nesse ponto, que quem seria atingido pela tomada de pé na realidade seriam os governos e, em última análise, o seu). O fato é que o vírus exige pensar coletivamente e com mais de um neurônio: a questão é sanitária, econômica, política e humana em toda extensão, inclusive espiritual – faz parar o mundo, nesse momento, como nada parecia conseguir, e nos leva a pensar, querendo-o ou não, no que estamos fazendo aqui. Mais que tudo, no entanto, é uma tragédia social que se anuncia.

Ao negar afrontosamente a doença, Bolsonaro segue um padrão que lhe é inerente. Surpreende que haja ainda quem se surpreenda com isso. Pois, se ele é o negacionista contumaz, muitos são os que denegam, isto é, recusam-se a ver, até aqui, aquilo que teriam todos os elementos para saber: que Bolsonaro tem como marca performática implodir ostensivamente o princípio da responsabilidade.

Ser responsável significa, na raiz da palavra, responder pelos seus atos e suas falas. Sustenta-se o próprio ato de fala quando, chamados à responsabilidade, demonstramos categoricamente com provas aquilo que afirmamos. Seria ocioso elencar aqui toda a lista de situações em que, vocalizando o regime da chamada pós-verdade que preside as fake news, ele ostenta arbitrariamente seus conteúdos desconhecendo solenemente qualquer chamado à comprovação.

Recentemente, afirmou que tem provas de que o resultado do primeiro turno das eleições que venceu foi fraudado. Como sempre, declara ter provas que nunca mostra e nunca submete a qualquer escrutínio. Negou os dados do Inpe sobre o desmatamento da Amazônia sem nunca apresentar outros. Repetiu, lambuzando-se num chiste sexista, a calúnia de outro caluniador sobre a jornalista Patrícia Campos Mello. Diante da infâmia, alguns concederam que se tratava de uma “grosseria”; grosseria, no entanto, foi o que ele disse de Brigitte Macron – no caso de Patrícia, trata-se de um crime.

Falou também que o pai do presidente da OAB não foi morto pelo regime militar, mas no contexto de outra circunstância suspeita que ele deixa aberta como insinuação, sem oferecer nenhum dado esclarecedor ou comprobatório de sua versão (“se quiser saber como é que o pai dele desapareceu, conto pra ele”, disse, sem contar coisa nenhuma, mesmo se interpelado a fazê-lo).

O coronavírus teve o poder de levá-lo a usar a palavra “responsabilidade”, mas no sentido sintomaticamente oposto, isto é, de que ele só responde a si mesmo: “Se eu me contaminei, isso é responsabilidade minha, ninguém tem nada a ver com isso”. É justamente esse trânsito fácil pela zona da irresponsabilidade que vigorou, até aqui, sem o contraste efetivo das instituições ou dos opositores – perplexos, imobilizados ou patinando sem traquejo no manejo da pós-verdade.

Pois resulta anódino argumentar que suas afirmações são inconsequentes e literalmente irresponsáveis: isso afetaria quem se pautasse minimamente pelo princípio da responsabilidade como condição de funcionamento da vida pública, e considerasse que afirmações litigiosas estão sujeitas a um depois em que são postas à prova. Não é, no entanto, o caso do presidente nem de seus apoiadores engajados.

Se o depois é uma instância da esfera científica e da esfera jurídica – que se supõe submeter os fatos e as versões ao crivo da pesquisa, do exame, do levantamento e cotejo das provas, da construção de previsões –, a mente de Bolsonaro não dá sinal de que nela caiba alguma capacidade de retrospecto ou de prospecção. Na coletiva de quarta-feira (18), afirmou que já vencemos momentos mais difíceis do que o atual.

Seria revelador sobre a sua visão histórica, caso ele respondesse pelo que diz, se explicasse a que momentos se refere. O universo das fake news e da pós-verdade, não por acaso, cancela a ciência e afronta a ordem jurídica, acuando-as. Acoplado a ele, Bolsonaro pretende viver num estado de instantaneidade virulenta e sem depois (que não comporta nem admite, por isso mesmo, nenhum projeto que não seja o do atropelamento das instituições).

Eis que parece ter chegado um antagonista à altura desse estado de alucinação continuada, talvez o único capaz de puxar o tapete discursivo em que o presidente se move, e deslocar em alguma medida a hipnose de massas sobre a qual ele se construiu: chama-se real. Antes de dar nome à moeda, o real é o poder da realidade quando envolve a todos de maneira incontornável. Real é aquilo que não dá para não ver, mesmo que seja invisível, como um vírus.

Publicado originalmente na Ilustríssima

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