Coronavírus: cuide de quem cuida de você

Mulheres são maioria absoluta no emprego doméstico, sem proteção. Boa parte delas reside em aglomerados subnormais, onde as condições de vida, saneamento e abastecimento de água são precárias

A epidemia do coronavírus trouxe ao Brasil mais do que a doença em si e suas graves consequências sanitárias e econômicas – cuja extensão ainda não é totalmente previsível. Temos dito que o corona nos impôs a necessidade de novas atitudes como sociedade. É extremamente urgente que exercitemos nossa solidariedade com o próximo, não apenas com a nossa família e os amigos.

Nessa situação dramática, algumas mazelas do Brasil vêm à tona, revelando, por um lado, a necessidade de atuação firme das esferas de poder do Estado brasileiro e, por outro, a importância de cada cidadã ou cidadão fazer a sua parte nesse esforço coletivo para minimizar os efeitos críticos. Nos referimos às pessoas mais vulneráveis, aquelas de renda mais baixa ou sem nenhum rendimento fixo, que exercem atividades informais, precárias, esporádicas.

Há milhões de trabalhadores brasileiros na chamada “uberização”, ou seja, vivendo sob a fragilização dos vínculos empregatícios em curso no País ao longo dos últimos anos. Essas pessoas não têm carteira assinada, não têm benefícios previdenciários, não têm férias, nada. Elas dependem unicamente do seu trabalho diário para conseguir o sustento da família, comprar medicamentos, quitar aluguel e todas as demais despesas.

Milhões são mulheres. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) calcula que havia mais de 6 milhões de pessoas trabalhando como domésticas em 2018, sendo mais de 4 milhões sem carteira assinada. Ou seja, sem qualquer amparo trabalhista. E as mulheres são maioria absoluta nessa categoria de trabalhadores sem proteção; boa parte delas reside em aglomerados subnormais (favelas, grotas, ocupações, palafitas), onde as condições de vida, saneamento e abastecimento de água são precárias.

Diante da quarentena que restringe a circulação de pessoas, elas estão impedidas de ir ao trabalho. Como irão pagar suas contas? Como vão comprar comida? Como vão comprar álcool em gel, água e sabonete na quantidade necessária à prevenção?

Felizmente, muitos empregadores estão sensibilizados e decidiram pagar os dias em que as diaristas e mensalistas não poderão comparecer ao trabalho. Há várias campanhas nas redes sociais incentivando essa atitude. Mas, lamentavelmente, há uma parcela de patrões que decidiu simplesmente dispensar as domésticas como se fossem um objeto que possa ser readquirido quando a crise for contida.

Essa atitude é indigna da maioria dos brasileiros. Somos um povo com senso de justiça social, acostumado a se solidarizar com as pessoas mais necessitadas, a fazer ações em prol da coletividade em momentos de tragédia. Esta é a hora de reforçar esse traço da nossa sociedade.

Paguemos as nossas diaristas ou mensalistas durante esse período da crise! Fiquemos em contato com elas para saber se estão seguras. Conversemos com os amigos, familiares e vizinhos para que façam o mesmo.

As mulheres são a maioria da população e quase sempre as que cuidam das crianças e dos idosos, as que se preocupam com o sustento da família, as que têm os salários mais baixos e os empregos mais precários. Nossa união em favor do bem-estar delas – e de todos – nestes meses da tragédia do vírus é muito importante para atravessarmos esta fase tão triste da história da humanidade.

Todo apoio ao manifesto “Pela Vida das Nossas Mães”, lançado por filhas e filhos de empregadas e empregados domésticos e diaristas para pedir proteção a esses trabalhadores e suas famílias. O manifesto reivindica dispensa remunerada para cumprir o isolamento social, adiantamento das férias e prevenção a situações de risco para aquelas pessoas que residem no mesmo local onde trabalham.

Se você quiser apoiar a campanha, veja neste link o manifesto, onde também há um abaixo-assinado endereçado ao poder público e empregadores em geral.

Publicado originalmente no Viomundo

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