A possível volta à civilidade, por Marcus Seixas

Forças democráticas precisam se unir e se alinhar para frear e enfrentar o obscurantismo, o ódio e o pensamento antidemocrático

É correta, sim, a avaliação de que todos os fascistas votaram em Bolsonaro, mas, que nem todas as pessoas que votaram em Bolsonaro são fascistas, embora, claro, uma análise bem mais acurada a respeito do que foi a vitória eleitoral de Bolsonaro seja absolutamente necessária.

Em menos de um ano de governo Bolsonaro, já era possível identificar um número razoável de pessoas arrependidas com o voto no presidente eleito, diante do claro despreparo de Bolsonaro para o exercício do cargo, ausência de um mínimo plano efetivo de governo, o não abandono à campanha eleitoral, além da insistente fomentação para o fanatismo de seus seguidores e para a discórdia, gerando um consequente e perigoso ambiente de tensa divisão do país.

Mesmo depois de Bolsonaro eleito, a indústria da fake news não baixou a guarda – e mantém sua agenda até os dias de hoje, sem qualquer pudor, seja por ações, pasmem, do próprio presidente da República e de seus familiares, além de sua legião fanática e insana de seguidores. Boa parte desse arsenal perverso tem sido veiculada por robôs que, até mesmo de fora do território nacional, disseminam conteúdos.

Quem também não deixa de manter sua agenda perversa é o poderoso ministro da Economia, Paulo Guedes, conhecido por sua pauta econômica claramente a favor do capital e que, por diversas vezes, já demonstrou seu desprezo e ódio aos pobres, aos trabalhadores e a um Estado forte, soberano e com um projeto de desenvolvimento nacional.

Mesmo em meio à pandemia, em que a humanidade jamais enfrentou os dramas e as dificuldades que vem enfrentando, a voracidade de Paulo Guedes em massacrar trabalhadores não acaba. Não satisfeito com as diversas medidas perversas já efetivadas – como a reforma da Previdência e a recente liberação de mais de R$ 1 trilhão aos bancos –, Guedes ainda quer mais reformas, reformas e mais reformas, com o claro propósito de fulminar de vez o Estado Social, através da reforma administrativa, além de massacrar, ainda mais, os trabalhadores, com o avanço da reforma trabalhista.

Foi preciso que a oposição ao governo se mobilizasse para que a renda mínima emergencial saísse, mesmo após ter ocorrido pretextos para dificultar a aprovação, por parte de Guedes. Bolsonaro ainda protelou, ao máximo, a sanção da ajuda financeira emergencial.

Mas vamos voltar ao presidente eleito.

Descrever todas as declarações e atitudes infelizes de Bolsonaro tornará o presente texto muito extenso, e não é esse o propósito. Um livro, talvez, seja o mais adequado para abarcar tanta insensatez, desrespeito, sordidez e, sobretudo, desumanidade do presidente.

Mas, a pandemia do novo coronavírus tem demonstrado, com ainda mais evidência, o desprezo de Bolsonaro com a vida das pessoas. A evidência já havia sido registrada, quando o músico Evaldo dos Santos foi covardemente fuzilado pelo Exército com 80 tiros, dentro de seu carro, junto à sua família. Bolsonaro chegou a declarar, pasmem novamente, que o Exército não havia matado ninguém.

Bolsonaro, no entanto, não se cansa de ser sórdido e desumano. Tem manifestado profunda discordância com as medidas de isolamento social – comprovadamente, as únicas eficazes contra a proliferação do vírus, defendidas pelas maiores autoridades médicas e científicas, e aplicadas pelos chefes de Estados ao redor do Planeta.

Chegou a manifestar suas posições em pronunciamento, com a inacreditável defesa de volta às aulas e do comércio em geral, o que tem gerado fortes discordâncias e atritos, até mesmo dentro de seu próprio governo.

Bolsonaro até chega a demonstrar, por pouco tempo, recuo às suas posições absurdas, mas as retoma com a mesma intensidade, sordidez e desumanidade de antes. Cada vez mais isolado – e objeto de chacota mundial –, busca agora, desesperadamente, investir na condição de salvador do mundo, ao defender (novamente em pronunciamento) a utilização de um medicamento ainda sem eficácia garantida e com comprovados efeitos colaterais muito fortes, tendo, com isso, uma típica postura populista, visando “hiper simplificar” uma questão complexa e dela tentar se apropriar.

Nenhuma palavra e nenhum gesto de solidariedade aos familiares das vítimas do coronavírus – e nem mesmo uma mínima preocupação com a pandemia. Reiteradamente, vem desrespeitando o isolamento social e afrontando as orientações de seu próprio governo, pondo em risco a vida das pessoas.

Seu comportamento cada vez mais irresponsável, sórdido e desumano, não por acaso, vem causando vergonha, indignação e repulsa em muitas pessoas que votaram visando elegê-lo.

A sensatez e, sobretudo, o sentimento de humanidade, talvez equivocadamente esquecido ou mesmo minorado em outubro de 2018, tem voltado, ao que parece, a sensibilizar muitas pessoas que votaram em Bolsonaro, o que pode demonstrar o país voltando a uma mínima atmosfera de civilidade, embora, havemos de convir, nossa sociedade nunca mais voltará ao que era antes.

Sim, já é o começo do fim da era de sordidez, do autoritarismo e da desumanidade. O bolsonarismo é um fenômeno? Se for um fenômeno, os objetivos estão cada vez mais claros e presentes. Embora cada vez mais isolado, o bolsonarismo, com seus objetivos cada vez mais claros e presentes, não projeta uma sociedade democrática e civilizada.

As forças democráticas precisam se unir e se alinhar, para frear e enfrentar o obscurantismo, o ódio e o pensamento antidemocrático – e para terminar de sepultar a era de sordidez, do autoritarismo e da desumanidade.

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