Coronavírus segue a galope; ações do governo, a passos de tartaruga

Os últimos dados do avanço do coronavírus no Brasil continuam muito preocupantes, seja pelo número de contágios, pela letalidade, pelo eminente apagão de UTIs em algumas regiões, pelo testagem insuficiente e pelas ameaças contínuas ao fim do isolamento social.

Bolsonaro e Guedes subestimam o drama do povo brasileiro

Nesse quadro, mais do que nunca, torna-se indispensável e fundamental acelerar a chegada do auxílio aos que mais precisam: as famílias de baixa renda, aos trabalhadores autônomos cujas atividades estão paralisadas, aos que perderam o emprego por conta da crise, às empresas impossibilitadas de honrar seus compromissos com os empregados e fornecedores, aos Estados e municípios que estão na linha de frente no combate à pandemia.

No entanto, o que assistimos estarrecidos, semana após semana, é o coronavírus andando a galope e as ações emergenciais de apoio, decorrentes do estado de calamidade pública, caminhando a passos de tartaruga, ou seja, não há uma sintonia entre o avanço da doença e o apoio necessário para a manutenção do quadro de distanciamento social, ainda a ferramenta mais eficaz na atual realidade do país.

Isso não acontece à toa, como já vimos. O núcleo fundamentalista do governo, tendo Bolsonaro à frente, atua para a chamada “volta à normalidade”, através de um discurso hipócrita e mentiroso, enquanto Guedes, na outra ponta, organiza a resistência às diversas iniciativas, inclusive as já aprovadas pelo parlamento.

Vejamos: no último dia 30 de março, o Congresso Nacional aprovou uma renda emergencial de R$ 600 para que a população possa fazer a quarentena recomendada pelas autoridades sanitárias (o governo queria R$ 200), mas até o momento menos de 30% dos beneficiários foram atendidos. Até a sexta-feira (17), segundo dados da Caixa Econômica Federal, apenas 16 milhões tinham conseguido receber a ajuda financeira para sobreviver na crise. Até 20 de abril, 42,2 milhões de trabalhadores informais e autônomos haviam se cadastrado pelo aplicativo da instituição para receber a ajuda emergencial.

Entre os trabalhadores informais e autônomos a situação é ainda mais dramática: dos 45 milhões de inscritos para receber uma renda de emergência para sobreviver, apenas 9,1 milhões receberam. Os outros que receberam foram 9,2 milhões do cadastro único e 5,8 milhões do Bolsa-Família.

O governo continua também com a sua chantagem contra os Estados e municípios, buscando, com isso, retardar a liberação de recursos a prefeitos e governadores que já chegaram no seu limite no combate à doença. O prefeito de Manaus, Virgílio Neto, para ficar em apenas um exemplo, denunciou o esgotamento e a situação de extrema calamidade pública da capital amazonense, enquanto corpos e mais corpos eram enterrados em valas comuns diante da avalanche da crise no município.

Mesmo diante desse cenário catastrófico, o ministro da Economia voltou a negar o pedido de ajuda aos entes federados na batalha contra o coronavírus. Em videoconferência organizada pelo banco BTG Pactual, disse que o projeto aprovado pela Câmara dos Deputados para que a União compense as perdas da arrecadação do ICMS e do ISS é “inaceitável” e “não republicano”, e voltou a  mentir sobre a ajuda emergencial, dizendo que o governo está negociando com o SF uma proposta de R$ 88 bi, caso haja contrapartidas, como o congelamento das despesas com folha dos servidores públicos. Enquanto isso, os Estados e municípios recebem os impactos da queda brutal na arrecadação de ICMS e ISS.  

Já os bancos, aquinhoados pela injeção de liquidez de R$ 1,2 trilhão, ainda em março, continuam fazendo jogo duro para emprestar ao setor produtivo, pela prática de juros ainda muito altos e a exigência de garantias impraticáveis. Não por outro motivo, muitas empresas já estão demitindo ou reduzindo a jornada de seus funcionários e, consequentemente, seus respectivos salários, no momento em que os trabalhadores mais precisam do emprego e da preservação da renda.

Até mesmo o Ministério da Saúde continua contando com seu próprio Orçamento de 2020 para fazer frente às extraordinárias despesas decorrentes da pandemia. Além dos R$ 6,5 bilhões, até agora o único crédito suplementar que saiu para a área foi R$ 2,6 bilhões, totalizando R$ 9,1 bilhões, valores orçamentários já previstos. Dinheiro novo, até agora, nenhum.

O economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES, alertou que a grande lição da crise do coronavírus é que os bancos públicos são fundamentais para a economia. E destacou: “outra lição que vai sair dessa crise: vai parar essa encheção de saco de fechar banco público. É fundamental ter um sistema bancário público eficiente porque na hora do aperto são os bancos públicos que respondem ao que a sociedade precisa”, disse.

Diante da experiência já vivida por inúmeros países mundo afora, já é possível identificar os caminhos que deram certo e os que provocaram verdadeiras tragédias desde que a doença do coronavírus começou a se alastrar.

O Brasil tem diante de si essas experiências e não precisa reinventar a roda. E o resultado, resumidamente, é um só: os países que melhor enfrentaram a pandemia e estão se organizando para retomar a normalidade de suas atividades econômicas e sociais são precisamente os que se submeteram rigidamente à quarentena e promoveram a testagem em massa.

Com os testes, foi possível, para muitos, organizar de forma consciente o combate à pandemia, algo que só agora está sendo feito pontualmente no Brasil, pois, até então, não dispúnhamos de insumos para realizar a testagem em massa.

A Inglaterra foi o único país do mundo que inicialmente adotou de forma oficial a ideia, defendida agora por Bolsonaro, de deixar a população se infectar mais rapidamente para que o contágio chegasse a 70% da população. O governo inglês dizia que assim seria resolvido o problema. Esse método, chamado de “imunização de rebanho”, foi imediatamente abandonado pelo primeiro-ministro britânico Boris Johnson, assim que ele tomou conhecimento, através de estudo do Imperial College de Londres, de que morreriam 250 mil pessoas na Inglaterra.

Muitos tiveram que retornar a uma quarentena ainda mais rigorosa, mas já era tarde demais. O prefeito de Milão, por exemplo, que liderou a campanha “Itália não pode parar”, foi obrigado a pedir perdão publicamente por ter defendido a volta ao trabalho antes da hora. Enquanto ele falava, milhares de italianos perdiam a vida sem poderem ser atendidos nas UTIs lotadas.

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