Deputados criticam lobby de Bolsonaro para uso de cloroquina

Em novo pronunciamento em cadeia nacional, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender uso do medicamento para combate ao coronavírus, mesmo sem evidência científica sobre sua eficácia. Deputados do PCdoB alertam que fala foi “criminosa”.

Em novo pronunciamento em cadeia nacional do presidente Jair Bolsonaro feito na quarta-feira (8) voltou a defender o uso da hidroxicloroquina no tratamento do coronavírus. A eficácia do medicamento ainda não foi comprovada cientificamente e a recomendação de seu uso indiscriminadamente foi criticada pelos deputados do PCdoB.

Para a deputada Jandira Feghali (RJ), que é médica de formação, Bolsonaro foi “altamente irresponsável” em fazer propaganda da cloriquina em cadeia nacional. “Milhares de pacientes de lúpus, artrite e outras doenças serão prejudicados na correria pelo fármaco como solução. A comprovação científica da cloroquina não existe e seu uso indiscriminado pode causar arritmia e outros efeitos colaterais. Bolsonaro fez uma fala criminosa, incitando a população a usar medicamento para doença sem coprovação”, alertou a parlamentar.

A hidroxicloroquina é um medicamento utilizado no Brasil desde os anos 1950 e tem indicação para tratamento de doenças como artrite reumatóide, lúpus e malária. Ela vem sendo usada de forma experimental em outros países, apesar de não existirem testes clínicos suficientes para garantir que ela seja eficaz ou segura no tratamento da Covid-19. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a droga deve ser usada com muito cuidado, pois pode ser letal em algumas circunstâncias.

A líder do PCdoB na Câmara, Perpétua Almeida (AC), usou sua conta no Twitter para criticar o incentivo de Bolsonaro ao uso do medicamento. “A gente já sabe, presidente, que a cloroquina é um remédio antigo e agora está em estudo para ser usada contra o Covid-19. O que não entendemos é por que o senhor, que não é médico, está “receitando-a” em cadeia nacional, incentivando as pessoas à automedicação, colocando vidas em risco?”, questionou.

A deputada Alice Portugal (BA) foi na mesma linha crítica e condenou a fala do presidente, que classificou de irresponsável. “Quem prescreve sem CRM pode estar em exercício ilegal da medicina. Que suprema irresponsabilidade! Um medicamento em teste, uma doença sem vacina. Por que provocar uma expectativa sem base científica? Mais um pronunciamento imprudente do presidente, que orienta a população a usar medicamentos sem comprovação e minimiza a importância do isolamento”, destacou.

Já o deputado Orlando Silva (SP) afirmou que Bolsonaro “contraria todas as práticas da ciência para fazer politicagem com um remédio”. “Bolsonaro fez um pronunciamento para vender hidroxicloroquina em qualquer farmácia, boteco ou armazém de secos e molhados. É um irresponsável”, afirmou.

O deputado Márcio Jerry (MA) foi mais ácido em seu comentário. Segundo ele, Bolsonaro quer posar de infectologista “e assim mais parece um vírus que infecta o país numa hora em que todos precisam de um remédio: o distanciamento social”.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso da cloroquina combinado com o antibiótico azitromicina é uma das quatro combinações de medicamentos questão em fase de testes em 74 países e cujos resultados são monitorados pela organização. Apesar disso, a organização afirma que “até agora, nenhum produto farmacêutico se mostrou seguro e eficaz para tratar a Covid-19”.

Atualmente, o uso no Brasil é autorizado pelo Ministério da Saúde somente em pacientes em estado crítico e também naqueles em estado moderado já internados nos hospitais, desde que médico e paciente concordem com o uso. Por isso, os médicos pedem que a população não se automedique com esses ou outros remédios.

Assim como nos outros pronunciamentos, a fala de Bolsonaro foi acompanhada de “panelaços” em protesto contra o governo. Além da cloroquina, o presidente voltou a frisar sua preocupação com a economia e criticou o isolamento social e fechamento do comércio. Bolsonaro disse temer os efeitos prejudiciais do fechamento do comércio e do distanciamento social imposto em vários estados brasileiros, minimizando o número de mortes que a doença já gerou no país até o momento.

“Sempre afirmei que tínhamos dois problemas a resolver: o vírus e o desemprego. Que deveriam ser tratados simultaneamente. Respeito a autonomia dos governadores e prefeitos. Muitas medidas, de forma restritiva ou não, são de responsabilidade exclusiva dos mesmos. O governo federal não foi consultado sobre sua amplitude ou duração. Espero que, brevemente, saiamos juntos e mais fortes, para que possamos melhor desenvolver o nosso país”, disse Bolsonaro.

Para o deputado Daniel Almeida (BA), este foi mais um pronunciamento “vazio, cheio de senso comum, desrespeitando as autoridades de saúde”.

E a deputada Professora Marcivânia (AP) lembrou que mais do a prescrição médica do presidente, a população quer saber do pagamento da “renda básica emergencial, da proteção do emprego e do apoio aos hospitais, da compra de respiradores”.

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