De Olho no Mundo, por Ana Prestes

Além dos impactos sociais, a pandemia da Covid-19 também tem implicações políticas como o adiamento de eleições e o agravamento do embargo econômico dos EUA contra Cuba, bem como a adoção de medidas econômicas para mitigar os efeitos danosos. Estes são alguns dos fatos analisados pela cientista política Ana Prestes, que aborda ainda a iniciativa ousada do governador Flávio Dino, do Maranhão, para adquirir respiradores e máscaras diretamente da China.

Ilustração: Latuff

Nove países da América Latina já adiaram eleições presidenciais, regionais ou referendos por conta da pandemia do coronavírus. O caso mais dramático é o da Bolívia que tinha eleições presidenciais marcadas para o dia 3 de maio e vive uma grande instabilidade política desde a deposição forçada do presidente e vencedor das eleições de 2019, Evo Morales. As eleições ainda não tem nova data. No Chile, trata se de do referendo sobre a elaboração de uma nova Constituição. Por enquanto foi adiado de abril para o final de outubro. Nos casos da Argentina, Colômbia, México, Paraguai, Peru e Uruguai foram suspensas as eleições municipais, ainda sem data prevista para acontecerem. Na República Dominicana as eleições presidenciais seriam dia 17 de maio e foram prorrogadas para 5 de julho. Já na Venezuela, as eleições legislativas foram prorrogadas para dezembro.

O site do jornal inglês Financial Times traz uma matéria sobre o que chama de “Aliança do Avestruz”, grupo de líderes mundiais que negam as ameaças do novo coronavírus. Bolsonaro estaria entre eles, segundo a revista. Assim como o presidente da Bielorússia, Alexander Lukashenko, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega e o presidente do Turcomenistão, Gurbanguly Berdymukhamedov. O nome do grupo é uma referência ao pássaro que enterra a cabeça na areia quando enfrenta perigo. Cada um desses dirigentes em seus países estão lidando de forma bastante diversa do resto do mundo com relação ao coronavírus. No caso do Brasil, governadores, parlamento e judiciário estão funcionando como uma barreira de contenção ao negacionismo de Bolsonaro.

A política de embargo econômico a Cuba, por parte dos EUA, está impedindo que a ilha compre medicamentos e respiradores no mercado internacional. Segundo a chancelaria cubana, as que forneciam esses insumos foram compradas por corporações norte-americanas impedidas de vender para Cuba. A ilha está muito próxima geograficamente da América do Norte e com o embargo precisa tentar comprar em mercados muito mais distantes, com altos custos pelo transporte e muita demora para entrega. Enquanto isso, Cuba possui hoje cerca de 1200 profissionais de saúde colaborando no combate ao coronavírus em 19 países, a maioria na América Latina e Caribe, mas também na África e Europa. Fora os 30 mil médicos que já trabalhavam em 60 países. Hoje Cuba possui 814 infectados pelo coronavírus e 24 falecidos, segundo os dados do mapa da Johns Hopkins University.

Está no jornal O Globo de hoje o relato de uma entrevista telefônica com o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, em que esse afirma que o país ajudará o Brasil a conseguir respiradores e equipamentos de segurança necessários na crise do coronavírus assim que os EUA começarem a sair de sua própria crise. Ele usou a expressão “turn the corner” ou “virar a esquina”. Ao ser questionado sobre cargas de respiradores destinadas ao Brasil, mas retidas nos EUA, Pompeo atacou a China, disse que a crise está demonstrando o risco que é “depender do Partido Comunista Chinês para tantos dos nossos recursos, tantas das coisas de que precisamos em tempos de crise”. Os EUA e países europeus também estão segurando suas exportações de peças necessárias para a confecção de respiradores na China e isso tem estrangulado a produção por lá, segundo representante da embaixada da China também ouvido pelo jornal.

No Brasil, o Estado do Maranhão, precisou fazer uma operação de guerra internacional para conseguir fazer com que uma carga de 107 respiradores e 200 mil máscaras comprados da China fosse recebida pelas mãos certas. A carga passou por outros países como Etiópia e Nigéria para escapar dos radares internacionais. Outras cargas anteriores já haviam sido interceptadas por Alemanha e EUA. Ao chegar em SP, a carga seguiu direto para o Maranhão. A operação levou 20 dias e custou 6 milhões de reais.

Na América do Sul, o Paraguai é um dos países mais vulneráveis com a falta de respiradores e equipamentos de proteção contra o coronavírus. O país não tem conseguido comprar o necessário no mercado internacional e possui apenas 115 leitos de UTI com respiradores para o país inteiro. Há poucos dias tiveram uma compra de 50 respiradores cancelada em situação muito semelhante à já ocorrida por vários estados brasileiros.

Reunidos ontem (15) os ministros das finanças e presidentes dos bancos centrais dos países do G20 decidiram suspender os pagamentos do serviço da dívida dos países mais pobres. O ministro das finanças da Arábia Saudita (país que preside o bloco hoje), Mohammed al-Jadaan Said informou à imprensa que o grupo vai congelar tanto os pagamentos da parte principal das dívidas quanto os juros. Serão liberados 20 bilhões de dólares para serem usados nos sistemas de saúde e recuperação econômica. Por fim, o comunicado sugere que os credores privados façam o mesmo.

A Coreia do Sul realizou eleições parlamentares ontem (15). E o Partido Democrata, do atual presidente Moon, obteve uma grande maioria com 180 dos 300 assentos disputados. O partido oposicionista UFP – United Future Party ficou com 103 assentos. Desde 1992 um partido não alcança uma maioria tão expressiva em eleições legislativas no país. Analistas dizem que a condução de Moon na crise do coronavírus é parte importante da explicação do sucesso. Nas últimas semanas, ele recebeu ligações de cerca de 20 chefes de estado que queriam saber sobre as medidas tomadas no país para mitigar a epidemia. A Coreia do Sul foi o primeiro país do mundo a realizar uma eleição presidencial em meio à pandemia. As pessoas foram votar com máscaras, usaram álcool em gel ou luvas e mantiveram uma distância entre elas estabelecida pelas autoridades. Antes de entrar na cabine nos postos de votação cada pessoa tinha sua temperatura medida. Aqueles que estavam com febre eram levados para uma cabine separada de votação.

O Japão precisou ampliar seu “estado de emergência” para todo o país. Pressionado por gerar uma percepção de reação tardia à crise, o primeiro ministro japonês Shinzo Abe anunciou que o estado de emergência agora é em todo o país e vai até o dia 6 de maio, pelo menos. Antes somente sete cidades, entre elas Tóquio e Osaka, estava com esse status. Esse estado de emergência não é equivalente a uma quarentena ou isolamento mais restrito, mas as autoridades locais receberam autorização para fechar comércios e escolas, além de restringir circulação de pessoas em geral.

Da Austrália veio uma ideia nova de como mapear a geo-localização do vírus. Exame de esgoto não tratado por região. A técnica já é usada na investigação de crimes para identificar presença de drogas ilícitas em cidades australianas. O projeto pode ajudar a detectar áreas geográficas em que a população está mais atingida. Os pesquisadores que publicaram um artigo científico que embasou o projeto encontraram vestígios do vírus em esgoto não tratado na Holanda, EUA e Suécia.

Na África, para além da pandemia do coronavírus, a população está ameaçada de um desabastecimento alimentar massivo devido a uma praga de gafanhotos que já atingiu um milhão de pessoas na Etiopia, arrasando 200 mil hectares e provocando a perda de mais de 360 mil toneladas de cereais como soja, milho e trigo. Países como Quênia e Somália devem ser os próximos a serem mais atingidos.

No Equador, o segundo país com o maior número de falecidos pelo coronavírus na América do Sul depois do Brasil, o presidente Lenin Moreno ao invés de buscar ajuda extra para trabalhadores, informais e comunidades indígenas, resolveu taxar progressivamente nos próximos 9 meses todos que ganham um salário a partir de 500 dólares.

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