Aldir Blanc (1946-2020), o compositor da “esperança equilibrista”

Artista carioca morreu nesta segunda-feira (4), aos 73, vítima do coronavírus

Sir Alfred Hitchcock (1899-1980) dizia que filmes não podem ter começos retumbantes, desses que fazem o espectador se mexer da cadeira já na primeira cena. É como se os roteiristas e diretores estivessem proibidos de abusar irrestritamente das emoções e, sobretudo, das expectativas do público. Se a abertura de um longa-metragem já levasse ao êxtase, como manter a atenção das pessoas e não decepcioná-las ao longo do filme?

Como bom cinéfilo que era, Aldir Blanc provavelmente não faria reparo a essa convenção do cinema clássico. Mas, para contar as próprias histórias, Aldir, carioca nascido no Estácio e criado na Vila Isabel, escolheu não os filmes, mas, sim, as crônicas e, notadamente, as letras de música. E, ao compor, parecia inverter a “regra” hitchcockeana.

Seus versos iniciais eram estonteantes por si só . E traziam denúncia de cara, revelando as posições políticas progressistas do compositor – um esquerdista que, por sinal, jamais flertou com as pressões da pauta identitária e tinha Maiakovski, o “poeta da revolução”, como seu escritor predileto. Veja-se a crônica-canção – ou canção-crônica – De Frente pro Crime (1975), um dos frutos de sua abençoada parceria com o mineiro João Bosco, que rendeu cerca de 120 músicas.

A dupla João Bosco e Aldir Blanc (à dir.) compôs,em parceria, 120 músicas

Sob o regime militar e em meio à escalada da violência urbana, De Frente pro Crime denuncia a banalização do crime. O primeiro verso, de tão forte, virou um bordão popular: “Tá lá um corpo estendido no chão”. Aldir Blanc, recém-formado em Medicina, com especialização em psiquiatria, tinha uma familiaridade com a alma humana – e queria tratar da reação das pessoas a um assassinato por vingança.

A cena descrita na música é um alvoroço. O corpo no chão, morto, com um jornal por cima, comove alguns, atiça outros, atrai a multidão. A certa altura, porém, a vida precisa seguir: “Sem pressa foi cada um pro seu lado / Pensando numa mulher ou num time / Olhei o corpo no chão e fechei / Minha janela de frente pro crime”.

Aldir – que chamava João Bosco de “filósofo” – gostava de citar uma blague que seu amigo soltou num show da dupla: “Blanc, nós dois sabemos que no final vai dar merda. Mas vamos cantando, recomeçando sempre, como canções e epidemias”.

Em 1978, quando a oposição pedia uma anistia “ampla, geral e irrestrita” – e a ditadura acenava com uma abertura “lenta, gradual e segura” –, Bosco apresentou uma música em homenagem a Charles Chaplin, que havia falecido no Natal de 1977. Aldir respeitou o pedido do amigo e parceiro, mas ampliou a temática. Via na melodia ecos de um sentimento de esperança que tomava conta dos brasileiros. Uma esperança que, ainda tímida, requeria estímulo e obstinação. Assim nasceu a O Bêbado e a Equilibrista (1978), a obra-prima da dupla, com versos recheados de metáforas e alusões à resistência à ditadura – além, claro, das devidas referências a Chaplin.

Aldir foi criticado pelo verso inaugural espalhafatoso – “Caía a tarde feito um viaduto”. Era uma inusual comparação entre o Brasil autoritário e o Viaduto Engenheiro Freyssinet (o elevado sobre a Rua Paulo de Frontin, no Rio), que desabara no começo daquela década, deixando 26 mortos. Acusado de insensível, o compositor jamais digeriu as reações mais maldosas ao verso, ainda mais por se tratar da composição de sua autoria da qual ele mais gostava.

“Eu não tolero algumas críticas feitas à música. Falar que o verso ‘caía a tarde feito um viaduto’ é incompreensivel é de rara estupidez”, afirmou ele, certa vez, em depoimento ao jornal O Globo. “Até porque o meu avô paterno passou segundos antes embaixo dele – e ele caiu e quase matou meu avô, que ficou empoeirado. Como não cai? Vai pro inferno. Aí entra a frase que eu gosto de repetir: todo sujeito que se preocupa muito com o significante é um insignificante.”

Na letra, depois que a tarde tombava como a queda de um viaduto, vinham imagens únicas, belas e tristes – “um bêbado trajando luto”, a lua que “pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel” e as nuvens “no mata-borrão do céu” que “chupavam manchas torturadas”. O lado poeta de Aldir Blanc dialogava à perfeição com o lado cronista.

Sempre de forma indireta, Aldir citava, então, as vítimas do regime militar, como o “irmão do Henfil” – o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que estava exilado e a quem o compositor sequer conhecia pessoalmente. Aldir era amigo da família Souza e, durante o exílio de Betinho, convivia sobretudo com o cartunista Henfil. “Agora temos um hino – e quem tem um hino faz uma revolução!”, teria dito Henfil a Betinho, por telefone, assim que ouviu a música.

Com sutileza, a letra também nos lembrava que o governo do general-ditador Geisel – o mesmo que propunha a abertura – era responsável pelas mortes, sob tortura, de nomes como o metalúrgico Manuel Fiel Filho e o jornalista Vladimir Herzog. Nos dois casos, em vez dos mártires, Aldir Blanc mencionava as viúvas – “Choram Marias e Clarices / No solo do Brasil”.

Das lágrimas das viúvas e através da voz de Elis Regina, O Bêbado e a Equilibrista virou a música-síntese da Anistia e da redemocratização do Brasil. Nas palavras da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), a canção “foi luz em meio às trevas da falta de liberdade”.

Hoje, mais de quatro décadas depois, nós é que choramos a perda desse grande compositor de mais de 600 músicas e autor de mais de mil crônicas. “Sem dúvida, quem letra é o garoto do curtíssimo período que passou em Vila Isabel, dos 3 aos quase 11 anos. Quando esse garoto morrer, o letrista, articulista, seja lá o que for, morre junto”, declarou Aldir Blanc, em 2016, às vésperas de completar 70 anos.

Aldir morreu nesta segunda-feira (4), aos 73, vítima do coronavírus – mas também do descaso do Poder Público. “Ele foi o cara mais parecido comigo que eu já conheci: canhoto, vascaíno e canhoto na vida”, afirmou, em tom de brincadeira, o amigo e parceiro musical Guinga, ao comentar a morte de Aldir.

O maior parceiro do compositor, João Bosco, também se pronunciou. “Aldir foi mais do que um amigo para mim. Ele se confunde com a minha própria vida”, escreveu João Bosco numa rede social. “Perco o maior amigo, mas ganho, nesse mar de tristeza, uma razão para viver: quero cantar nossas canções até onde eu tiver forças. Uma pessoa só morre quando morre a testemunha. E eu estou aqui para fazer o espírito do Aldir viver. Eu e todos os brasileiros e as brasileiras tocados por seu gênio.”

Se o Brasil de Bolsonaro parece cada vez mais subtrair nossas forças e impor outra “dor assim pungente”, a resposta – a nossa vitória – requer unidade, atenção e muita, muita persistência. Como compôs Aldir e cantou Elis, a esperança, antes de tudo, é uma “equilibrista” que “dança na corda bamba de sombrinha / E em cada passo dessa linha pode se machucar”.

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